{"id":6649,"date":"2012-10-08T13:00:00","date_gmt":"2012-10-08T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/monteiro_lobato_no_stf\/"},"modified":"2012-10-08T13:00:00","modified_gmt":"2012-10-08T16:00:00","slug":"monteiro_lobato_no_stf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/monteiro_lobato_no_stf\/","title":{"rendered":"Monteiro Lobato no STF"},"content":{"rendered":"<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">\n<p> M\u00d4NICA SIFUENTES<i>  <\/p>\n<p>Desembargadora do TRF 1\u00aa Regi\u00e3o<\/i>  <\/p>\n<p>Passei boa parte da minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia lendo Monteiro Lobato.  Primeiro, <i>As reina\u00e7\u00f5es de narizinho<\/i>, <i>Viagem ao c\u00e9u<\/i>, <i>O pica-pau  amarelo<\/i>,<i> O Saci<\/i>, <i>O marqu\u00eas de rabic\u00f3<\/i>. Mais tarde, encantei-me  com os contos de <i>Urup\u00eas<\/i> e <i>Cidades mortas<\/i>. Conheci um pouco da  mitologia grega com o <i>Minotauro<\/i> e com <i>Os doze trabalhos de  H\u00e9rcules<\/i>; aprendi hist\u00f3ria no inesquec\u00edvel <i>Hist\u00f3ria do mundo para  crian\u00e7as<\/i>.   <\/p>\n<p>Do autor, al\u00e9m da grandiosa obra, ressalta-se o homem idealista e sonhador, \u00e0  frente do seu tempo. Nacionalista, afrontou o Estado Novo ao lutar pelo petr\u00f3leo  brasileiro, causa que lhe custou a perda dos seus bens e a pris\u00e3o. Intelectual,  n\u00e3o s\u00f3 defendeu a produ\u00e7\u00e3o e impress\u00e3o de livros no Brasil, como trouxe para a  literatura infantil toda a riqueza do nosso folclore, com as suas cucas,  curupiras, mulas sem cabe\u00e7a e o Saci-Perer\u00ea.   <\/p>\n<p>As crian\u00e7as de hoje sonham em viajar para a Disneyworld ou para o mundo  encantado e estrangeiro de N\u00e1rnia e Harry Potter. As crian\u00e7as de ontem sonhavam  em ir ao m\u00e1gico S\u00edtio do Picapau amarelo para ouvir as est\u00f3rias de Dona Benta,  brincar com a boneca Em\u00edlia e saborear os quitutes da tia Anast\u00e1sia.  <\/p>\n<p>Por isso causou-me certo desconforto a not\u00edcia sobre a interposi\u00e7\u00e3o de  mandado de seguran\u00e7a no Supremo Tribunal Federal, no qual o Instituto de  Advocacia Racial e Ambiental (Iara) pede a anula\u00e7\u00e3o de um parecer do Conselho  Nacional de Educa\u00e7\u00e3o que liberou a ado\u00e7\u00e3o, nas escolas p\u00fablicas, do livro  <i>Ca\u00e7adas de Pedrinho<\/i>. Para o Iara, a est\u00f3ria cont\u00e9m trechos racistas  envolvendo a personagem Tia Anast\u00e1cia, cuja cor negra \u00e9 mencionada de forma  pejorativa pelo autor. Num trecho, a personagem Em\u00edlia refere-se ao iminente  ataque de on\u00e7as e animais ferozes ao s\u00edtio: N\u00e3o vai escapar ningu\u00e9m \u2014 nem Tia  Nast\u00e1cia, que tem carne preta. Em outro trecho, Anast\u00e1cia sobe num mastro para  fugir das on\u00e7as. A cena \u00e9 descrita assim por Monteiro Lobato: Tia Nast\u00e1cia,  esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carv\u00e3o.    <\/p>\n<p>De fato, a leitura do trecho, escrito h\u00e1 quase 80 anos (o livro foi publicado  em 1933) \u00e9 mesmo chocante. Como tamb\u00e9m o \u00e9 ler em <i>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s  Cubas<\/i>, cl\u00e1ssico da literatura brasileira pela pena de ningu\u00e9m menos que  Machado de Assis, que o personagem, quando crian\u00e7a, quebrara a cabe\u00e7a de uma  escrava, por que lhe negara uma colher do doce de coco que estava fazendo. Ou  ent\u00e3o quando ele se refere a Prud\u00eancia, moleque de casa: era o meu cavalo de  todos os dias; punha as m\u00e3os no ch\u00e3o, recebia um cordel nos queixos, \u00e0 guisa de  freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na m\u00e3o, fustigava-o, dava mil  voltas a um e outro lado, e ele obedecia \u2014 algumas vezes gemendo, mas obedecia  sem dizer palavra, ou, quando muito, um &#8220;ai, nhonh\u00f4!&#8221; \u2014 ao que eu retorquia:  &#8220;Cala a boca, besta!&#8221;  <\/p>\n<p>Procurei, no fundo da minha mem\u00f3ria, que impress\u00e3o me ficara, da leitura de  Lobato e Machado, de Tia Anast\u00e1cia ou de Br\u00e1s Cubas. Da primeira, restou-me a  imagem de uma senhora de cor negra, bonachona, que fazia doces e bolos  deliciosos, amorosa com as crian\u00e7as e adorada por elas. De Br\u00e1s Cubas ficou o  retrato de um jovem f\u00fatil, cheio de caprichos, com ares da Europa, cujo  comportamento \u00e9 a face caricata da sociedade brasileira burguesa do s\u00e9culo 19.    <\/p>\n<p>As express\u00f5es inadequadas contidas em ambas as obras, como em v\u00e1rias outras,  n\u00e3o sei se por conta de uma peculiar sabedoria das crian\u00e7as, que absorve apenas  o melhor das est\u00f3rias, n\u00e3o fazem parte das minhas lembran\u00e7as. Certamente porque  tenha entendido, no decorrer do processo de aprendizagem, a necessidade de se  exercer ju\u00edzo cr\u00edtico sobre todas as nossas leituras. N\u00e3o fosse assim, como  superar a crueldade absurda contida nas est\u00f3rias infantis que se tornaram  cl\u00e1ssicos da literatura universal, como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e o  Pequeno Polegar?   <\/p>\n<p>Oxal\u00e1 a audi\u00eancia p\u00fablica, t\u00e3o sabiamente convocada pelo ministro Luiz Fux  para que as partes envolvidas nessa celeuma cheguem a um consenso, possa dar  frutos outros, que n\u00e3o a proibi\u00e7\u00e3o de leitura das deleitosas aventuras de  Pedrinho, Narizinho e Em\u00edlia no S\u00edtio do Picapau Amarelo. Todo artista, assim  como todo escritor, \u00e9 fruto do seu tempo e os seus escritos n\u00e3o podem ser lidos  fora do contexto. Censurar Monteiro Lobato, cuja obra liter\u00e1ria infantil ainda  n\u00e3o foi superada por nenhum outro escritor de l\u00edngua portuguesa, implica o dever  de tamb\u00e9m passar um pente fino em toda a literatura brasileira do s\u00e9culo 19 e  at\u00e9 pelo menos a metade do s\u00e9culo 20. Em outras palavras, uma tremenda  burrice.  &nbsp; &nbsp; &nbsp;<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00d4NICA SIFUENTES Desembargadora do TRF 1\u00aa Regi\u00e3o Passei boa parte da minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia lendo Monteiro Lobato. Primeiro, As reina\u00e7\u00f5es de narizinho, Viagem ao c\u00e9u, O pica-pau amarelo, O Saci, O marqu\u00eas de rabic\u00f3. Mais tarde, encantei-me com os contos de Urup\u00eas e Cidades mortas. 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