{"id":7505,"date":"2013-01-05T00:00:00","date_gmt":"2013-01-05T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_remendo\/"},"modified":"2013-01-05T00:00:00","modified_gmt":"2013-01-05T02:00:00","slug":"o_remendo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_remendo\/","title":{"rendered":"O remendo"},"content":{"rendered":"<p>  <b>  <\/p>\n<p><\/b>  <b>Jos\u00e9 Horta Manzano<\/b>    <\/p>\n<p>Empres\u00e1rio, criador do blogue BrasildeLonge.wordpress.com  &nbsp;  A l\u00edngua portuguesa escrita n\u00e3o est\u00e1 longe de completar um mil\u00eanio. Nos primeiros s\u00e9culos, escrever n\u00e3o estava ao alcance de qualquer um. S\u00f3 os eclesi\u00e1sticos e os bem-nascidos eram letrados. Naquele contexto, a grafia das palavras dependia do gosto do fregu\u00eas. Cada escriba manejava sua pluma da forma que melhor lhe aprouvesse.  &nbsp;  Hoje e oj eram equivalentes; ver e veer tamb\u00e9m; cora\u00e7on e corazon eram aceitos indistintamente. A escrita n\u00e3o estava codificada, nem muito menos normatizada. Era o para\u00edso dos escritores, que, livres e soltos, n\u00e3o precisavam consultar dicion\u00e1rios, nem gram\u00e1ticas. O distinto p\u00fablico leitor era, de qualquer modo, minguado. E dicion\u00e1rios e gram\u00e1ticas ainda n\u00e3o haviam surgido.  &nbsp;  O tempo passou, Gutenberg redefiniu a arte de imprimir, a escrita p\u00f4de enfim se popularizar. A estagna\u00e7\u00e3o medieval foi perdendo sua caracter\u00edstica de imutabilidade das gentes e das coisas. Cop\u00e9rnico e Galileu movimentaram planetas, e o universo deixou de ser est\u00e1tico.  &nbsp;  O uso de nossa l\u00edngua tamb\u00e9m se acelerou. Num movimento espont\u00e2neo, a grafia foi-se fixando. Na aus\u00eancia de normas, a escrita se propagou por imita\u00e7\u00e3o. Oj, veer e corazon foram rareando, suplantados pelos modernos hoje, cora\u00e7\u00e3o e ver.  &nbsp;  O 7 de setembro nos separou da metr\u00f3pole, mas n\u00e3o influenciou a l\u00edngua. Durante os 50 anos seguintes, fam\u00edlias abastadas continuavam a mandar seus rebentos a Coimbra. Mesmo assim, a dist\u00e2ncia lingu\u00edstica entre Portugal e o Brasil foi aos poucos se alargando.  &nbsp;  No limiar do s\u00e9culo 20, tanto l\u00e1 quanto c\u00e1, muita coisa havia mudado. A produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria se avolumava. A instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica havia dado alguns passos t\u00edmidos na difus\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o brasileira crescia a taxas elevadas e j\u00e1 havia superado a de Portugal. Nossa imprensa, refletindo o falar nacional, j\u00e1 tomava certas liberdades com rela\u00e7\u00e3o ao rigor da escrita lusa.  &nbsp;  Parecia importante que a escrita dos dois pa\u00edses seguisse o mesmo diapas\u00e3o. No entanto, entre reformas e acordos, o que se viu foi uma inacredit\u00e1vel sequ\u00eancia de contrarreformas e desacordos. De 1907 para c\u00e1, a hist\u00f3ria registra desencontros tais como: reformas impostas aos brasileiros mas n\u00e3o aos portugueses (1971), reformas impostas aos portugueses mas n\u00e3o aos brasileiros (1973), acordos cumpridos pelo Brasil mas n\u00e3o por Portugal (1943), acordos cumpridos por Portugal mas n\u00e3o pelo Brasil (1945), acordos ignorados por ambos (1931). Uma verdadeira casa de m\u00e3e joana.   &nbsp;  Em 1990, foi costurado um en\u00e9simo \u00abacordo\u00bb, surpreendentemente t\u00edmido, confuso e amb\u00edguo. As aberra\u00e7\u00f5es se exacerbam quando se chega ao cap\u00edtulo dos h\u00edfens. Sabia o caro leitor que maria-sem-vergonha deve ser escrita assim, com h\u00edfen, enquanto maria vai com as outras n\u00e3o admite o tracinho? Sabia que para-choque se escreve separado, enquanto paraquedas se escreve de uma tacada s\u00f3?  &nbsp;  O governo brasileiro, no apagar das luzes de 2012, adiou por 3 anos a obrigatoriedade da nova escrita. A meu ver, fez muito bem. Poderia fazer melhor ainda: deixar o dito pelo n\u00e3o dito e simplesmente revogar esse famigerado \u00abacordo\u00bb.  &nbsp;  J\u00e1 tivemos reformas suficientes estes \u00faltimos 70 anos&nbsp;: 1943, 1971, 1990. Um cidad\u00e3o de 80 anos est\u00e1 enfrentando seu quarto aprendizado de escrita. Quem tem mais de 50 anos est\u00e1 aprendendo a escrever pela terceira vez. \u00c9 muita coisa.  &nbsp;  O ingl\u00eas da Inglaterra difere consideravelmente do ingl\u00eas americano. H\u00e1 diferen\u00e7as lexicais, sint\u00e1ticas, pros\u00f3dicas e, <i>last but not least,<\/i> gr\u00e1ficas. Isso n\u00e3o impede que o ingl\u00eas seja, <i>de facto,<\/i> a l\u00edngua universal.  &nbsp;  A argumenta\u00e7\u00e3o dos que alinhavaram nossa nova reforma era de unificar a escrita dos dois lados do Atl\u00e2ntico. No entanto, o volume de exce\u00e7\u00f5es \u00e9 t\u00e3o grande que a justificativa inicial perde a for\u00e7a. Com ou sem acordo, a escrita de l\u00e1 ser\u00e1 sempre diferente da de c\u00e1.  &nbsp;  Outra alega\u00e7\u00e3o era de que a unifica\u00e7\u00e3o nos facilitaria a obten\u00e7\u00e3o de cadeira cativa no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Balela. Nem que a escrita fosse id\u00eantica &#8213; o que n\u00e3o est\u00e1 previsto no acordo &#8213; nosso Pa\u00eds estaria em condi\u00e7\u00f5es de ser aceito naquela confraria. H\u00e1 outras condi\u00e7\u00f5es que, infelizmente, n\u00e3o preenchemos.  &nbsp;  Quando o rem\u00e9dio parece pior que o mal, como \u00e9 o caso do AO90, \u00e9 melhor deixar como est\u00e1 para ver como fica. Se nunca nos pusemos de acordo antes, por que nos por\u00edamos agora? Com acordo ou sem ele, teremos sempre diferen\u00e7as gr\u00e1ficas entre as duas variantes de nossa l\u00edngua.  &nbsp;  Deixemos que o tempo fa\u00e7a seu trabalho. O que n\u00e3o tem rem\u00e9dio remediado est\u00e1. No pr\u00f3ximo s\u00e9culo, voltamos ao assunto.  <\/p>\n<p>(artigo publicado no <b>Correio Braziliense<\/b> de hoje)   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Horta Manzano Empres\u00e1rio, criador do blogue BrasildeLonge.wordpress.com &nbsp; A l\u00edngua portuguesa escrita n\u00e3o est\u00e1 longe de completar um mil\u00eanio. Nos primeiros s\u00e9culos, escrever n\u00e3o estava ao alcance de qualquer um. S\u00f3 os eclesi\u00e1sticos e os bem-nascidos eram letrados. Naquele contexto, a grafia das palavras dependia do gosto do fregu\u00eas. 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