{"id":6586,"date":"2012-10-03T16:00:00","date_gmt":"2012-10-03T19:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_supremo_e_a_conciliacao\/"},"modified":"2012-10-03T16:00:00","modified_gmt":"2012-10-03T19:00:00","slug":"o_supremo_e_a_conciliacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_supremo_e_a_conciliacao\/","title":{"rendered":"O Supremo e a concilia\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">\n<p>  JOAQUIM FALC\u00c3O<i> Professor de direito da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV)<\/i> &nbsp;Terminou sem acordo a reuni\u00e3o proposta pelo ministro Luiz Fux  para tentar chegar a um entendimento para extinguir o mandado de seguran\u00e7a em  que Instituto de Advocacia Racial (Iara) pretende impor condi\u00e7\u00f5es para a ado\u00e7\u00e3o  de livros de Monteiro Lobato nas escolas p\u00fablicas brasileiras. Ap\u00f3s ter levado a  quest\u00e3o \u00e0 Secretaria de Pol\u00edticas da Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial, que por sua  vez levou o caso ao Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE), o instituto pretende  agora ter declarada inconstitucional a \u00faltima decis\u00e3o do conselho, que liberou a  leitura de <i>As ca\u00e7adas de Pedrinho <\/i>nas nossas escolas.   <\/p>\n<p>Como \u00e9 de todos conhecido, o escritor Monteiro Lobato, nas obras do <i>S\u00edtio  do Pica-Pau Amarelo,<\/i> com seu personagem Tia Anast\u00e1cia, \u00e9 acusado de racismo,  do uso de estere\u00f3tipos, e assim feriria o artigo 5\u00ba, XLII, que diz que &#8220;a  pr\u00e1tica do racismo constitui crime inafian\u00e7\u00e1vel e imprescrit\u00edvel, sujeito \u00e0 pena  de reclus\u00e3o, nos termos da lei&#8221;.  <\/p>\n<p>A defesa do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o afirma que h\u00e1 um contexto de uma  obra escrita em l933, e nega o racismo. N\u00e3o se pode julgar o passado pelos  valores do presente. Nem os artigos 220 e 206 de liberdade de express\u00e3o e de  liberdade de ensino na Constitui\u00e7\u00e3o permitem esse tipo de censura.  <\/p>\n<p>O ministro Luiz Fux realizou uma audi\u00eancia de concilia\u00e7\u00e3o, e de l\u00e1 saiu o  acordo de que os dois lados teriam uma reuni\u00e3o nova, para acertar propostas  pr\u00e1ticas de pol\u00edticas que implementem a\u00e7\u00f5es antirracistas nas escolas. A reuni\u00e3o  foi realizada, sem resultado. Se at\u00e9 5 de outubro n\u00e3o se conseguir acordo, o  ministro ter\u00e1 que decidir o conflito intraconstitucional com seus colegas.  Levar\u00e1 o caso ao plen\u00e1rio do Supremo Tribunal Federal.  <\/p>\n<p>O acordo n\u00e3o foi feito porque o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura ofereceu  como proposta uma nota explicativa nas edi\u00e7\u00f5es futuras, contextualizando a obra,  assim como j\u00e1 \u00e9 feito com a quest\u00e3o ambiental. O instituto pediu mais. Pediu  tamb\u00e9m que seja feito um acordo para aumentar a capacita\u00e7\u00e3o de professores na  disciplina de rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais.   <\/p>\n<p>Ou seja, a quest\u00e3o j\u00e1 deixou de ser jur\u00eddica em sentido estrito, de  constitucionalidade ou n\u00e3o do ato do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o. Passou a ser  de conquistar uma pol\u00edtica p\u00fablica, digamos compensat\u00f3ria no presente, de  concep\u00e7\u00f5es culturais do passado. E a\u00ed estamos n\u00e3o mais no \u00e2mbito do Poder  Judici\u00e1rio mas no \u00e2mbito do Poder Executivo.  <\/p>\n<p>Nesse sentido, o Supremo est\u00e1 sendo usado n\u00e3o para declarar a Constitui\u00e7\u00e3o,  mas como mecanismo de press\u00e3o numa negocia\u00e7\u00e3o sobre pol\u00edticas p\u00fablicas. Ser\u00e1  essa a fun\u00e7\u00e3o do Supremo?  <\/p>\n<p>A oportuna decis\u00e3o do ministro Luiz Fux colocou a nu esse novo aspecto.  Quanto mais negocia\u00e7\u00e3o houver na sociedade entre seus atores relevantes, menos o  Supremo ser\u00e1 necess\u00e1rio. Essa tend\u00eancia de negocia\u00e7\u00e3o entre as partes, em vez de  poder jurisdicional unilateral do juiz, \u00e9 uma tend\u00eancia a ser estimulada. Como  vem sendo feito pelo pr\u00f3prio Fux, que este ano mediou um acordo entre Furnas e a  Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Urbanit\u00e1rios e o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho,  resolvendo uma quest\u00e3o que se prolongava por mais de 20 anos.   <\/p>\n<p>A negocia\u00e7\u00e3o e a concilia\u00e7\u00e3o tem sido promovidas tamb\u00e9m pelo Conselho  Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), devem ocorrer com intensidade nas inst\u00e2ncias  inferiores e podem tamb\u00e9m ser usadas no pr\u00f3prio Supremo.  <\/p>\n<p>Os resultados l\u00edquidos desse procedimento, no entanto, s\u00e3o dois; e afetam  profundamente o desenho institucional do Supremo. Primeiro, o torna cada vez  mais presente, alguns diriam mesmo interferente na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas  p\u00fablicas. O que ali\u00e1s j\u00e1 foi exemplificado na decis\u00e3o da Raposa Serra do Sol, em  que o Supremo Tribunal Federal, com o ministro Carlos Alberto Direito \u00e0 frente,  desenhou uma verdadeira pol\u00edtica p\u00fablica para terras ind\u00edgenas, estabelecendo  condi\u00e7\u00f5es e crit\u00e9rios para a ocupa\u00e7\u00e3o da \u00e1rea.  <\/p>\n<p>O segundo resultado \u00e9 um est\u00edmulo \u00e0 politiza\u00e7\u00e3o intensa \u00e0s portas do Supremo.  A argui\u00e7\u00e3o de inconstitucionalidade n\u00e3o pode servir de est\u00edmulo a grupos  insatisfeitos com gest\u00f5es governamentais. Essa insatisfa\u00e7\u00e3o deve se manifestar  pelo voto e nas elei\u00e7\u00f5es. <\/p><\/div>\n<div align=\"left\"> <strong style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/strong><strong> <\/p>\n<p><\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOAQUIM FALC\u00c3O Professor de direito da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV) &nbsp;Terminou sem acordo a reuni\u00e3o proposta pelo ministro Luiz Fux para tentar chegar a um entendimento para extinguir o mandado de seguran\u00e7a em que Instituto de Advocacia Racial (Iara) pretende impor condi\u00e7\u00f5es para a ado\u00e7\u00e3o de livros de Monteiro Lobato nas escolas p\u00fablicas brasileiras. 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