{"id":6503,"date":"2012-09-29T00:00:00","date_gmt":"2012-09-29T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/os_bois_e_os_nomes\/"},"modified":"2012-09-29T00:00:00","modified_gmt":"2012-09-29T03:00:00","slug":"os_bois_e_os_nomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/os_bois_e_os_nomes\/","title":{"rendered":"Os bois e os nomes"},"content":{"rendered":"<p>    &nbsp;   <\/p>\n<p>Al Martin  &nbsp;  Em seu editorial de 28 de setembro, o Correio Braziliense se embrenha por um assunto espinhoso. Enfrenta, corajosamente, uma conjectura que atormenta fil\u00f3sofos desde a Gr\u00e9cia antiga. A coisa e seu s\u00edmbolo s\u00e3o convergentes ou inapelavelmente antin\u00f4micos? Em palavras menos empoladas: mudando o s\u00edmbolo muda-se a coisa?  &nbsp;  Os franceses, com sua longa experi\u00eancia em mat\u00e9ria de conflitos, afrontamentos, revolu\u00e7\u00f5es e guerras, ensinam a \u00abappeler un chat un chat\u00bb &#8213; se for um gato, h\u00e1 que dizer que \u00e9 um gato. Esse dito popular exorta o bom povo a n\u00e3o ter medo de dizer as coisas como elas s\u00e3o. Dar nome aos bois, dir\u00edamos n\u00f3s outros. Dir\u00edamos? Diz\u00edamos, caro leitor, diz\u00edamos.  &nbsp;  At\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, os contorcionismos verbais se restringiam a suavizar tabus geralmente de ordem sexual. Todas as palavras que pudessem, de perto ou de longe, remeter ao sexo eram evitadas. At\u00e9 fen\u00f4menos fisiol\u00f3gicamente naturais como a trivial menstrua\u00e7\u00e3o tinham seus nomes eludidos. Dizia-se que a mo\u00e7a estava \u00abnaqueles dias\u00bb.  &nbsp;  Costumes mudam com o passar do tempo. N\u00e3o h\u00e1 que ser empacado nem caprichoso, que o mundo \u00e9 assim mesmo. A sociedade evolui e, com ela, as modas, as palavras, as express\u00f5es. De uns tempos para c\u00e1, essa guinada tem-se acelerado em nosso Pa\u00eds. \u00c9 fen\u00f4meno importado, mas aqui pegou forte, alastrou-se como fogo em palha seca.  &nbsp;  Uma lista de nomes e express\u00f5es a banir foi institu\u00edda. E esse rol tende a se avolumar a cada dia. N\u00e3o se fala mais assim, n\u00e3o se diz mais aquilo, nem pensar em pronunciar aquilo l\u00e1. Fica a desagrad\u00e1vel impress\u00e3o de que mentores mal-intencionados se concertaram para agir conscientemente a fim de acirrar \u00e2nimos, aprofundar fossos entre extratos sociais, separar o povo em campos distintos e antag\u00f4nicos.  &nbsp;  Palavras estranhas &#8213; e nem sempre bem escolhidas &#8213; nos v\u00eam sendo impostas. Mulato, por exemplo, palavra a execrar hoje em dia, deve ser substitu\u00edda por afrodescendente. Ora, h\u00e1 que ter em mente que todos os mulatos s\u00e3o tamb\u00e9m eurodescendentes, se n\u00e3o, n\u00e3o seriam mulatos. Por que, raios, o afro- teria preced\u00eancia sobre o euro-? Devemos enxergar a\u00ed uma nova discrimina\u00e7\u00e3o?  &nbsp;  O Brasil j\u00e1 foi um pa\u00eds muito mais livre. O que digo pode soar estapaf\u00fardio para os mais jovens, mas \u00e9 o que ressinto. \u00c9ramos pobres, sim, mas pod\u00edamos sair \u00e0 rua sem medo de ser assaltados, n\u00e3o precis\u00e1vamos viver enjaulados como bichos no zool\u00f3gico, a porta de casa dispensava tranca. E era natural dar nomes aos bois.  &nbsp;  Hoje somos mais ricos (ou menos pobres, conforme o caso), mas vivemos na apreens\u00e3o permanente do assalto, da viol\u00eancia, da bala perdida, do sequestro rel\u00e2mpago. Somos obrigados a nos cercar de jaulas, c\u00e2meras de controle, porteiros, vigias. E, para coroar tudo isso, como morango em cima de bolo de anivers\u00e1rio, j\u00e1 n\u00e3o podemos falar como antes. Temos de filtrar nossas palavras, pesar nossas express\u00f5es, policiar nosso discurso.  &nbsp;  Ser\u00e1 que, de uns dez anos para c\u00e1, teremos sido capazes de resolver a conjectura secular dos fil\u00f3sofos? Ser\u00e1 que, mudando o nome da coisa, mudamos tamb\u00e9m a ess\u00eancia dela? Ser\u00e1 que o mulato transfigurado em euro-afrodescendente ser\u00e1 mais respeitado, mais valorizado, mais favorecido, mais feliz?  &nbsp;  Se assim for, chegou a hora de enfiar o grande Ataulfo Alves no mesmo balaio em que j\u00e1 est\u00e3o Monteiro Lobato e o Saci-Perer\u00ea. Seu samba Mulata assanhada, de 1956, tem de ser banido do cancioneiro nacional.   &nbsp;  E \u00e9 bom que preparem um balaio de bom tamanho. Muita gente fina vai ter de se acomodar l\u00e1 dentro. Gente do quilate de Ary Barroso, Chico Buarque, Noel Rosa. Pelas regras de hoje, est\u00e3o todos em pecado mortal.  &nbsp;   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Al Martin &nbsp; Em seu editorial de 28 de setembro, o Correio Braziliense se embrenha por um assunto espinhoso. Enfrenta, corajosamente, uma conjectura que atormenta fil\u00f3sofos desde a Gr\u00e9cia antiga. A coisa e seu s\u00edmbolo s\u00e3o convergentes ou inapelavelmente antin\u00f4micos? 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