{"id":7449,"date":"2012-08-21T12:00:00","date_gmt":"2012-08-21T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/jaulas_encavadas\/"},"modified":"2012-08-21T12:00:00","modified_gmt":"2012-08-21T15:00:00","slug":"jaulas_encavadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/jaulas_encavadas\/","title":{"rendered":"Jaulas encavadas"},"content":{"rendered":"<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"><b>  <\/p>\n<p> Al Martin<\/b>   <\/p>\n<p>O Centro de Atendimento Juvenil Especializado do DF \u00e9 conhecido  pela sigla <b>Caje<\/b>. Por seu objetivo, classifica-se na categoria de tantas  outras institui\u00e7\u00f5es brasileiras dedicadas \u00e0 reinser\u00e7\u00e3o de adolescentes  desorientados.   <\/p>\n<p>Todos esses centros s\u00e3o lugares tristes. Servem mais para  descarregar a consci\u00eancia da sociedade do que para os fins a que teoricamente se  destinam. Sob o pretexto de reeducar adolescentes descaminhados, deixa-se cair  um v\u00e9u a isolar aqueles que atrapalham e a separ\u00e1-los dos que seguiram outra  trilha. O que os olhos n\u00e3o veem o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente, n\u00e3o \u00e9 mesmo?   <\/p>\n<p>Enfim, o problema \u00e9 vasto e antigo. Se a sociedade, nos \u00faltimos  s\u00e9culos, n\u00e3o tem feito o necess\u00e1rio para dar assist\u00eancia a seus membros mais  fr\u00e1geis, n\u00e3o h\u00e1 de ser de grande valia adotar siglas modernas e menos expl\u00edcitas  que os antigos estabelecimentos, a que d\u00e1vamos o sinistro nome de reformat\u00f3rio.  Ser\u00e1 apenas uma mistifica\u00e7\u00e3o. Uma a mais.   <\/p>\n<p>A sigla pela qual \u00e9 conhecido o Centro de Atendimento do DF \u00e9,  como j\u00e1 disse, Caje. N\u00e3o fosse tr\u00e1gico, seria c\u00f4mico. Em franc\u00eas, o voc\u00e1bulo  <b><i>cage<\/i><\/b>, de pron\u00fancia id\u00eantica, quer dizer&#8230; jaula.   <\/p>\n<p>Sim, senhores, n\u00e3o h\u00e1 aqui ironia nem engodo: \u00e9 a verdade  cristalina. O voc\u00e1bulo \u00e9 antiqu\u00edssmo, oriundo de raiz indoeuropeia presente em  diversas l\u00ednguas modernas. Os latinos j\u00e1 tinham o adjetivo <b><i>cavus<\/i><\/b>,  cujo feminimo, tomado substantivamente, designava um por\u00e3o, uma escava\u00e7\u00e3o nos  baixos da casa. Na falta de geladeira, podiam-se ali conservar frescos os  mantimentos.   <\/p>\n<p>Os costumes evoluem e, com eles, as palavras e os atos  relatados pela l\u00edngua. Para isolar criminosos e indesej\u00e1veis, a sociedade teve a  excelente ideia de jog\u00e1-los em <b><i>cavas<\/i><\/b>. No entanto, a falta de luz e  o excesso de umidade encurtavam demasiado a esperan\u00e7a de vida dos infelizes.   <\/p>\n<p>Na Idade M\u00e9dia, como rem\u00e9dio a essa mortandade precoce,  difundiu-se a moda de enfiar o prisioneiro numa jaula. Dotada de barras de  ferro, permitia a circula\u00e7\u00e3o do ar, evitava o aparecimento de mofo e, assim  mesmo, bloqueava a fuga do preso. O cub\u00edculo mudou, mas seu nome, na Fran\u00e7a,  permaneceu o mesmo. Com a eros\u00e3o da l\u00edngua, a <b><i>cava<\/i><\/b> romana  transformou-se em <b><i>cage<\/i><\/b>.   <\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, a <i>cava<\/i> latina criou filhos, netos e  tetranetos. <i>Cavar, cavidade, retroescavadeira, cova, c\u00f4ncavo, encovado,  escava\u00e7\u00e3o,<\/i> uma fam\u00edlia numerosa. No fundo, s\u00e3o todas oriundas do mesmo  buraco.   <\/p>\n<p>Etimologicamente, nossa <b>Caje<\/b> n\u00e3o tem a mesma origem da  <b><i>cage<\/i><\/b> francesa. Mas cumprem ambas o mesmo destino. Neste Pa\u00eds  simbolizado pelo Cristo do <i>Corcovado(*),<\/i> a fun\u00e7\u00e3o de uma Caje \u00e9 ser uma  <i>cage(*)<\/i>, uma esp\u00e9cie de <i>coveiro(*)<\/i> da sociedade.  &nbsp; (*) <i>Cage, Corcovado<\/i> e <i>coveiro<\/i> s\u00e3o cognatos da  antiga <i>cava<\/i>.<\/div>\n<div style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al Martin O Centro de Atendimento Juvenil Especializado do DF \u00e9 conhecido pela sigla Caje. Por seu objetivo, classifica-se na categoria de tantas outras institui\u00e7\u00f5es brasileiras dedicadas \u00e0 reinser\u00e7\u00e3o de adolescentes desorientados. Todos esses centros s\u00e3o lugares tristes. Servem mais para descarregar a consci\u00eancia da sociedade do que para os fins a que teoricamente se destinam. 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