{"id":6206,"date":"2012-01-09T08:00:00","date_gmt":"2012-01-09T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/la_vai_o_brasil_subindo_a_ladeira\/"},"modified":"2012-01-09T08:00:00","modified_gmt":"2012-01-09T10:00:00","slug":"la_vai_o_brasil_subindo_a_ladeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/la_vai_o_brasil_subindo_a_ladeira\/","title":{"rendered":"L\u00e1 vai o Brasil, subindo a ladeira"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p>JAIME PINSKY<i style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora  Contexto<\/i> &nbsp; Na cultura oral, os contadores de hist\u00f3ria eram verdadeiros atores que  relatavam epis\u00f3dios, reais ou imagin\u00e1rios, com dramaticidade, acentuando  passagens emocionantes, criando suspense, a ponto de deixar insones os ouvintes,  abalados com revela\u00e7\u00f5es e sugest\u00f5es que a narrativa apresentava. Ainda  encontramos resqu\u00edcios dessa cultura no interior do pa\u00eds, mas ela se encontra em  extin\u00e7\u00e3o, engolida pela TV, mais visual, acess\u00edvel a quase toda a popula\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n<p>Talvez a grande trag\u00e9dia da cultura brasileira tenha sido passar,  diretamente, da cultura oral para a digital. Quando, finalmente, o Estado passou  a considerar essencial a alfabetiza\u00e7\u00e3o de toda a popula\u00e7\u00e3o (com qualidade muito,  mas muito discut\u00edvel mesmo, diga-se de passagem) j\u00e1 era tarde. A internet, com  todos os seus produtos (e-mails, redes sociais, Twitter, Facebook), assim como a  cultura dos torpedos em celulares, promoveram n\u00e3o apenas uma nova linguagem (at\u00e9  a\u00ed, tudo bem), mas um discurso sugestivo em vez de um outro argumentativo,  portanto sem coes\u00e3o ou coer\u00eancia, sem fluxo narrativo, sem come\u00e7o, meio e  fim.  <\/p>\n<p>Sempre poder\u00edamos argumentar que, para alguns, a frase curta, solta, \u00e9 apenas  uma forma a mais de express\u00e3o, que pode perfeitamente coexistir com outras. De  acordo, mas isso s\u00f3 existe para os que antes aprenderam a estruturar o  pensamento logicamente. Para a maioria, o discurso argumentativo n\u00e3o passa de  uma forma antiga, superada, de comunica\u00e7\u00e3o entre os homens, uma esp\u00e9cie de  pr\u00e9-hist\u00f3ria que se confunde com redigir \u00e0 m\u00e3o ou com velhas m\u00e1quinas de  escrever.  <\/p>\n<p>\u00c9 claro que a substitui\u00e7\u00e3o das formas de comunica\u00e7\u00e3o tem a ver com um dos  aspectos mais relevantes da vida moderna, a pressa. Comemos depressa, devoramos  o nosso alimento em vez de degust\u00e1-lo mansamente. Amamos depressa e substitu\u00edmos  impacientemente nossa antiga paix\u00e3o por outra, mais fresca, que, no entanto, n\u00e3o  resistir\u00e1 a nenhuma rusga, nenhuma crise. Usamos nossas roupas, nossos carros,  nossos computadores, nossos celulares at\u00e9 que eles nos pare\u00e7am &#8220;superados&#8221;, n\u00e3o  necessariamente por obsolesc\u00eancia real, mas psicol\u00f3gica. O novo, sempre o novo.  Afinal, n\u00e3o \u00e9 para isso que trabalhamos?  <\/p>\n<p>A sociedade de consumo venceu, o capitalismo darwinista (na express\u00e3o de Am\u00f3s  Oz), competitivo, produtor de mercadorias, venceu. Ironicamente, o pa\u00eds \u00edcone  dos comunistas at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s, a China, \u00e9 o mais darwinista dos  produtores de mercadorias com obsolesc\u00eancia programada (pela m\u00e1 qualidade dos  componentes, ou pelo cansa\u00e7o do usu\u00e1rio). A propaganda venceu, conseguiu  convencer a todos de que ser\u00edamos infelizes, verdadeira e profundamente  infelizes se n\u00e3o conseguirmos fazer dinheiro suficiente para comprar aquele  produto ou obter aquele servi\u00e7o que nosso colega, nosso amigo, nosso conhecido  conseguiu.  <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para que ler um livro de Tomas Mann, que tem centenas de p\u00e1ginas e  exige um investimento intelectual mais s\u00e9rio, se podemos nos emocionar com  cap\u00edtulos de novelas cafonas e \u00f3bvias? E o mais grave \u00e9 que elas preenchem  nossas necessidades. Para que procurar um filme mais exigente, se consumimos os  mesmos filmecos que nossos filhos pequenos gostam, os que escondem a  inexist\u00eancia de conte\u00fado por meio de uma forma cada vez mais elaborada, pl\u00e1gios  n\u00e3o bem disfar\u00e7ados de verdadeiros criadores? Nossa incapacidade de desfrutar de  produtos intelectuais mais sofisticados pode ser percebida at\u00e9 na preocupa\u00e7\u00e3o de  lermos e enviarmos mensagens de celular no meio de uma sess\u00e3o de cinema, ou da  execu\u00e7\u00e3o de um movimento lento de um concerto de Beethoven.  <\/p>\n<p>Tudo isso me vem \u00e0 cabe\u00e7a a partir de not\u00edcia veiculada no <i>Jornal da  Cultura<\/i> (TV Cultura, S\u00e3o Paulo) desta \u00faltima quarta-feira. Pesquisa feita  com jovens da periferia de S\u00e3o Paulo, sem forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, mostra que  eles est\u00e3o comprando autom\u00f3veis e motos para seu transporte pessoal, para pagar  em dois ou tr\u00eas anos. Triste governo, incapaz de dotar a cidade de uma rede  m\u00ednima de transporte coletivo. Mas tristes garotos tamb\u00e9m. Perguntado sobre seus  planos ap\u00f3s terminar de pagar o carro, um deles n\u00e3o hesitou em afirmar: &#8220;Comprar  um carro melhor&#8221;.   <\/p>\n<p>Despreparado, nem sequer cogita usufruir de bens culturais produzidos pela  humanidade, mas acredita que sair metaforicamente da periferia \u00e9 ter um carro  como o de quem mora na \u00e1rea central da cidade. Como n\u00e3o sabe ler e compreender,  sua consci\u00eancia social limita-se \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de tuiteiro, a de que possuir \u00e9 ser  feliz. E assim vamos, valorosos e fortes, na frente da Inglaterra, em busca do  cetro de maior economia do mundo.<\/p><\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JAIME PINSKY Historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto &nbsp; Na cultura oral, os contadores de hist\u00f3ria eram verdadeiros atores que relatavam epis\u00f3dios, reais ou imagin\u00e1rios, com dramaticidade, acentuando passagens emocionantes, criando suspense, a ponto de deixar insones os ouvintes, abalados com revela\u00e7\u00f5es e sugest\u00f5es que a narrativa apresentava. 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