{"id":6795,"date":"2012-02-27T07:00:00","date_gmt":"2012-02-27T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/paulo_jose_cunha_escreve-2\/"},"modified":"2012-02-27T07:00:00","modified_gmt":"2012-02-27T10:00:00","slug":"paulo_jose_cunha_escreve-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/paulo_jose_cunha_escreve-2\/","title":{"rendered":"Paulo Jos\u00e9 Cunha escreve"},"content":{"rendered":"<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">\n<p>Bras\u00edlia, 27.2.2012 &nbsp; Querida  Dad, &nbsp; Quanto  tempo! Mas dizem que quem \u00e9 vivo sempre aparece. E eu digo que morto tamb\u00e9m  reaparece, vez ou outra, n\u00e3o apenas nos centros esp\u00edritas, mas a\u00ed mesmo pelas  ruas, em plena luz do dia. N\u00e3o acredita?  &nbsp; N\u00e3o  fosse assim, eu e&nbsp;Ang\u00e9lica n\u00e3o ter\u00edamos visto \u2013 com estes olhos que um dia a  terra ou o calor do cremat\u00f3rio h\u00e3o de comer \u2013 um morto-vivo solto pelas ruas.  Pois vimos. Vimos e anotamos para que n\u00e3o se esfuma\u00e7asse na mem\u00f3ria.  &nbsp; E sabe  quem foi o morto que vimos? Na verdade, devo abrir um par\u00eantese: n\u00e3o era bem um  morto, mas uma morta. Fecha par\u00eanteses. A finada era uma certa Gram\u00e1tica (lembra dela?), contra a qual parece que as superpot\u00eancias se declaram em  guerra at\u00f4mica, tamanha a f\u00faria de exclu\u00ed-la da face da Terra.  &nbsp; Quando  digo que a gram\u00e1tica est\u00e1 morta, voc\u00ea sabe muito bem que n\u00e3o exagero. \u00c9 not\u00f3ria  a not\u00edcia de sua morte, tantas pancadas, tantas facadas, tantos tiros, tantas  chicotadas, tantos megatons &nbsp;a pobrezinha  recebeu e continua recebendo diariamente. Tinha de morrer, como de fato morreu.  <\/p>\n<p>E seus coveiros \u2013 espie s\u00f3 as placas das ruas \u2013 n\u00e3o se cansam de celebrar seu  desaparecimento. \u00c9 um tal de \u201cTr\u00e1s a pessoa amada na palma da m\u00e3o\u201d e \u201cAfia-se  tesouras\u201d espalhados a\u00ed &nbsp;que a gente n\u00e3o  tem d\u00favidas: foi assassinato premeditado nos m\u00ednimos detalhes.  &nbsp; Mas a  danadinha resiste. N\u00e3o apenas nos livros e nas apostilas que os concurseiros  devoram dia e noite, no af\u00e3 de incorpor\u00e1-la a qualquer custo (assim como os  m\u00e9diuns incorporam seres do al\u00e9m como o dr. Fritz ou a legi\u00e3o de pretos velhos  que ornamentam os rituais da umbanda). A Gram\u00e1tica, como eu disse, resiste,  mesmo morta e enterrada.  <\/p>\n<p>Ainda agorinha demos com ela, toda ancha, num bel\u00edssimo  letreiro instalado ali na comercial da 410 Norte. Tal apari\u00e7\u00e3o n\u00e3o merece passar  em branco, por isso resolvi escrever para lhe comunicar a feliz not\u00edcia.&nbsp; Diz o  letreiro, afixado no frontisp\u00edcio de uma sobreloja: <strong>\u201cFazem-se costuras e  consertos de roupas. Forram-se bot\u00f5es\u201d. <\/strong> &nbsp; Foi  Ang\u00e9lica que percebeu e me chamou a aten\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil encontrar uma placa  sem erros que at\u00e9 chama a aten\u00e7\u00e3o\u201d. Li e concordei com ela. Vamos ler de novo  porque, como se sabe, \u00e9 na releitura que se fixam forma e conte\u00fado das boas  obras: <strong>\u201cFazem-se costuras e consertos de roupas. Forram-se  bot\u00f5es\u201d.<\/strong>  <\/p>\n<p>Olha s\u00f3 que maravilha! Que precis\u00e3o! E, ao que tudo indica, a  preciosidade foi redigida por uma simples costureira, profiss\u00e3o das mais  importantes e \u00fateis, embora t\u00e3o destitu\u00edda de status nestes tempos de magazines  gigantes onde se vendem confec\u00e7\u00f5es produzidas por poderosas m\u00e1quinas, em s\u00e9rie,  para todos os gostos e tamanhos.  &nbsp; Observe as concord\u00e2ncias. Nossa costureira n\u00e3o escreveu \u201cFaz-se  costuras\u201d, mas \u201cFazem-se costuras\u201d, estabelecendo preciosa concord\u00e2ncia do  verbo fazer com o plural \u201ccosturas\u201d, al\u00e9m, \u00e9 claro, com o complemento \u201ce  consertos de roupas\u201d. Aqui, chama a aten\u00e7\u00e3o o cuidado de p\u00f4r no plural a palavra  \u201cconsertos\u201d, n\u00e3o \u201cconserto\u201d, como se v\u00ea tanto por a\u00ed. Mais do que isso: a  palavra \u201cconsertos\u201d \u2013 lembrou-me Ang\u00e9lica \u2013 est\u00e1 escrita bem certinho, com \u201cs\u201d,  e n\u00e3o com \u201cc\u201d! &nbsp; &nbsp; Por  \u00faltimo,&nbsp;a frase final: \u201cForram-se bot\u00f5es\u201d e n\u00e3o \u201cForra-se bot\u00f5es\u201d, como \u00e9  encontradi\u00e7o por a\u00ed. Bingo! &nbsp; Diante  de t\u00e3o auspicioso fato, resolvi lhe escrever para dar not\u00edcias. Not\u00edcias boas,  como v\u00ea, pois n\u00e3o \u00e9 todo dia que a gente encontra gente morta vivinha por a\u00ed e  mostrando que \u00e9 poss\u00edvel, sim, imitar o Todo-Poderoso&nbsp; e escrever certo por linhas (e agulhas e  tesouras) tortas. E&nbsp;as m\u00e1s l\u00ednguas ainda dizem que jornalista n\u00e3o gosta de  not\u00edcia boa&#8230;&nbsp; &nbsp; Ah,  Ang\u00e9lica quer conhecer voc\u00ea. Sabedora de sua fama, me disse que vai ficar bem  caladinha&nbsp;pra n\u00e3o cometer nenhum deslize e assim jogar mais terra na cova  da&nbsp;Gram\u00e1tica. &nbsp; &nbsp; Um  beijo deste seu admirador &nbsp; Paulo  Jos\u00e9 Cunha<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bras\u00edlia, 27.2.2012 &nbsp; Querida Dad, &nbsp; Quanto tempo! Mas dizem que quem \u00e9 vivo sempre aparece. E eu digo que morto tamb\u00e9m reaparece, vez ou outra, n\u00e3o apenas nos centros esp\u00edritas, mas a\u00ed mesmo pelas ruas, em plena luz do dia. 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