{"id":6396,"date":"2012-01-23T10:00:00","date_gmt":"2012-01-23T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/nota_funebre-2\/"},"modified":"2012-01-23T10:00:00","modified_gmt":"2012-01-23T12:00:00","slug":"nota_funebre-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/nota_funebre-2\/","title":{"rendered":"Nota f\u00fanebre"},"content":{"rendered":"\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Machado de Assis, E\u00e7a de Queir\u00f3s e Graciliano Ramos, Jos\u00e9 Saramago, Jorge Amado (in memoriam), L\u00edgia Fagundes Telles, Mill\u00f4r Fernandes, Roberto Pompeu de Toledo, Elio Gaspari, Lu\u00eds Turiba, Sebasti\u00e3o Nery e todos os cultores da boa linguagem cumprem o doloroso dever de comunicar o falecimento do futuro do subjuntivo. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>V\u00edtima de abandono e maus-tratos, ele deixa a fam\u00edlia verbal enlutada. Os amigos se unem nesse ato de piedade cultural e protestam contra t\u00e3o prematura e insubstitu\u00edvel partida. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 escapat\u00f3ria, Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come. Os jornais esnobam essa forma verbal h\u00e1 algum tempo. A TV provoca um arrepio depois do outro. Os charmosos apresentadores dizem com a maior sem-cerim\u00f4nia \u201cquando ele p\u00f4r, se ele ver, assim que ele reter\u201d. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Os produzidos personagens das novelas n\u00e3o ficam atr\u00e1s. Erram todas. O futuro do subjuntivo est\u00e1 l\u00e1, confundido com o infinitivo. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">\u201cAfinal, o que aconteceu?\u201d, perguntam os amigos. \u201cUma grande confus\u00e3o\u201d, reconhecem. O futuro morreu da insidiosa mol\u00e9stia chamada semelhan\u00e7a. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>O azar desse tempo, que, frise-se, sempre cumpriu suas obriga\u00e7\u00f5es a tempo e a hora, foi um s\u00f3: ser parecido com o infinitivo (a forma que d\u00e1 nome ao verbo: cantar, vender, partir). Os simplistas acham que ele \u00e9 o filho do infinitivo (quando eu chegar, voc\u00ea chegar, n\u00f3s chegarmos, eles chegarem). Mas o pai dele \u00e9 outro. N\u00e3o muito conhecido, mas o exame do DNA \u00e9 categ\u00f3rico. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Est\u00e1 registrado em todas as gram\u00e1ticas. \u00c9 o pret\u00e9rito perfeito do indicativo. Mais precisamente a 3\u00aa pessoa do plural. Sem o -am final. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Quando eu p\u00f4r ou puser? Se eu vir ou ver? Se eu vier ou vir? Assim que ele reter ou retiver? D\u00favidas. D\u00favidas. D\u00favidas. Qual a sa\u00edda? S\u00f3 h\u00e1 uma. Recorrer ao pai. Conjugar o verbo no pret\u00e9rito perfeito, velho conhecido de todos. Depois, fixar-se s\u00f3 na 3\u00aa pessoa do plural. Sem e -am final, temos o filho leg\u00edtimo. Sem disfarces. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Quando ele p\u00f4r ou puser? Pret\u00e9rito perfeito: eu pus, ele p\u00f4s, n\u00f3s pusemos, eles puser(am). <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Futuro do subjuntivo: quando eu puser, voc\u00ea puser, n\u00f3s pusermos, voc\u00eas puserem. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 exce\u00e7\u00e3o. Que o digam os maltratados. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Se eu vir ou vier? O pai: eu vim, voc\u00ea veio, n\u00f3s viemos, eles vier(am). <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">O filho: se eu vier, ele vier, n\u00f3s viermos, eles vierem. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Assim que n\u00f3s virmos ou vermos? O primitivo: eu vi, ele viu, n\u00f3s virmos, eles vir(am). <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">O derivado: assim que eu vir, ele vir, n\u00f3s virmos, eles virem.  <\/p>\n<p>Se eu reter ou retiver? Sem pregui\u00e7a, conjuguemos o pret\u00e9rito perfeito: eu retive, ele reteve, n\u00f3s retivemos, eles retiver(am). <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;O futuro do subjuntivo: se eu retiver, ele retiver, n\u00f3s retivermos, eles retiverem.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Sabe quem est\u00e1 esperneando? \u00c9 o trazer. Luta com todas as for\u00e7as para n\u00e3o descer \u00e0 sepultura. N\u00e3o quer ser enterrado na vala comum dos deserdados. \u201cSocorro!\u201d, grita. \u201cTrarei muita sorte a quem me salvar\u201d. In\u00fatil. Traga o que trouxer, ningu\u00e9m o escuta. Descanse em paz.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis, E\u00e7a de Queir\u00f3s e Graciliano Ramos, Jos\u00e9 Saramago, Jorge Amado (in memoriam), L\u00edgia Fagundes Telles, Mill\u00f4r Fernandes, Roberto Pompeu de Toledo, Elio Gaspari, Lu\u00eds Turiba, Sebasti\u00e3o Nery e todos os cultores da boa linguagem cumprem o doloroso dever de comunicar o falecimento do futuro do subjuntivo. V\u00edtima de abandono e maus-tratos, ele deixa a fam\u00edlia verbal enlutada. 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