{"id":6900,"date":"2012-03-05T09:05:00","date_gmt":"2012-03-05T12:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/houaiss_no_banco_dos_reus_11\/"},"modified":"2012-03-05T09:05:00","modified_gmt":"2012-03-05T12:05:00","slug":"houaiss_no_banco_dos_reus_11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/houaiss_no_banco_dos_reus_11\/","title":{"rendered":"Houaiss no banco dos r\u00e9us 11"},"content":{"rendered":"\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Jos\u00e9 Horta Manzano<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Quando ter\u00e1 come\u00e7ado essa moda do politicamente correto? Dez anos atr\u00e1s? Vinte, talvez? Ter\u00e1 sido, como costumam ser os modismos, importada dos EUA? Durante algum tempo imaginei que assim fosse. At\u00e9 que&#8230;<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&#8230; at\u00e9 que descobri que, pelo menos nessa \u00e1rea, nosso pa\u00eds tinha dado prova de pioneirismo. Sim, senhores! N\u00e3o acreditam? Pois garanto-lhes que n\u00e3o \u00e9 chiste nem zombaria. Cinquenta anos atr\u00e1s preconceito e desconfian\u00e7a \u00e9tnico-raciais podiam habitar o foro \u00edntimo de cada um, mas j\u00e1 n\u00e3o figuravam em nenhuma lei por aqui desde os tempos da Lei \u00c1urea. N\u00e3o obstante, as autoridades brasileiras foram bem mais al\u00e9m. Audaciosamente inventaram um politicamente correto avant la lettre. Tosco, restrito, mas assim mesmo pioneiro.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Um pequeno estremecimento j\u00e1 havia ocorrido durante o governo JK, nos anos 1950, quando o mineiro Cl\u00f3vis Salgado dirigia o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Mas o petardo arrebentou mesmo em 1961, j\u00e1 no governo J\u00e2nio Quadros, um presidente estranho e ousado. No m\u00eas de julho, o Planalto determinou que o Dicion\u00e1rio pr\u00e1tico da l\u00edngua portuguesa, organizado pelo lexic\u00f3logo paulista Francisco da Silveira Bueno e adotado no ensino p\u00fablico, fosse expurgado \u2014 sim, a palavra usada foi esta: expurgado \u2014 de &#8220;conceitos que n\u00e3o podem ser levados em pa\u00eds crist\u00e3o e democr\u00e1tico \u00e0 mocidade, sem o risco de inculcar preven\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a ou religi\u00e3o&#8221;. (sic)<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Entre outras, deveriam ser banidas palavras como: judeu, judas, negro, panam\u00e1, jesu\u00edta, favela, judia\u00e7\u00e3o. Na origem da despolui\u00e7\u00e3o do dicion\u00e1rio, estava o fato de todos esses termos terem, al\u00e9m do significado pr\u00f3prio, uma conota\u00e7\u00e3o pejorativa.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">A intrepidez presidencial fez correr muita tinta e causou rebuli\u00e7o, mas acabou gorando. De qualquer maneira, J\u00e2nio renunciaria \u00e0 presid\u00eancia no m\u00eas seguinte, num gesto cujas raz\u00f5es permanecem at\u00e9 hoje absconsas. Mas essa j\u00e1 \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">As palavras incriminadas continuam a figurar nos dicion\u00e1rios atuais exatamente com o mesmo sentido que tinham 50 anos atr\u00e1s. E com as mesmas conota\u00e7\u00f5es pejorativas, sejam elas politicamente corretas ou n\u00e3o. Est\u00e1 feita a prova de que corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o se imp\u00f5e por decreto. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Horta ManzanoQuando ter\u00e1 come\u00e7ado essa moda do politicamente correto? Dez anos atr\u00e1s? Vinte, talvez? Ter\u00e1 sido, como costumam ser os modismos, importada dos EUA? Durante algum tempo imaginei que assim fosse. At\u00e9 que&#8230;&#8230; at\u00e9 que descobri que, pelo menos nessa \u00e1rea, nosso pa\u00eds tinha dado prova de pioneirismo. 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