{"id":6337,"date":"2011-08-10T00:01:00","date_gmt":"2011-08-10T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_verso_o_delegado_e_o_direito\/"},"modified":"2011-08-10T00:01:00","modified_gmt":"2011-08-10T03:01:00","slug":"o_verso_o_delegado_e_o_direito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_verso_o_delegado_e_o_direito\/","title":{"rendered":"O verso, o delegado e o direito"},"content":{"rendered":"\n<p><b>&nbsp; <\/b> Reinaldo Lobo, delegado em Bras\u00edlia, estava  aborrecido. O plant\u00e3o corria mon\u00f3tono. Nada quebrava a rotina. Ops! Eis que  chega uma viatura. Desembarcam dois PMs com um criminoso cuja folha corrida  dobra a esquina. A visitinha \u00e0 delegacia se justificava: ele tinha sido  surpreendido na garupa de uma motocicleta roubada. O preso alegava inoc\u00eancia.  N\u00e3o tinha nada a ver com o roubo. S\u00f3 havia pegado uma carona pra chegar mais  rapidamente ao aconchego do lar porque estava em pris\u00e3o domiciliar. N\u00e3o poderia  ficar fora de casa.  <\/p>\n<p>O delegado registrou a ocorr\u00eancia. Mas inovou. Em vez  de prosa, escreveu em versos \u2014 com rima e tudo. Assim: &#8220;O plant\u00e3o estava  tranquilo \/ At\u00e9 que de longe se escuta um zunido \/ E todos passam a esperar \/ A  chegada da Pol\u00edcia Militar\/ Logo surge a viatura \/ Desce um policial fardado \/  Que sem nenhuma frescura \/ Traz preso um sujeito folgado \/ Procura pela  Autoridade \/ Narra a ele a sua verdade \/ Que o prendeu sem piedade \/ Pois sem  nenhuma autoriza\u00e7\u00e3o \/ Pelas ruas ermas todo tranquil\u00e3o \/ Estava com uma  motocicleta com restri\u00e7\u00e3o \/ A autoridade desconfiada \/ J\u00e1 iniciou o seu serm\u00e3o \/  Mostrou ao preso a papelada \/ Que a sua ficha era do c\u00e3o \/ Ia checar sua  situa\u00e7\u00e3o \/ O preso pediu desculpa \/ Disse que n\u00e3o tinha culpa \/ Pois s\u00f3 ficava  na garupa \/ Foi checada a situa\u00e7\u00e3o \/ ele \u00e9 mesmo sem no\u00e7\u00e3o \/ Estava preso na  domiciliar \/ N\u00e3o conseguiu mais se explicar \/ A motocicleta era roubada \/ A sua  boa-f\u00e9 era furada&#8221;.  <\/p>\n<p>Resultado: a Corregedoria-Geral da Pol\u00edcia devolveu o  documento para ajuste da reda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3. A conduta de Reinaldo tamb\u00e9m ser\u00e1  investigada. Ouvida, a OAB se pronunciou. &#8220;Achei o relat\u00f3rio do delegado uma  maravilha. O corregedor que est\u00e1 preocupado com isso deveria estar atr\u00e1s de  bandido, n\u00e3o atr\u00e1s de poeta&#8221;, opinou conselheiro D\u00e9lio Lins e Silva.  <strong> <\/p>\n<p><\/strong><strong>E da\u00ed?<\/strong>  <\/p>\n<p>O delegado errou? Errou. Ele agiu como a pessoa que  vai \u00e0 praia de smoking. Ou aparece no baile black-tie de biqu\u00edni. Trocar as  vestes tem nome. \u00c9 inadequa\u00e7\u00e3o. O mesmo princ\u00edpio orienta o texto.  Especialidades t\u00eam jarg\u00e3o pr\u00f3prio. Decis\u00e3o judicial exige o juridiqu\u00eas. Laudo  m\u00e9dico, o medicin\u00eas. Reda\u00e7\u00e3o oficial, o burocrat\u00eas.&nbsp;A comunica\u00e7\u00e3o&nbsp;nas salas de bate-papo imp\u00f5e abreviaturas inventadas, troca de letras,  signos incompreens\u00edveis.&nbsp;Para participar da comunidade marcada pela  informalidade e rapidez, o jovem tem de usar o c\u00f3digo do grupo. Hor\u00f3scopo pede palavras abstratas e gen\u00e9ricas.  Se e-mails comerciais, reda\u00e7\u00f5es de concurso e relat\u00f3rios t\u00e9cnicos usarem a  l\u00edngua do hor\u00f3scopo, ter\u00e3o destino certo \u2013 a reprova\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de certo  ou errado. Mas de adequado ou inadequado.  <\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: Reinaldo Lobo, ao escrever a  ocorr\u00eancia policial, estava no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o. Tinha de usar o  juridiqu\u00eas. Preferiu fazer poesia. Foi inadequado. <b> &nbsp;<\/b>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Reinaldo Lobo, delegado em Bras\u00edlia, estava aborrecido. 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