{"id":6187,"date":"2011-07-27T15:30:00","date_gmt":"2011-07-27T18:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/coisa\/"},"modified":"2011-07-27T15:30:00","modified_gmt":"2011-07-27T18:30:00","slug":"coisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/coisa\/","title":{"rendered":"Coisa"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <\/p>\n<\/div>\n<div>\n<div><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><\/p>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div>A palavra coisa \u00e9 um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. \u00c9 aquele tipo de  termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para  exprimir uma ideia. Coisas do portugu\u00eas.<\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <\/p>\n<p>A  natureza das coisas: gramaticalmente, coisa pode ser substantivo, adjetivo,  adv\u00e9rbio. Tamb\u00e9m pode ser verbo: o Houaiss registra a forma coisificar. E no  Nordeste h\u00e1 coisar: <i>&#8220;\u00d3, seu coisinha,  voc\u00ea j\u00e1 coisou aquela coisa que eu mandei voc\u00ea  coisar?&#8221; <\/p>\n<p><\/i> <\/p>\n<p>Coisar,  em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josu\u00e9 Machado. J\u00e1 as coisas  nordestinas s\u00e3o sin\u00f4nimas dos \u00f3rg\u00e3os genitais, registra o Aur\u00e9lio. <i>&#8220;<\/i>E deixava-se possuir pelo amante, que lhe  beijava os p\u00e9s, as coisas, os seios&#8221;<i> (Riacho Doce, <\/i>Jos\u00e9 Lins do<i>  <\/i>Rego<i>).<\/i> Na Para\u00edba e em Pernambuco, coisa tamb\u00e9m \u00e9 cigarro de  maconha. <\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <\/p>\n<p>Em  Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como s\u00edmbolo em seu  estandarte. Alceu Valen\u00e7a canta: &#8220;Segura  a coisa com muito cuidado \/ Que eu chego j\u00e1.&#8221; E, como em Olinda  sempre h\u00e1 bloco mirim equivalente ao de gente grande, h\u00e1 tamb\u00e9m o Segura a  Coisinha.<\/p><\/div>\n<div>\n<p>Na  literatura, a coisa \u00e9 coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade  escreveu a cr\u00f4nica &#8220;O Coisa&#8221; em 1943.  A coisa \u00e9 t\u00edtulo de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A for\u00e7a  das coisas, e Michel Foucault, As palavras e as coisas.<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <\/p>\n<p>Em  Minas Gerais, todas as coisas s\u00e3o chamadas de trem. Menos o trem, que l\u00e1 \u00e9  chamado de a coisa. A m\u00e3e est\u00e1 com a filha na esta\u00e7\u00e3o, o trem se aproxima e  ela diz: &#8220;Minha filha, pega os trem que l\u00e1  vem a coisa&#8221;.<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Devido lugar: &#8220;Olha que coisa mais  linda, mais cheia de gra\u00e7a (&#8230;)&#8221;<i>.<\/i> A garota de Ipanema era coisa de  fechar o Rio de Janeiro.&#8221;Mas se ela  voltar, se ela voltar \/ Que coisa linda \/ Que coisa louca.&#8221; Coisas de  Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas. <\/p>\n<\/div>\n<div>Sampa tamb\u00e9m tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta &#8220;Alguma coisa acontece no meu  cora\u00e7\u00e3o&#8221;<i>,<\/i> de Caetano Veloso, ou quando v\u00ea o Show de Calouros, do  Silvio Santos (que \u00e9 coisa nossa).<\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Coisa n\u00e3o tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim \u00e9 o capeta. Coisa  boa \u00e9 a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <\/p>\n<p> Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa  no recente Quarteto Fant\u00e1stico. Extra\u00eddo dos quadrinhos, na TV o personagem  ganhou tamb\u00e9m desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta,  Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem Coisinha de  Jesus.<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Coisa tamb\u00e9m n\u00e3o tem tamanho. Na boca dos exagerados, coisa nenhuma vira cois\u00edssima. Mas a coisa tem hist\u00f3ria na MPB. No II Festival da M\u00fasica  Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de  Geraldo Vandr\u00e9 <i>(<\/i>&#8220;Prepare seu cora\u00e7\u00e3o \/  Pras coisas que eu vou contar&#8221;<i>),<\/i> e A banda, de Chico Buarque <i>(<\/i>&#8220;Pra&nbsp; ver a banda passar \/ Cantando coisas  de amor&#8221;)<i>,<\/i> que acabou de ser relan\u00e7ada num dos CDs triplos do  compositor, que a Som Livre  remasterizou.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Naquele ano do  festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da  Jovem Guarda n\u00e3o tava nem a\u00ed com as coisas: &#8220;Coisa linda \/ Coisa que eu  adoro&#8221;.<\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do cora\u00e7\u00e3o, Coisas que  n\u00e3o se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente n\u00e3o tira do  cora\u00e7\u00e3o. Todas essas coisas s\u00e3o t\u00edtulos de can\u00e7\u00f5es interpretadas por Roberto  Carlos, o rei das coisas. Como ele, uma gera\u00e7\u00e3o da MPB era preocupada com as  coisas. <\/p><\/div>\n<div>\n<p>Para Maria Beth\u00e2nia, o diminutivo de coisa \u00e9 uma quest\u00e3o de quantidade  (afinal,&#8221;s\u00e3o tantas coisinhas  mi\u00fadas&#8221;<i>)<\/i>. J\u00e1 para Beth Carvalho, \u00e9 de carinho e intensidade <i>(<\/i>&#8220;\u00f4 coisinha t\u00e3o bonitinha do pai&#8221;)<i>.<\/i>  Todas as coisas e eu \u00e9 t\u00edtulo de CD  de Gal. &#8220;Esse papo j\u00e1 t\u00e1 qualquer  coisa&#8230;J\u00e1 qualquer&nbsp; coisa doida dentro mexe.&#8221; Essa coisa doida  \u00e9 uma cita\u00e7\u00e3o da m\u00fasica Qualquer coisa, de Caetano, que canta tamb\u00e9m: &#8220;Alguma coisa est\u00e1 fora da  ordem.&#8221;<\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Por essas e por outras, \u00e9 preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa  de cada vez, \u00e9 claro, pois uma coisa \u00e9 uma coisa; outra coisa \u00e9 outra coisa. E  tal coisa, e coisa e tal. O cheio de  coisas \u00e9 o indiv\u00edduo chato, pleno de n\u00e3o me toques. O cheio das coisas, por sua vez, \u00e9 o  sujeito estribado. Gente fina \u00e9 outra coisa. Para o pobre, a coisa est\u00e1 sempre  feia: o sal\u00e1rio m\u00ednimo n\u00e3o d\u00e1 pra coisa nenhuma.<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>A coisa p\u00fablica n\u00e3o funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Pol\u00edtico  quando est\u00e1 na oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de  figura. Quando se elege, o eleitor pensa: &#8220;Agora a coisa vai&#8221;. Coisa nenhuma! A  coisa fica na mesma. Uma coisa \u00e9 falar; outra \u00e9 fazer. Coisa feia! O eleitor j\u00e1  est\u00e1 cheio dessas coisas!<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Coisa \u00e0&nbsp; toa. Se voc\u00ea aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa  qualquer, um coisa \u00e0 toa. Numa cr\u00edtica feroz a esse estado de coisas, no poema &#8221; Eu, etiqueta&#8221;, Drummond radicaliza: &#8220;Meu  nome novo \u00e9 coisa. Eu sou a coisa, coisamente.&#8221; E, no verso do poeta, coisa vira cousa.<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <\/p>\n<p>&nbsp;Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que  ent\u00e3o n\u00f3s amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na  cabe\u00e7a: as melhores coisas da vida n\u00e3o s\u00e3o coisas. H\u00e1 coisas que o dinheiro n\u00e3o  compra: paz, sa\u00fade, alegria e outras <i>cositas m\u00e1s<\/i>.<\/div>\n<div>\n<p>Mas, &#8220;deixemos de coisa, cuidemos da  vida, sen\u00e3o chega a morte ou coisa parecida&#8221;<i>,<\/i> cantarola Fagner em  Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cec\u00edlia Meireles, uma coisa linda. Por  isso, fa\u00e7a a coisa certa e n\u00e3o esque\u00e7a o grande mandamento: &#8220;Amar\u00e1s a Deus sobre  todas as coisas&#8221;. <\/div>\n<div>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <\/div>\n<div>Entendeu o esp\u00edrito da coisa? <\/p>\n<p>(Colabora\u00e7\u00e3o da Marlene Cabrera &amp; outros. Todos desconhecem o autor dessa coisa criativa chamada Coisa.) <\/p>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; A palavra coisa \u00e9 um bombril do idioma. 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