{"id":6180,"date":"2012-05-03T12:25:00","date_gmt":"2012-05-03T15:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/virando_anedota\/"},"modified":"2012-05-03T12:25:00","modified_gmt":"2012-05-03T15:25:00","slug":"virando_anedota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/virando_anedota\/","title":{"rendered":"Virando anedota"},"content":{"rendered":"<p>  L.F.Ver\u00edssimo   <\/p>\n<p>A  oposi\u00e7\u00e3o entre corpo e alma n\u00e3o existia em tempos b\u00edblicos, ou pelo menos na linguagem b\u00edblica. Mas a vers\u00e3o em latim antigo das Escrituras que Santo Agostinho lia usava \u201canima\u201d para traduzir \u201cnefesh\u201d, que em hebraico n\u00e3o quer dizer alma mas algo como sopro vital, ser, uma forma exaltada do \u201ceu\u201d. E foi nesse engano que tudo come\u00e7ou. A alma e o corpo se separaram e nunca mais se encontraram. E nunca mais se pode ler o Velho Testamento a n\u00e3o ser como Agostinho o lia, n\u00e3o como um relato da aventura do corpo humano no mundo como Deus o fez, cheio de som, f\u00faria, sangue e sacanagem, mas como uma alegoria espiritual, em que at\u00e9 os cantares er\u00f3ticos de Salom\u00e3o queriam dizer outra coisa: a luta da alma para transcender o corpo, que para Agostinho significava a sexualidade. Tudo culpa de um mau tradutor.   <\/p>\n<p>Freud tentou, de certa maneira, retransformar \u201canima\u201d em \u201cnefesh\u201d, mas como muito do que ele escreveu em alem\u00e3o tamb\u00e9m foi mal traduzido em outras l\u00ednguas, a confus\u00e3o s\u00f3 aumentou. No fim a grande dana\u00e7\u00e3o sob a qual vive a humanidade n\u00e3o \u00e9 a da Hist\u00f3ria nem da carne, \u00e9 a insan\u00e1vel dana\u00e7\u00e3o de Babel. Deus disse \u201cque haja muitas l\u00ednguas, e que cada l\u00edngua tenha muitos dialetos\u201d. E depois, para ter certeza que os homens nunca mais se entenderiam, completou: \u201cE que haja tradutores\u201d.      <\/p>\n<p>Um estudo, mesmo superficial como o meu, da etimologia e das transforma\u00e7\u00f5es que as palavras sofrem atrav\u00e9s do tempo e das m\u00e1s tradu\u00e7\u00f5es revela coisas fascinantes. \u201cEsc\u00e2ndalo\u201d \u2013 uma palavra que nos diz muito respeito \u2013 est\u00e1 indiretamente ligado, na sua origem, aos p\u00e9s. Sua raiz indo-europeia \u00e9 \u201cskand\u201d, pular ou subir, de onde tamb\u00e9m vem escalada. Quem pula ou sobe precisa cuidar onde p\u00f5e os p\u00e9s e o grego \u201cskandalon\u201d significa um obst\u00e1culo ou uma armadilha. \u201cScandalum\u201d em latim tanto pode significar tenta\u00e7\u00e3o como armadilha. No franc\u00eas antigo \u201cscandal\u201d era um comportamento anti-religioso que agredia a Igreja toda-poderosa e, da mesma origem, existia a palavra \u201csclaudre\u201d, de onde vem o ingl\u00eas \u201cslander\u201d, ou difama\u00e7\u00e3o.      <\/p>\n<p>Alguns esc\u00e2ndalos n\u00e3o investigados, como acontece muito no Brasil, acabam virando anedotas. \u201cAnedota\u201d vem, atrav\u00e9s do franc\u00eas \u201canecdote\u201d, do grego \u201canekdotos\u201d, hist\u00f3ria n\u00e3o publicada, presumivelmente tanto no sentido de in\u00e9dita quanto no sentido de vers\u00e3o n\u00e3o oficial, secreta, clandestina, enfim, tipo \u201cem Bras\u00edlia n\u00e3o se fala em&nbsp;outra coisa\u201d.    Em franc\u00eas queria dizer pequeno relato ilustrativo \u00e0 margem de um relato maior. No seu sentido brasileiro continua sendo uma hist\u00f3ria marginal, s\u00f3 que engra\u00e7ada, ou se esfor\u00e7ando para ser. Sobrevive, na anedota, a tradi\u00e7\u00e3o hom\u00e9rica da literatura oral, passada de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o sem necessidade de escrita. Se for escrita, deixa de ser anedota.       <\/p>\n<p>Muitos contadores anotam o fim da anedota para n\u00e3o esquec\u00ea-la, mas se sentiriam her\u00e9ticos se a escrevessem toda. E assim correm o risco de esquecerem o resto e ficarem com uma cole\u00e7\u00e3o de \u00faltimas frases sem sentido.   <\/p>\n<p>(Publicado no jornal Zero Hora de 23.4.12)  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L.F.Ver\u00edssimo A oposi\u00e7\u00e3o entre corpo e alma n\u00e3o existia em tempos b\u00edblicos, ou pelo menos na linguagem b\u00edblica. Mas a vers\u00e3o em latim antigo das Escrituras que Santo Agostinho lia usava \u201canima\u201d para traduzir \u201cnefesh\u201d, que em hebraico n\u00e3o quer dizer alma mas algo como sopro vital, ser, uma forma exaltada do \u201ceu\u201d. E foi nesse engano que tudo come\u00e7ou. 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