{"id":6116,"date":"2012-09-01T00:00:00","date_gmt":"2012-09-01T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/paralimpismo\/"},"modified":"2012-09-01T00:00:00","modified_gmt":"2012-09-01T03:00:00","slug":"paralimpismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/paralimpismo\/","title":{"rendered":"Paralimpismo"},"content":{"rendered":"<div>&nbsp;<b><a name=\"Save1\"><\/a> &nbsp;<\/b> JOS\u00c9 HORTA MANZANO<i style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><\/i>  <\/p>\n<p>Enganam-se o gentil leitor e a distinta leitora se imaginarem que estou aqui,  a mando de sabe-se l\u00e1 que multinacional, cumprindo a nobre miss\u00e3o de  apresentar-lhes novo produto de limpeza. O que parece nem sempre \u00e9, como sabem  todos os que, um dia, j\u00e1 passaram pela experi\u00eancia de levar gato por lebre.  Comecemos pelo come\u00e7o, que d\u00e1 mais certo.  <\/p>\n<p>Sentindo os ventos f\u00e9tidos que prenunciavam as atrocidades da Segunda Guerra  Mundial, um certo dr. Ludwig Guttman, cirurgi\u00e3o do Hospital Judeu de Breslau  (hoje Wroclaw), deixou a Alemanha em 1939 e se refugiou na Inglaterra, onde  continuou a exercer seu of\u00edcio.  <\/p>\n<p>Os Jogos Ol\u00edmpicos previstos para 1940 e para 1944 n\u00e3o se realizaram, por  raz\u00e3o de conflito mundial. Mas Londres fez quest\u00e3o de sediar os de 1948. Quis  mostrar ao mundo que, apesar das perdas, dos bombardeios, das priva\u00e7\u00f5es, o velho  le\u00e3o ainda estava de p\u00e9, alerta, pronto para mostrar-se sob seu perfil mais  favor\u00e1vel.  <\/p>\n<p>Os combates haviam deixado um rastro de mutilados e estropiados. Dr. Guttman  teve a brilhante ideia de valer-se dos holofotes dos Jogos Ol\u00edmpicos para  promover uma manifesta\u00e7\u00e3o paralela, exclusivamente dedicada a atletas  cadeirantes. Diga-se logo que a ideia n\u00e3o despertou no p\u00fablico nenhum entusiasmo  delirante. A vista daqueles amputados reavivava feridas dolorosas e ainda n\u00e3o  cicatrizadas. Aquilo trazia lembran\u00e7a do que todos queriam justamente esquecer.  Apesar de o bom doutor ter tentado oficializar sua iniciativa, o sucesso foi  t\u00eanue. Ainda n\u00e3o era a hora.  <\/p>\n<p>A ideia cochilou. Foi preciso que uma gera\u00e7\u00e3o inteira se passasse para que a  humanidade estivesse pronta a aceitar a novidade. Veio aos poucos. J\u00e1 em 1960,  nos Jogos de Roma, houve um embri\u00e3o de competi\u00e7\u00f5es para atletas diminu\u00eddos por  defeitos f\u00edsicos. Pouco a pouco, a nova pr\u00e1tica foi ganhando os esp\u00edritos, e  diret\u00f3rios nacionais foram-se formando. Logo veio a necessidade de criar um  comit\u00ea internacional para coordenar os diret\u00f3rios nacionais da nova modalidade  esportiva. Em 1989, fundou-se em D\u00fcsseldorf o organismo tutelar. Faltava dar-lhe  o nome.  <\/p>\n<p>N\u00e3o houve grandes discuss\u00f5es. Tomou-se o prefixo grego <i>&#960;&#945;&#961;&#945;<\/i>, que evoca  a semelhan\u00e7a, a proximidade, e juntou-se-lhe o nome tradicional das competi\u00e7\u00f5es.  Nasceram assim os Jogos Paraol\u00edmpicos. As duas ra\u00edzes gregas compuseram um  adjetivo novo, claro, expl\u00edcito. Ingleses, alem\u00e3es, franceses, castelhanos  decidiram amputar a primeira letra do nome principal. Para n\u00f3s, soa estranho.  Resultaram formas como <i>Paralympic Games, Paralympische Spiele, Jeux  Paralympiques, Juegos Paral\u00edmpicos<\/i>. Parece produto de limpeza.  <\/p>\n<p>Pelo menos desta vez \u2014 \u00e9 t\u00e3o raro, da\u00ed nosso orgulho \u2014 foi-nos permitido  desdenhar com certa superioridade da falta de cultura dos falantes dessas  l\u00ednguas. N\u00f3s, com nossos Jogos Paraol\u00edmpicos, hav\u00edamos tido a sabedoria de  manter o aspecto, o som e a ideia, tudo sem deturpar nenhuma palavra! Foi  envaidecedor, digo sinceramente. No tempo em que ainda era permitido, cheguei a  pensar: &#8220;Eles, que s\u00e3o brancos, que se entendam&#8221;.  <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Ao contr\u00e1rio do  que cantava Eduardo das Neves na marchinha que comp\u00f4s em 1902 em homenagem a  Santos Dumont \u2014 &#8220;a Europa curvou-se ante o Brasil&#8221; \u2014, desta vez fomos n\u00f3s que  sucumbimos. O Brasil acabou dobrando-se diante da Europa.  <\/p>\n<p>N\u00e3o sei quem teve a fabulosa ideia, nem quando esse espantoso estalo ter\u00e1  ocorrido. O fato \u00e9 que a palavra tradicional foi atirada \u00e0 lata de lixo da  hist\u00f3ria. Atropelamos o esp\u00edrito de nossa l\u00edngua. Foram ignorados os usos e  costumes de nossa norma culta que, tradicionalmente, impelem o prefixo a  adaptar-se ao nome. Mil anos de forma\u00e7\u00e3o de nosso falar foram alegremente  desconsiderados. Se era para encurtar, que se oficializasse &#8220;parol\u00edmpicos&#8221;.  Seria uma forma intermedi\u00e1ria, nem l\u00e1 nem c\u00e1, que talvez satisfizesse a gregos e  a troianos.  <\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o. O bra\u00e7o brasileiro da organiza\u00e7\u00e3o traz o ex\u00f3tico (e mui oficial)  nome de&#8230; Comit\u00ea Paral\u00edmpico (sic) Brasileiro. Com site e tutti quanti. O nome  de origem foi transfigurado por meio de verdadeira pol\u00edtica de faroeste,  daquelas que primeiro executam o suspeito, para impossibilitar o devido  julgamento. N\u00e3o se julgam cad\u00e1veres.  <\/p>\n<p>A adultera\u00e7\u00e3o foi heresia perpetrada ao arrepio da forma sacramentada pelo  Vocabul\u00e1rio Ortogr\u00e1fico da ABL, guardi\u00e3o da l\u00edngua! Que aqueles que patrocinaram  esse &#8220;malfeito&#8221; levantem os bra\u00e7os ao c\u00e9u e agrade\u00e7am por n\u00e3o se queimarem mais  hereges em fogueiras. Se algu\u00e9m pensou em coloniza\u00e7\u00e3o cultural, n\u00e3o h\u00e1 de estar longe da  verdade. &nbsp; &nbsp;<\/p><\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; JOS\u00c9 HORTA MANZANO Enganam-se o gentil leitor e a distinta leitora se imaginarem que estou aqui, a mando de sabe-se l\u00e1 que multinacional, cumprindo a nobre miss\u00e3o de apresentar-lhes novo produto de limpeza. O que parece nem sempre \u00e9, como sabem todos os que, um dia, j\u00e1 passaram pela experi\u00eancia de levar gato por lebre. Comecemos pelo come\u00e7o, que d\u00e1 mais certo. 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