{"id":6467,"date":"2012-09-26T18:00:00","date_gmt":"2012-09-26T21:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/faca_o_que_eu_digo_2\/"},"modified":"2012-09-26T18:00:00","modified_gmt":"2012-09-26T21:00:00","slug":"faca_o_que_eu_digo_2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/faca_o_que_eu_digo_2\/","title":{"rendered":"Fa\u00e7a o que eu digo 2"},"content":{"rendered":"<p>  <b> <\/p>\n<p><\/b>  <b>Al Martin<\/b>  &nbsp;  Jornais de ontem estamparam a not\u00edcia surpreendente de que um deputado, eleito pelo Partido Comunista, pedia a proibi\u00e7\u00e3o de exibi\u00e7\u00e3o de um filme. Proibi\u00e7\u00e3o! O parlamentar dirigia sua f\u00faria contra uma esp\u00e9cie de f\u00e1bula envolvendo um urso de pel\u00facia consumidor de drogas. O digno representante do povo nem chegou a reclamar um limite de idade mais rigoroso para espectadores. N\u00e3o&nbsp; tergiversou e foi direto ao ponto: o filme n\u00e3o lhe conv\u00e9m, portanto, n\u00e3o pode convir a ningu\u00e9m. Que seja banido!  &nbsp;  Certos cidad\u00e3os s\u00e3o incorrig\u00edveis. Muitos continuam acreditando que o que n\u00e3o \u00e9 bom para eles n\u00e3o pode, evidentemente, ser bom para os demais. Algu\u00e9m precisa urgentemente explicar ao deputado que cinema n\u00e3o \u00e9 programa de televis\u00e3o.  &nbsp;  Se a tev\u00ea entra em casa e despeja seu conte\u00fado sem pedir licen\u00e7a, s\u00f3 vai ao cinema quem quer. A tev\u00ea oferece dezenas de programas gratuitos a quem tiver a paci\u00eancia de assistir-lhes. (Quem dispuser de uma parab\u00f3lica pode at\u00e9 escolher entre milhares de emiss\u00f5es.) J\u00e1 assistir a um filme no cinema obedece a ritual assaz complicado.   &nbsp;  Para usufruir de uma proje\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, o cidad\u00e3o tem de se vestir, sair de casa, dirigir-se \u00e0 sala de espet\u00e1culos, fazer fila, comprar e pagar a entrada, provar que tem a idade m\u00ednima exigida, procurar um lugar. Tem de ser estoico \u00e0s vezes: aguentar a conversa dos vizinhos de tr\u00e1s, o mau cheiro do que est\u00e1 \u00e0 direita, o irritante trim-trim de um celular pr\u00f3ximo, o incessante movimento de cabe\u00e7a do que est\u00e1 sentado justo \u00e0 sua frente. Em resumo: vai ao cinema quem quer. E j\u00e1 vai sabendo qual \u00e9 o teor do filme.  &nbsp;  N\u00e3o \u00e9 de hoje que deputados e senadores tentam infantilizar seus representados. Alguns acreditam-se imbu\u00eddos da miss\u00e3o de decidir em nome do pov\u00e3o. \u00c9 verdade que, no fundo, est\u00e3o l\u00e1 para isso. Mas o bom senso imp\u00f5e limites a tudo. Proibir um filme aqui, outro acol\u00e1 n\u00e3o \u00e9 da compet\u00eancia de parlamentares: n\u00e3o passa de censura expl\u00edcita.  &nbsp;  Mas deixa estar: o efeito bumerangue vai funcionar desta vez. O deputado em quest\u00e3o vai certamente alcan\u00e7ar um resultado exatamente oposto ao que pretendia: o au\u00ea que se levantou em torno do assunto periga alavancar o n\u00famero de espectadores.  &nbsp;  S\u00f3 para terminar, um detalhe picante. A fita j\u00e1 \u00e9 proibida para menores de 16 anos. O deputado mencionado assistiu ao filme acompanhado de seu filho, um pr\u00e9-adolescente de&#8230; 11 anos. O leitor deve estar sentindo que algo nessa hist\u00f3ria parece n\u00e3o estar encaixando bem. Estou sentindo a mesma coisa. Assistiram onde? Proje\u00e7\u00e3o privada? O deputado subornou o porteiro? Deu carteirada? Faltou contar o fim da hist\u00f3ria.  &nbsp;  Tudo indica que, mais uma vez, somos ref\u00e9ns de um perverso jogo de fa\u00e7a-o-que-eu-digo-mas-n\u00e3o-o-que-eu-fa\u00e7o.  &nbsp;<b><\/b>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al Martin &nbsp; Jornais de ontem estamparam a not\u00edcia surpreendente de que um deputado, eleito pelo Partido Comunista, pedia a proibi\u00e7\u00e3o de exibi\u00e7\u00e3o de um filme. Proibi\u00e7\u00e3o! O parlamentar dirigia sua f\u00faria contra uma esp\u00e9cie de f\u00e1bula envolvendo um urso de pel\u00facia consumidor de drogas. O digno representante do povo nem chegou a reclamar um limite de idade mais rigoroso para espectadores. 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