{"id":6932,"date":"2012-03-07T00:00:00","date_gmt":"2012-03-07T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_mal-educado_e_o_mal-informado\/"},"modified":"2012-03-07T00:00:00","modified_gmt":"2012-03-07T03:00:00","slug":"o_mal-educado_e_o_mal-informado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_mal-educado_e_o_mal-informado\/","title":{"rendered":"O mal-educado e o mal-informado"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;   <\/p>\n<p>Al Martin  &nbsp;  Pronomes pessoais com fun\u00e7\u00e3o reflexiva n\u00e3o s\u00e3o exclusividade da l\u00edngua portuguesa. O mesmo acontece com gente: falta de educa\u00e7\u00e3o e lacunas de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se confinam a grot\u00f5es tupiniquins \u2014 atingem \u00e0s vezes altas esferas e abalam a imagem de figur\u00f5es.  &nbsp;  Foi o que aconteceu estes \u00faltimos dias. Pasmos, assistimos a um bate-boca entre a Fifa e o governo brasileiro. Um arranca-rabo de corti\u00e7o n\u00e3o teria sido mais constrangedor. Aborrecido ao constatar que as obras da Copa-14 n\u00e3o seguiam o cronograma combinado, o secret\u00e1rio-geral da Fifa fez um pronunciamento grosseiro. Disse textualmente: \u201cIl faut donner un coup de collier, <b><i>se mettre un coup de pied aux fesses<\/i><\/b> et organiser cette Coupe du monde\u201d.  &nbsp;  Que foi mal-educado, isso foi. Contudo, embora tenha usado linguagem caseira, rasteira e vulgar, a frase n\u00e3o pode ser considerada propriamente ofensiva. Simplesmente n\u00e3o fica bem na boca de quem ocupa cargo t\u00e3o importante. (Em nossas plagas j\u00e1 ouvimos coisas piores saindo da boca de ocupantes de altas esferas, mas essa j\u00e1 \u00e9 uma outra hist\u00f3ria&#8230;)  &nbsp;  O secret\u00e1rio-geral falou como quem ralhasse com um filho adolescente que estivesse se atrasando nos estudos. Usou linguagem coloquial, dif\u00edcil de traduzir. Disse algo parecido com <b style=\"font-weight: bold\"><i>\u201co Brasil tem de se tocar\u201d<\/i><\/b>, <b style=\"font-weight: bold\"><i>\u201cse sacudir\u201d<\/i><\/b>, <b style=\"font-weight: bold\"><i>\u201cacordar\u201d<\/i><\/b>, <b style=\"font-weight: bold\"><i>\u201cse mancar\u201d<\/i><\/b>. De personalidade t\u00e3o importante, n\u00e3o se espera um palavreado desse jaez. Mas tampouco \u00e9 o caso de lan\u00e7ar-lhe uma <i>fatwa<\/i> sobre a cabe\u00e7a.  &nbsp;  Tivesse o senhor Valcke omitido o <b><i>se<\/i><\/b> reflexivo, a coisa seria bem mais s\u00e9ria. De fato, <b><i>donner un coup de pied aux fesses<\/i><\/b> de algu\u00e9m quer dizer literalmente <b><i>dar um p\u00e9 no traseiro, <\/i><\/b>para usar a palavra mais amena. J\u00e1 a presen\u00e7a do pronome muda tudo. O agente da a\u00e7\u00e3o passa a ser, ao mesmo tempo, seu objeto. \u00c9 a maneira francesa de mandar algu\u00e9m apressar-se. Usa-se em fam\u00edlia ou com pessoas com quem se tem grande intimidade.  &nbsp;  Outras l\u00ednguas romances escolheram uma constru\u00e7\u00e3o reflexiva para a mesma finalidade. O franc\u00eas diz: se mettre un coup de pied aux fesses. O espanhol vai pela mesma picada: Date prisa (d\u00e1-te pressa)! O italiano n\u00e3o fica atr\u00e1s: Sbrigati (apressa-te)!  &nbsp;  Tenho lido profundas an\u00e1lises sociopsicol\u00f3gicas sobre esse infeliz incidente. H\u00e1 at\u00e9 articulistas que se valem do velho e gasto complexo de inferioridade ao atribuir ao secret\u00e1rio da Fifa relentos neocolonialistas. Baboseira. Trata-se apenas de um homem mal-educado, desprovido de tato. N\u00e3o \u00e9 o primeiro nem ser\u00e1 o \u00faltimo, infelizmente.  &nbsp;  Quanto ao titular de nosso Minist\u00e9rio dos Esportes, o problema \u00e9 outro. Faltou a ele \u2014 e a seus assessores, naturalmente \u2014 a necess\u00e1ria curiosidade para inteirar-se da frase original. De qualquer maneira, temo que de pouco lhes adiantaria o acesso \u00e0 fala tal qual foi pronunciada: o conhecimento apurado das principais l\u00ednguas do mundo n\u00e3o parece ser tema de import\u00e2ncia capital aos olhos do Planalto.  &nbsp;  O que se viu nada mais \u00e9 que uma desaven\u00e7a entre pessoas pouco capacitadas para exercer a fun\u00e7\u00e3o que lhes foi atribu\u00edda. Um diz o que lhe vem \u00e0 telha, como se estivesse num boteco. O outro, incapaz de entender e de julgar por si mesmo, \u00e9 ref\u00e9m de uma tradu\u00e7\u00e3o capenga na qual deposita inteira confian\u00e7a. N\u00e3o deu outra: foi um desastre.  &nbsp;  A honra do pa\u00eds foi salva pelo pequenino pronome reflexivo. A pizza j\u00e1 est\u00e1 assando e logo ser\u00e1 posta \u00e0 mesa. Melhor assim. Ou n\u00e3o?  &nbsp;  &nbsp;  &nbsp;     <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Al Martin &nbsp; Pronomes pessoais com fun\u00e7\u00e3o reflexiva n\u00e3o s\u00e3o exclusividade da l\u00edngua portuguesa. O mesmo acontece com gente: falta de educa\u00e7\u00e3o e lacunas de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se confinam a grot\u00f5es tupiniquins \u2014 atingem \u00e0s vezes altas esferas e abalam a imagem de figur\u00f5es. &nbsp; Foi o que aconteceu estes \u00faltimos dias. Pasmos, assistimos a um bate-boca entre a Fifa e o governo brasileiro. 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