{"id":7113,"date":"2012-03-28T12:00:00","date_gmt":"2012-03-28T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/da_fala_ao_grunhido\/"},"modified":"2012-03-28T12:00:00","modified_gmt":"2012-03-28T15:00:00","slug":"da_fala_ao_grunhido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/da_fala_ao_grunhido\/","title":{"rendered":"Da fala ao grunhido"},"content":{"rendered":"<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>Ferreira Gullar     <\/p>\n<p>Desconfio que, depois de desfrutar durante quase toda a vida da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa gente, como conservador e reacion\u00e1rio. N\u00e3o ligo para isso e at\u00e9 me divirto, lembrando a c\u00e9lebre frase de Mill\u00f4r Fernandes, segundo o qual &#8220;todo mundo come\u00e7a Rimbaud e acaba Oleg\u00e1rio Mariano&#8221;.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>Divirto-me porque sei que a coisa \u00e9 mais complicada do que parece e, fiel ao que sempre fui, n\u00e3o aceito nada sem antes pesar e examinar. Hoje \u00e9 comum ser a favor de tudo o que, ontem, era contestado. Por exemplo, quando ser de esquerda dava cadeia, s\u00f3 alguns poucos assumiam essa posi\u00e7\u00e3o; j\u00e1 agora, quando d\u00e1 at\u00e9 emprego, todo mundo se diz de esquerda.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>De minha parte, pouco se me d\u00e1 se o que afirmo merece essa ou aquela qualifica\u00e7\u00e3o, pois o que me importa \u00e9 se \u00e9 correto e verdadeiro. Posso estar errado ou certo, claro, mas n\u00e3o por conveni\u00eancia. Est\u00e1, portanto, impl\u00edcito que n\u00e3o me considero dono da verdade, que nem sempre tenho raz\u00e3o porque h\u00e1 quest\u00f5es complexas demais para meu entendimento. Por isso, \u00e0s vezes, se n\u00e3o concordo, fico em d\u00favida, a me perguntar se estou certo ou n\u00e3o.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>Cito um exemplo. Outro dia, ouvi um professor de portugu\u00eas afirmar que, em mat\u00e9ria de idioma, n\u00e3o existe certo nem errado, ou seja, tudo est\u00e1 certo. Tanto faz dizer &#8220;n\u00f3s vamos&#8221; como &#8220;n\u00f3s vai&#8221;.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>Ou\u00e7o isso e penso: que sujeito bacana, t\u00e3o modesto que \u00e9 capaz de sugerir que seu saber de nada vale. Mas logo me indago: ser\u00e1 que ele pensa isso mesmo ou est\u00e1 posando de bacana, de avan\u00e7adinho?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>E se fa\u00e7o essa pergunta \u00e9 porque me parece incongruente algu\u00e9m cuja profiss\u00e3o \u00e9 ensinar o idioma afirmar que n\u00e3o h\u00e1 erros. Se est\u00e1 certo dizer &#8220;dois mais dois \u00e9 cinco&#8221;, ent\u00e3o a regra gramatical, que determina a concord\u00e2ncia do verbo com o sujeito, n\u00e3o vale. E, se n\u00e3o vale essa nem nenhuma outra -uma vez que tudo est\u00e1 certo-, n\u00e3o h\u00e1 por que ensinar a l\u00edngua.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>A conclus\u00e3o inevit\u00e1vel \u00e9 que o professor deveria mudar de profiss\u00e3o porque, se acredita que as regras n\u00e3o valem, n\u00e3o h\u00e1 o que ensinar.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>Mas esse vale-tudo \u00e9 s\u00f3 no campo do idioma, n\u00e3o se adota nos demais campos do conhecimento. N\u00e3o vejo um professor de medicina afirmando que a tuberculose n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, mas um modo diferente de sa\u00fade, e que o melhor para o pulm\u00e3o \u00e9 fumar charutos.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>\u00c9 verdade que ningu\u00e9m morre por falar errado, mas, certamente, dizendo &#8220;n\u00f3s vai&#8221; e desconhecendo as normas da l\u00edngua, nunca entrar\u00e1 para a universidade, como entrou o nosso professor.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Devo concluir que gente pobre tem mesmo que falar errado, n\u00e3o estudar, n\u00e3o conhecer ci\u00eancia e literatura? Ou isso \u00e9 uma esp\u00e9cie de democratismo que confunde opini\u00e3o cr\u00edtica com preconceito?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">   <\/p>\n<p>As minorias, que eram injustamente discriminadas no passado, agora est\u00e3o acima do bem e do mal. Discordar disso \u00e9 preconceituoso e reacion\u00e1rio.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>E, assim como para essa gente avan\u00e7ada n\u00e3o existe certo nem errado, n\u00e3o posso estranhar que a locutora da televis\u00e3o diga &#8220;as milhares de pessoas&#8221; ou &#8220;estudou sobre as quest\u00f5es&#8221; ou &#8220;debateu sobre as alternativas&#8221; em vez de &#8220;os milhares de pessoas&#8221;, &#8221; estudou as quest\u00f5es&#8221; e &#8220;debateu as alternativas&#8221;.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>A palavra &#8220;sobre&#8221; virou uma mania dos locutores de televis\u00e3o, que a usam como reg\u00eancia de todos os verbos e em todas as ocasi\u00f5es imagin\u00e1veis.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>Sei muito bem que a l\u00edngua muda com o passar do tempo e que, por isso mesmo, o portugu\u00eas de hoje n\u00e3o \u00e9 igual ao de Cam\u00f5es e nem mesmo ao de Machado de Assis, bem mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Uma coisa, por\u00e9m, \u00e9 usar certas palavras com significados diferentes, construir frases de outro modo ou mudar a reg\u00eancia de certos verbos. Coisa muito distinta \u00e9 falar contra a l\u00f3gica natural do idioma ou simplesmente cometer erros gramaticais prim\u00e1rios.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>Mas a impress\u00e3o que tenho \u00e9 de que estou malhando em ferro frio. De que adianta escrever essas coisas que escrevo aqui se a televis\u00e3o continuar\u00e1 a difundir a fala errada cem vezes por hora para milh\u00f5es de telespectadores?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">     <\/p>\n<p>Pode o leitor alegar que a \u00e9poca \u00e9 outra, mais din\u00e2mica, e que a globaliza\u00e7\u00e3o tende a misturar as l\u00ednguas como nunca ocorreu antes. Isso de falar correto \u00e9 coisa velha, e o que importa \u00e9 que as pessoas se entendam, ainda que apenas grunhindo.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;(Artigo publicado na Folha de S.Paulo em 25\/3\/12. Encaminhado por Marcelo Abreu.)     <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ferreira Gullar Desconfio que, depois de desfrutar durante quase toda a vida da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa gente, como conservador e reacion\u00e1rio. N\u00e3o ligo para isso e at\u00e9 me divirto, lembrando a c\u00e9lebre frase de Mill\u00f4r Fernandes, segundo o qual &#8220;todo mundo come\u00e7a Rimbaud e acaba Oleg\u00e1rio Mariano&#8221;. 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