{"id":7162,"date":"2012-03-30T09:00:00","date_gmt":"2012-03-30T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_lingua_que_falamos\/"},"modified":"2012-03-30T09:00:00","modified_gmt":"2012-03-30T12:00:00","slug":"a_lingua_que_falamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/a_lingua_que_falamos\/","title":{"rendered":"A l\u00edngua que falamos"},"content":{"rendered":"<p><i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/i>  <\/p>\n<p>Rachel de Queiroz <\/p>\n<p><b>&nbsp;<\/b>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um americano meu conhecido, tendo que  vir ao Brasil a servi\u00e7o, achou que, sendo sofr\u00edvel no espa\u00adnhol, se viraria por  c\u00e1. E se virou. On\u00adtem me apareceu com um jornal na m\u00e3o, declarando que, para  ler os temas gerais, ainda sentia dificuldades, mas nas p\u00e1ginas de arte, canto,  tea\u00adtro, cinemas e, principalmente, nas p\u00e1ginas esportivas, s\u00f3 precisava  entender os verbos, j\u00e1 que tudo o mais era em ingl\u00eas. Deturpado um pouco, \u00e9  verdade, mas dava para sacar.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p> Antes da Grande Guerra (14\u201418), quem  dominava o mercado internacional &nbsp;da  l\u00edngua era o franc\u00eas. Era em franc\u00eas que conversavam as gr\u00e3-finas (quer dizer a  &#8220;elite&#8221;), que falavam os intelectuais, as freiras dos col\u00e9gios onde a mocidade  estu\u00addava. Mas, com a vit\u00f3ria dos ameri\u00adcanos naquela guerra e com o do\u00adm\u00ednio  mundial que assumiram depois da segunda, o franc\u00eas foi para o belel\u00e9u. &nbsp;S\u00f3 gente antiga \u00e9 que ho\u00adje ainda sabe algum  franc\u00eas. At\u00e9&nbsp; em Paris, em qualquer  lugar, nos res\u00adtaurantes, nas lojas, nas ruas, o ingl\u00eas-americano corre t\u00e3o  solto quanto aqui.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Esse neg\u00f3cio de l\u00edngua estrangeira em  pais colonizado \u00e9 fogo. A come\u00e7ar que a nossa pr\u00f3pria l\u00edngua ofi\u00adcial, o  portugu\u00eas, n\u00f3s a recebemos do colonizador luso, o que, ali\u00e1s, foi uma ben\u00e7\u00e3o.  Imagina se, como na \u00c1frica, n\u00f3s tiv\u00e9ssemos idiomas nati\u00advos fixados em extens\u00e3o  e &nbsp;profundi\u00addade; ou, ent\u00e3o, se fosse  realidade a fala da &#8220;lingua geral&#8221; dos \u00edndios, que alguns tentaram, mas jamais  conse\u00adguiram impor como l\u00edngua oficial do brasileiro. Mesmo porque as  inu\u00admer\u00e1veis tribos ind\u00edgenas que po\u00advoaram outrora e que ainda remanescem pelos  sert\u00f5es, cada uma fala o seu dialeio. O patax\u00f3, por exemplo, n\u00e3o tem nada a ver  com o falar dos amaz\u00f4nicos \u2014 pelo menos \u00e9<i>  <\/i>o que nos informam os especialistas. &nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p> Mas, deixando de lado os \u00edndios, falemos  dos descendentes dos \u00edn\u00addios que<i>  <\/i>n\u00f3s, pelo menos, preten\u00addemos ser: falemos de n\u00f3s, os brasileiros,  com o nosso portugu\u00eas adaptado a estas latitudes e l\u00edngua oficial dos nossos  v\u00e1rios milh\u00f5es de nati\u00advos. Pois aqui no Brasil, se voc\u00ea for a fundo no assunto,  toma um susto. Pegue um jornal, por exemplo. \u00c9 &nbsp;to\u00addo recheado de ingl\u00eas, como um peru de  farofa.   <\/p>\n<p>Nas p\u00e1ginas dedica\u00addas ao show business, ent\u00e3o! Come\u00e7a logo com isso &nbsp;de show business, que n\u00e3o se pode  traduzir literal\u00admente por &#8220;arte teatral&#8221; \u2014 tem sig\u00adnifica\u00e7\u00e3o muito mais  extensa, inclui as apresenta\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias esp\u00e9cies de salas, ou at\u00e9 na rua \u2014  tudo \u00e9 show. E o leitor do notici\u00e1rio, se n\u00e3o \u00e9<i> <\/i>escolado no papo, a todo instante trope\u00e7a  e se<i> <\/i>engasga com rap, punk, funk,  soap-opera etc.etc. Cantor de forr\u00f3 do Cear\u00e1 ou de Recife ou da Bahia s\u00f3 se  apresenta com o seu song book onde as melodias podem ser originalmente nativas,  mas t\u00eam como palavras-chave esse ingl\u00eas bastardo que eles inventaram e<b> <\/b>que n\u00e3o<b>  <\/b>se sabe se os  pr\u00f3prios ame\u00adricanos entendem. &nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p> No  esporte \u00e9 a mesma coisa ou pior. J\u00e1 que todos os  nossos espor\u00adtes foram  importados (e at\u00e9 a pala\u00advra que os representa, esporte, \u00e9 de origem  inglesa). O meu querido  mi\u00adnistro Pel\u00e9 tenta descaracterizar um pouco o neologismo, chamado-o de &#8220;desporto&#8221;. Mas n\u00e3o  pega, &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Verdade que o jornalismo esportivo &nbsp;procura aclimatar o dialeto, traduzindo como  pode os nomes importados \u2014 gool-keeper j\u00e1<i>  <\/i>\u00e9<i> <\/i>goleiro, back  \u00e9<i>  <\/i>beque, e h\u00e1 tradu\u00e7\u00f5es j\u00e1 t\u00e3o assimiladas que ningu\u00e9m diz mais  sen\u00e3o &#8220;centroavante&#8221;, \u201cmeio de campo&#8221; etc. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Engra\u00e7ado sermos um pa\u00eds t\u00e3o apaixonado  por esporte, especialmente o futebol (que n\u00e3o \u00e9 mais foot-ball),  &nbsp;e nunca termos sido capazes de inventar  nenhuma modalidade de peleja esportiva (os &nbsp;\u00edndios t\u00eam l\u00e1 os jogos deles, mas devem ser  ou muito chatos ou dif\u00edceis  porque a<i> <\/i>gente n\u00e3o os conhece nem  de nome. Ficamos nas adapta\u00e7\u00f5es tipo futev\u00f4lei, que, pelo menos, \u00e9 engra\u00e7ado.   &nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Lembram-se de uma marchinha de muitos anos  atr\u00e1s, em que o cantor pedia a morena que \u201cdeixasse a mania do ingl\u00eas&#8221;? A gente  n\u00e3o se dava conta, mas j\u00e1 era a terminologia americana se tornando absoluta: um  must, como eles dizem agora. Afinal os americanos ficaram mesmo donos do mundo.  Mais donos do que os romanos dos c\u00e9sares, porque, sob os c\u00e9sares de hoje, o  mundo \u00e9 muit\u00edssimo maior.  &nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p>Se houvesse novas encarna\u00e7\u00f5es, eu gostaria  de voltar \u00e0 Terra depois de bastantes anos, s\u00f3 para ver como estar\u00e3o falando os  nossos semelhantes. Provavelmente, creio, algum idioma novo nascido do  americano e localmente adaptado, como aconteceu com a l\u00edngua latina \u2013 m\u00e3e do  italiano, do franc\u00eas, do espanhol, do portugu\u00eas, que s\u00e3o filhos leg\u00edtmos; e mais  as filhas bastardas, que se espalham por \u00c1sia e \u00c1frica.   &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  <i>&nbsp;<\/i>E  os  nossos livrinhos, os que sobreviverem no tempo \u2014 um E\u00e7a, um Machado, talvez? \u2013  ter\u00e3o que ser traduzidos, ou pelo menos atualizados, fa\u00e7anha mais dif\u00edcil at\u00e9 do  que o que tentamos e n\u00e3o conseguimos fazer com um Gil Vicente e outros  vener\u00e1veis antepassados.   <\/p>\n<p>(Cr\u00f4nica publicada no Correio Braziliense de 18.10.97. Colabora\u00e7\u00e3o de Rold\u00e3o Simas Filho.) &nbsp;<i> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<p><\/i>&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Rachel de Queiroz &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um americano meu conhecido, tendo que vir ao Brasil a servi\u00e7o, achou que, sendo sofr\u00edvel no espa\u00adnhol, se viraria por c\u00e1. E se virou. 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