{"id":6707,"date":"2012-02-20T10:00:00","date_gmt":"2012-02-20T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_linguagem_do_poder\/"},"modified":"2012-02-20T10:00:00","modified_gmt":"2012-02-20T12:00:00","slug":"a_linguagem_do_poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_linguagem_do_poder\/","title":{"rendered":"A linguagem do poder"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">\n<p>AFONSO ROMANO DE SANT\u00b4ANNA    <\/p>\n<p>O poema \u201cA implos\u00e3o da mentira\u201d nem \u00e9 mais meu.  J\u00e1 foi usado em tribunais, processos, serm\u00f5es, com\u00edcios, aulas, antologias,  p\u00f4steres, internet etc. Transcrito recentemente em jornais, foi ligado ao fato  de que o atual governo mente e logo desmente, e assim vai fazendo o seu  discurso. Isso remete para uma quest\u00e3o mais ampla: as caracter\u00edsticas do  discurso pol\u00edtico. Cada profiss\u00e3o produz um tipo de discurso. Dizia aquela velha  raposa mineira \u2013 Magalh\u00e3es Pinto: pol\u00edtica \u00e9 como a nuvem, est\u00e1 sempre mudando.  E, evidentemente, o discurso vai mudando como a nuvem.    <\/p>\n<p>Mas tem uma coisa que  n\u00e3o muda tanto quanto as nuvens: a linguagem do poder. Outro dia ouvi o ministro  da Justi\u00e7a, que \u00e9 um democrata, falar sobre a greve dos policiais na Bahia. O  discurso era semelhante ao dos ministros da Justi\u00e7a do regime militar: falava de  ordem, hierarquia e que anistia n\u00e3o \u00e9 para criminoso. A fala da presidenta sobre  o assunto n\u00e3o foi diferente \u2013 embora, entende-se, diametralmente oposta \u00e0 fala  de uma guerrilheira.     <\/p>\n<p>Uma nova ministra que assumiu nesses dias frisou que, no  poder, sua opini\u00e3o pessoal n\u00e3o conta. Agora descobriram uma declara\u00e7\u00e3o antiga do  hoje governador da Bahia, Jaques Wagner, incitando a greve de policiais. J\u00e1 Lula  \u00e9 um mestre em moldar discursos.   Repito: o poder tem um discurso pr\u00f3prio. Ou  seja, tem sua sintaxe, tem sua sem\u00e2ntica, em s\u00edntese: tem sua l\u00f3gica discursiva.      <\/p>\n<p>O poder \u00e9 um \u201clugar\u201d determinado e esse \u201clugar\u201d \u00e9 que gera seu discurso. E isso  n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do PT ou do Brasil. Em toda parte \u00e9 assim. Vejam o filme Tudo  pelo poder, com George Clooney: o candidato democrata vai mudando seu discurso  de acordo com sua assessoria e de acordo com os votos que precisa conseguir. Sua  opini\u00e3o pessoal \u00e9 irrelevante. Pode dizer o contr\u00e1rio do que pensa, pois o que  interessa \u00e9 o poder. O pr\u00f3prio Obama est\u00e1 tendo que ajeitar seu discurso \u00e0s  circunst\u00e2ncias eleitorais.    <\/p>\n<p>Dizem alguns que o poder \u00e9 tr\u00e1gico. O antigo  ministro da Justi\u00e7a Milton Campos dizia que hoje o poder \u00e9 triste; e o general  Geisel, que parecia todo-poderoso, entristecido, reconheceu o mesmo numa  entrevista dada l\u00e1 no Jap\u00e3o. H\u00e1 quem diga que o poder \u00e9 (necessariamente)  c\u00ednico. O fato \u00e9 que a primeira coisa que quem chega ao poder descobre \u00e9 que o  poder n\u00e3o pode. At\u00e9 os ditadores t\u00eam que negociar.    <\/p>\n<p>Aquele poema \u2013 \u201cA implos\u00e3o  da mentira\u201d\u2013 foi publicado na ditadura do general Figueiredo. E hoje  (infelizmente) continua atual. O poder, ontem ou hoje, tem uma estrutura e uma  linguagem pr\u00f3prias. O poder ou assume o poder ou cai do poder. Poder n\u00e3o \u00e9 para  principiantes. Boas inten\u00e7\u00f5es s\u00f3 n\u00e3o funcionam. Poder \u00e9 uma t\u00e9cnica de  persuas\u00e3o, que o digam tanto os l\u00edderes democratas que admiramos quanto os  ditadores.    <\/p>\n<p>O esfor\u00e7o de persuas\u00e3o pela linguagem est\u00e1 praticamente em todas  as profiss\u00f5es, do sacerdote ao jornalista. Est\u00e1 (veladamente) at\u00e9 na cr\u00edtica de  arte. No livro O enigma vazio mostrei os sofismas da est\u00e9tica contempor\u00e2nea. O  sofista \u00e9 treinado para provar discursivamente qualquer coisa. O escritor,  neste sentido, \u00e9 um privilegiado. Usa a linguagem para revelar, n\u00e3o para  esconder. Isso tem suas consequ\u00eancias. Volta e meia um escritor \u00e9 punido por  isso.    <\/p>\n<p>Quando, h\u00e1 uns 20 anos, eu estava no \u201cpoder\u201d (num modesto segundo  escal\u00e3o), um ministro queria me for\u00e7ar a nomear uma pessoa, pois era uma ordem  que vinha de Bras\u00edlia. Disse-lhe que queria ver essa ordem por escrito. Ele  disse: \u201cEm Bras\u00edlia ningu\u00e9m escreve o que diz\u201d. Respondi: \u201cEnt\u00e3o, estamos num  impasse, pois na minha profiss\u00e3o de escritor escrevo e assino o que penso\u201d.   E  a nomea\u00e7\u00e3o n\u00e3o saiu. E eu continuo escrevendo exatamente o que  penso.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AFONSO ROMANO DE SANT\u00b4ANNA O poema \u201cA implos\u00e3o da mentira\u201d nem \u00e9 mais meu. J\u00e1 foi usado em tribunais, processos, serm\u00f5es, com\u00edcios, aulas, antologias, p\u00f4steres, internet etc. Transcrito recentemente em jornais, foi ligado ao fato de que o atual governo mente e logo desmente, e assim vai fazendo o seu discurso. Isso remete para uma quest\u00e3o mais ampla: as caracter\u00edsticas do discurso pol\u00edtico. 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