{"id":6665,"date":"2012-06-04T10:00:00","date_gmt":"2012-06-04T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/os_peixe\/"},"modified":"2012-06-04T10:00:00","modified_gmt":"2012-06-04T13:00:00","slug":"os_peixe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/os_peixe\/","title":{"rendered":"Os peixe"},"content":{"rendered":"<div> <a name=\"Save1\"><\/a>   <\/p>\n<p>JOS\u00c9 HORTA MANZANO<i style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">   <\/p>\n<p><\/i> Algum tempo atr\u00e1s, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o deu aval a uma publica\u00e7\u00e3o que  reconhecia frases do tipo &#8220;os menino pega os peixe&#8221; como adequadas em certos  contextos. Foi um deus nos acuda. Baldes de tinta foram gastos em aplausos  entusiasmados e reclama\u00e7\u00f5es indignadas.   <\/p>\n<p>Houve quem entendesse que o ensino da l\u00edngua portuguesa, com a anu\u00eancia do  MEC, acelerava sua descida aos infernos. Artigos inflamados brotaram da pluma  daqueles que, tendo-se esfalfado para aperfei\u00e7oar seu conhecimento da l\u00edngua,  sentiam-se frustrados como se o esfor\u00e7o tivesse sido v\u00e3o. Com que ent\u00e3o, todo  esse sacrif\u00edcio n\u00e3o vale mais do que 10 r\u00e9is de mel coado?   <\/p>\n<p>Houve quem aplaudisse a boa-nova. Afinal, j\u00e1 era hora de oficializar a  exist\u00eancia de uma l\u00edngua brasileira, distinta da matriz lusa. Muitos exultaram  ao ver abolidos os grilh\u00f5es que nos prendem a normas gramaticais ex\u00f3genas.  Ouviu-se, nas entrelinhas de alguns artigos, um grito de independ\u00eancia  definitiva, eco e ep\u00edlogo do brado de 1822.   <\/p>\n<p>Acho que est\u00e1 havendo exagero nos dois campos. N\u00e3o \u00e9 certo enxergar, nesse  epis\u00f3dio, nem o pren\u00fancio do banimento do portugu\u00eas dito culto, nem a acess\u00e3o da  fala popular ao status de l\u00edngua oficial. Quando h\u00e1 impasse, o bom-senso manda  dar uma espiada no quintal de quem j\u00e1 enfrentou o mesmo problema. Por que  reinventar a roda? Se uma solu\u00e7\u00e3o dada funcionou l\u00e1, periga funcionar aqui  tamb\u00e9m.   <\/p>\n<p>Qualquer conhecedor da l\u00edngua alem\u00e3 pode visitar qualquer lugarejo, do Mar  B\u00e1ltico \u00e0 Bav\u00e1ria, sem encontrar problema em se fazer entender. O mesmo fen\u00f4meno  se repete na It\u00e1lia, das Dolomitas at\u00e9 a ponta da Sic\u00edlia. Nosso viajante  constatar\u00e1 id\u00eantica situa\u00e7\u00e3o na Gr\u00e3-Bretanha, na Fran\u00e7a, na Espanha e em  in\u00fameros outros pa\u00edses. Imaginar\u00e1 at\u00e9 que isso \u00e9 natural, que foi sempre assim.  Pois equivoca-se.   <\/p>\n<p>Os falares regionais est\u00e3o longe de desaparecer. A l\u00edngua materna de um  b\u00e1varo n\u00e3o \u00e9 a mesma de um brandeburgu\u00eas, embora os dois sejam alem\u00e3es. A prosa  coloquial de um siciliano n\u00e3o \u00e9 a de um v\u00eaneto, n\u00e3o obstante serem ambos  italianos. Um catal\u00e3o, em fam\u00edlia ou entre amigos, n\u00e3o usa o mesmo falar de um  asturiano nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. Como \u00e9 poss\u00edvel?   <\/p>\n<p>Faz tempo que esse fen\u00f4meno \u00e9 estudado. Uma na\u00e7\u00e3o composta de popula\u00e7\u00f5es que  utilizam falares variados tem de recorrer a uma Dachsprache, uma l\u00edngua-teto.  Assim, numerosos povos vivem num universo at\u00e9 certo ponto bil\u00edngue. No Brasil,  vivemos uma situa\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica, uma diglossia em que as variantes populares  s\u00e3o desvalorizadas, estigmatizadas, negadas at\u00e9.   <\/p>\n<p>Imbu\u00edda do nobre objetivo de pacificar e unificar nosso imenso territ\u00f3rio, a  autoridade central \u2014 imperial primeiro, republicana em seguida \u2014 usou de seu  poder para atrofiar os falares regionais, chegando a negar-lhes a exist\u00eancia, a  fim de sufocar no nascedouro quaisquer veleidades de regionalismos  independentistas.    <\/p>\n<p>Fazia sentido. Politicamente, foi sucesso total. A Am\u00e9rica Portuguesa n\u00e3o se  fragmentou, e faz quase um s\u00e9culo que nosso pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 palco de conflitos  separatistas. Mas essa hist\u00f3ria gerou um efeito colateral. Todo brasileiro  aprendeu, desde crian\u00e7a, esta verdade incontest\u00e1vel: nosso pa\u00eds n\u00e3o tem dialetos  \u2014 afirma\u00e7\u00e3o ousada que acabou por criar em n\u00f3s todos uma inseguran\u00e7a  lingu\u00edstica. A doutrina oficial afirma que temos uma s\u00f3 l\u00edngua. Ora, eu n\u00e3o falo  como est\u00e1 escrito nos livros, portanto&#8230; eu falo errado! Todos os brasileiros  sofrem desse complexo de &#8220;falar errado&#8221;. Est\u00e3o enganados.   <\/p>\n<p>Nenhum de n\u00f3s jamais erra ao usar sua pr\u00f3pria l\u00edngua materna, aquela que  aprendeu desde crian\u00e7a, utilizada por seu grupo social. Se a palavra dialeto  pode chocar, utilizemos o termo variante. O Brasil tem, sim, dezenas de  variantes lingu\u00edsticas que podem at\u00e9, em casos extremos, dificultar a  intercompreens\u00e3o. \u00c9 tolice abordar esse tema sob um vi\u00e9s nacionalista.  Justamente por causa dessa grande variedade de falares, n\u00f3s brasileiros temos  necessidade absoluta de uma l\u00edngua-teto est\u00e1vel e normatizada.   <\/p>\n<p>Cabe \u00e0s autoridades encarregadas da instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica dissipar falsas  cren\u00e7as. A elas compete fazer que os brasileiros entendam que n\u00e3o &#8220;falam  errado&#8221;. Mas a elas cabe sobretudo ensinar a norma culta e esclarecer que tal  aprendizado, longe de ser ato de submiss\u00e3o a uma remota ex-metr\u00f3pole, \u00e9 a chave  da intercomunica\u00e7\u00e3o entre todos os compatriotas. A elas cumpre tamb\u00e9m incentivar  a preserva\u00e7\u00e3o e a valoriza\u00e7\u00e3o das variantes regionais. Informalmente, &#8220;os menino  pode pegar tudo os peixe&#8221;. Na hora de escrever conv\u00e9m saber que os meninos pegam  os peixes. Cai melhor. &nbsp;<\/p><\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 HORTA MANZANO Algum tempo atr\u00e1s, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o deu aval a uma publica\u00e7\u00e3o que reconhecia frases do tipo &#8220;os menino pega os peixe&#8221; como adequadas em certos contextos. Foi um deus nos acuda. Baldes de tinta foram gastos em aplausos entusiasmados e reclama\u00e7\u00f5es indignadas. Houve quem entendesse que o ensino da l\u00edngua portuguesa, com a anu\u00eancia do MEC, acelerava sua descida aos infernos. 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