{"id":6874,"date":"2012-03-04T00:00:00","date_gmt":"2012-03-04T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/houaiss_no_banco_dos_reus_6\/"},"modified":"2012-03-04T00:00:00","modified_gmt":"2012-03-04T03:00:00","slug":"houaiss_no_banco_dos_reus_6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/houaiss_no_banco_dos_reus_6\/","title":{"rendered":"Houaiss no banco dos r\u00e9us 6"},"content":{"rendered":"\n<p>Que barbaridade!Que homens  s\u00e3o esses? Como um be\u00f3cio, capad\u00f3cio ou filisteu desses se tornou  procurador?&nbsp; Onde est\u00e1 a cultura desse que judia de nossa  j\u00e1 prec\u00e1ria cultura?&nbsp; Que pa\u00eds estamos nos tornando?&nbsp; Como diria certo \u00e2ncora da televis\u00e3o:&nbsp; \u201cisso \u00e9 uma vergonha!\u201d.&nbsp;(Jos\u00e9 Carlos Cancelli) <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">\n<div>Vamos queimar os dicion\u00e1rios<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;Aconteceu,&nbsp; sim. E foi em Minas. E foi uma autoridade federal (\u201cdouto procurador\u201d, segundo a ironia do comentarista)l:&nbsp;\u201cesta  semana o Brasil inteligente ficou sabendo, estarrecido, que um  procurador da Rep\u00fablica de Uberl\u00e2ndia quer obrigar o Instituto Ant\u00f4nio  Houaiss a retirar de circula\u00e7\u00e3o todas as edi\u00e7\u00f5es do dicion\u00e1rio Houaiss,  que cont\u00eam, segundo a excelent\u00edssima sumidade, \u201cexpress\u00f5es pejorativas e  preconceituosas relativas aos ciganos\u201d?\u201d [Veja dois coment\u00e1rio: 1  fil\u00f3sofo&nbsp; na&nbsp; Folha e um fil\u00f3logo na Zero Hora]&nbsp;&nbsp;Como dizia o fil\u00f3sofo, a burrice \u00e9 a coisa mais democraticamente distribu\u00edda neste mundo.&nbsp;A.&nbsp;XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXFSPAULO 2.3.2012&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; H\u00c9LIO SCHWARTSMAN&nbsp;<strong>Censurando o dicion\u00e1rio<\/strong>&nbsp;S\u00c3O  PAULO &#8211; Ou botaram alguma coisa na \u00e1gua do bebedor do MPF (Minist\u00e9rio  P\u00fablico Federal) de Belo Horizonte ou o parquet n\u00e3o sabe para que serve  um dicion\u00e1rio.&nbsp;\u00c9  despropositada a a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica que o MPF ajuizou pedindo a  retirada de circula\u00e7\u00e3o do dicion\u00e1rio &#8220;Houaiss&#8221;, porque a obra cont\u00e9m  &#8220;express\u00f5es pejorativas e preconceituosas&#8221; contra os ciganos.&nbsp;Entre  as m\u00faltiplas defini\u00e7\u00f5es para a palavra, constam &#8220;aquele que trapaceia,  velhaco, burlador&#8221; e &#8220;agiota, sovina&#8221;. Evidentemente, o &#8220;Houaiss&#8221; marca  esses usos como pejorativos.&nbsp;N\u00e3o  cabe ao lexic\u00f3grafo dar li\u00e7\u00f5es de moral ou depurar o idioma das  injusti\u00e7as sociais que ele carrega, mas t\u00e3o somente registrar as  acep\u00e7\u00f5es presentes e passadas dos voc\u00e1bulos. Se deixa de faz\u00ea-lo, a obra  torna-se in\u00fatil.&nbsp;Por  isonomia, o MPF deveria tamb\u00e9m mandar recolher todos os dicion\u00e1rios que  trazem, por exemplo, o termo &#8220;be\u00f3cio&#8221;. Para essa palavra, o &#8220;Aur\u00e9lio&#8221;  registra: &#8220;curto de intelig\u00eancia; ignorante, bo\u00e7al&#8221;. Se olharmos para a  etimologia, descobriremos que estamos diante de um imemorial preconceito  dos atenienses, para os quais os habitantes da Be\u00f3cia n\u00e3o passavam de  camponeses est\u00fapidos.&nbsp;Na  mesma linha v\u00e3o &#8220;capad\u00f3cio&#8221; (natural da Capad\u00f3cia, mas tamb\u00e9m  ignorante, trapaceiro, canalha), &#8220;filisteu&#8221; (antigo habitante da  Palestina e pessoa inculta, vulgar), &#8220;v\u00e2ndalo&#8221; (membro de uma tribo  germ\u00e2nica e destruidor), al\u00e9m de &#8220;lap\u00f4nio&#8221;, &#8220;ladino&#8221;, &#8220;safardana&#8221;,  &#8220;malt\u00eas&#8221;.&nbsp;Tamb\u00e9m  carregam alguma dose de intoler\u00e2ncia termos como &#8220;judiar&#8221; (agir como  judeu e maltratar), &#8220;cretino&#8221; (quem padece de hipotireoidismo),  &#8220;escravo&#8221; (que vem de eslavo).&nbsp;No  fundo, l\u00ednguas s\u00e3o verdadeiros cat\u00e1logos de preconceitos, \u00e0s vezes nem  originais, mas herdados de outros povos. Com o passar do tempo, j\u00e1 nem  os reconhecemos como tal, mas as palavras em que resultaram enriquecem e  d\u00e3o car\u00e1ter hist\u00f3rico ao idioma. Privar a l\u00edngua dessa din\u00e2mica \u00e9  torn\u00e1-la uma l\u00edngua morta.&nbsp;<a href=\"mailto:helio@uol.com.br\" target=\"_blank\">helio@uol.com.br<\/a>&nbsp;xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxZERO HORA 3.12.2012:&nbsp;PROFESSOR CL\u00c1UDIO MORENO&nbsp;\u201cPois  n\u00e3o \u00e9 que esta semana o Brasil inteligente ficou sabendo, estarrecido,  que um procurador da Rep\u00fablica de Uberl\u00e2ndia quer obrigar o Instituto  Ant\u00f4nio Houaiss a retirar de circula\u00e7\u00e3o todas as edi\u00e7\u00f5es do dicion\u00e1rio  Houaiss, que cont\u00eam, segundo a excelent\u00edssima sumidade, \u201cexpress\u00f5es  pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos\u201d? Confesso que h\u00e1  muito eu n\u00e3o ouvia tamanho disparate, e fiquei t\u00e3o chocado com a not\u00edcia  que, a princ\u00edpio \u2013 imaginando que fosse mais um desses boatos  propagados pelas ondas do mar da internet \u2013, pus minha m\u00e3o no fogo pelo  procurador: \u201cUm membro do Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o vai cometer o erro  prim\u00e1rio de confundir o texto de um dicion\u00e1rio com o de uma  enciclop\u00e9dia\u201d, sentenciei \u2013 mas, ai de mim, logo me convenci de que  teria feito melhor se tivesse deixado a m\u00e3o no bolso: era tudo verdade! <\/p>\n<p>Ocorre  que este dicion\u00e1rio \u2013 de longe, o melhor que j\u00e1 tivemos em l\u00edngua  portuguesa \u2013 n\u00e3o faz mais do que a obriga\u00e7\u00e3o ao registrar que o termo  cigano tem oito acep\u00e7\u00f5es, entre elas duas que Houaiss expressamente  rotula como \u201cpejorativas\u201d: \u201caquele que trapaceia; velhaco, burlador\u201d e  \u201caquele que faz barganha, que \u00e9 apegado ao dinheiro; agiota, sovina\u201d.  Afinal, este \u00e9, como vimos, o compromisso t\u00e1cito que todo lexic\u00f3grafo  que se preze assume conosco: apresentar o repert\u00f3rio de significados  atribu\u00eddos a cada palavra e indicar as particularidades de seu uso  (\u201cinformal\u201d, \u201cantiquado\u201d, \u201cchulo\u201d, \u201cregional\u201d, etc.). Nosso douto  procurador deveria ter percebido que as informa\u00e7\u00f5es apresentadas pelo  Houaiss \u2013 que, desculpem lembrar a obviedade, n\u00e3o \u00e9 uma enciclop\u00e9dia \u2013  se referem ao termo, e n\u00e3o ao povo cigano. No dia em que registrar os  valores depreciativos que certos voc\u00e1bulos assumiram ao longo do tempo  for considerado um crime, nossa l\u00edngua \u2013 ou melhor, nossa civiliza\u00e7\u00e3o  ter\u00e1 embarcado numa viagem sem volta para a noite escura da desmem\u00f3ria.\u201d <\/p>\n<p>O problema \u00e9 t\u00e3o s\u00e9rio que voltaremos a ele na nossa pr\u00f3xima coluna.\u201d&nbsp;   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que barbaridade!Que homens s\u00e3o esses? Como um be\u00f3cio, capad\u00f3cio ou filisteu desses se tornou procurador?&nbsp; Onde est\u00e1 a cultura desse que judia de nossa j\u00e1 prec\u00e1ria cultura?&nbsp; Que pa\u00eds estamos nos tornando?&nbsp; Como diria certo \u00e2ncora da televis\u00e3o:&nbsp; \u201cisso \u00e9 uma vergonha!\u201d.&nbsp;(Jos\u00e9 Carlos Cancelli) &nbsp; Vamos queimar os dicion\u00e1rios &nbsp;Aconteceu,&nbsp; sim. E foi em Minas. 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