{"id":7519,"date":"2013-01-08T10:00:00","date_gmt":"2013-01-08T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/sobre_a_oralidade_e_a_escrita\/"},"modified":"2013-01-08T10:00:00","modified_gmt":"2013-01-08T12:00:00","slug":"sobre_a_oralidade_e_a_escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/sobre_a_oralidade_e_a_escrita\/","title":{"rendered":"Sobre a oralidade e a escrita"},"content":{"rendered":"\n<p>Um cabrito para uma  multinacional, de Mia Couto <\/p>\n<p>(publicado na revista <i>\u00c1frica21<\/i>, edi\u00e7\u00e3o  dez\/2012-jan\/2013) <\/p>\n<p>A pequena na\u00e7\u00e3o, a na\u00e7\u00e3o da escrita, \u00e9 absolutamente  minorit\u00e1ria em Mo\u00e7ambique, escreve Mia Couto, relatando o caso de um campon\u00eas  julgado em tribunal por desrespeito para com uma petrol\u00edfera estrangeira. \u00abO que  aconteceu na sala (\u2026) n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a tradu\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie de nova trindade:  escrita, l\u00edngua portuguesa e poder s\u00e3o os tr\u00eas nomes de uma mesma hegem\u00f3nica  entidade.\u00bb Cr\u00f3nica publicada na revista \u00c1frica 21 de Dezembro-Janeiro de 2013,  sob o t\u00edtulo original \u201cUm cabrito para uma multinacional\u201d, que a seguir se  transcreve na \u00edntegra, com a devida v\u00e9nia ao autor e \u00e0 revista dirigida por  Carlos Pintos Santos. <\/p>\n<p>Existe em Mo\u00e7ambique um desafio enorme em balancear  o valor e a legitimidade da express\u00e3o escrita e oral. Somos uma sociedade que  fala. As coisas s\u00e3o o que s\u00e3o porque se convertem em palavra e verbo. O que est\u00e1  escrito e \u00e9 sagrado para outras sociedades possui aqui uma viv\u00eancia diferente e  restrita. Mudan\u00e7as econ\u00f3micas sucedem-se a um ritmo acelerado e investimentos  est\u00e3o ocorrendo em regi\u00f5es rurais onde domina em absoluto a oralidade e as  l\u00ednguas de origem africana. <\/p>\n<p>Relato aqui um desses epis\u00f3dios que traduz  bem esse div\u00f3rcio de mundos. Um campon\u00eas que conhecia j\u00e1 antes veio ter comigo  para me contar as suas recentes desventuras. Ele tinha sido acusado de  desrespeito para com os investidores estrangeiros. O homem tinha-se excedido  numa discuss\u00e3o com a empresa petrol\u00edfera que o havia contratado. As autoridades  locais julgaram que era preciso tomar medidas para tranquilizar os estrangeiros.  Um \u00abtribunal popular\u00bb iria julg\u00e1-lo no dia seguinte. Autorizaram que eu  assistisse ao julgamento.  <\/p>\n<p>O edif\u00edcio do tribunal era um dos tr\u00eas \u00fanicos  constru\u00eddos em alvenaria e escolhera-se aquele cen\u00e1rio para emprestar dignidade  \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. Mas era melhor que o n\u00e3o tivessem feito. O estado do pequeno  edif\u00edcio era da mais miser\u00e1vel decad\u00eancia. Havia rombos no telhado de zinco, n\u00e3o  havia portas nem janelas. Para mim seria prefer\u00edvel terem escolhido uma das  palhotas de colmo da aldeia. Todavia, naquela aldeia, os lugares s\u00e3o medidos por  outros crit\u00e9rios. E aquele edif\u00edcio albergava esp\u00edritos vindos de muito longe e  de h\u00e1 muito tempo. <\/p>\n<p>A abrir a sess\u00e3o, os ju\u00edzes fizeram quest\u00e3o em exibir  os volumosos livros de c\u00f3digo civil. Uma velha e enorme m\u00e1quina de escrever  ecoava pausadamente, para susto do velho campon\u00eas que nunca tinha visto tal  engenho. Toda aquela representa\u00e7\u00e3o mostrava ao r\u00e9u que ele tinha chegado a um  outro mundo. Nesse outro mundo, ele era fr\u00e1gil e estranho.  <\/p>\n<p>Do outro lado, se  alinhavam os que tinham poder. Do outro lado, perfilavam-se os que n\u00e3o s\u00f3 sabiam  escrever como o faziam com uma m\u00e1quina cheia de escuros e ruidosos dentes. No  in\u00edcio, os representantes da Lei do Estado falaram apenas em portugu\u00eas. \u00c0 medida  que o julgamento avan\u00e7ava, por\u00e9m, a l\u00edngua local foi substituindo o idioma  portugu\u00eas. <\/p>\n<p>Rapidamente, por\u00e9m, aquela representa\u00e7\u00e3o foi resvalando para  uma outra cerim\u00f3nia, mais solta, mais espont\u00e2nea e mais dialogante. A m\u00e1quina de  escrever adormeceu e adormeceu o dactil\u00f3grafo. Pouco a pouco, todos foram  deixando de falar em portugu\u00eas. P\u00e9 ante p\u00e9, a cultura foi tomando conta da  encena\u00e7\u00e3o. Uma proposta de senten\u00e7a foi, enfim, apresentada. N\u00e3o para ser  imediatamente decretada, mas para ser discutida. E foi discutida n\u00e3o apenas com  o r\u00e9u mas com toda a fam\u00edlia que o acompanhava.  <\/p>\n<p>N\u00e3o se debatia a culpa e a  respetiva puni\u00e7\u00e3o. Negociava-se sim a reposi\u00e7\u00e3o do dano infligido. E porque a  senten\u00e7a era para ser negociada e n\u00e3o promulgada, a palavra falada valia mais do  que o papel. No final, por\u00e9m, o formalismo oficial voltou a imperar. A m\u00e1quina  de escrever voltou a funcionar e em portugu\u00eas se registou a invulgar decis\u00e3o: o  campon\u00eas foi condenado a entregar um cabrito a uma multinacional  petrol\u00edfera. <\/p>\n<p>O que se passou naquele tribunal pode ser lido de v\u00e1rias  maneiras. Mas h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o que me parece importante registar no contexto deste  encontro. \u00c9 que, no caso de Mo\u00e7ambique, a linha que parece separar os  territ\u00f3rios da escrita e da oralidade confunde-se com a das fronteiras  lingu\u00edsticas.  <\/p>\n<p>Nenhuma das l\u00ednguas origin\u00e1rias de Mo\u00e7ambique possui escrita  pr\u00f3pria e, ainda hoje, aprender a escrever e a ler \u00e9 quase exclusivamente feito  numa segunda l\u00edngua, a l\u00edngua portuguesa. Mais do que em outros lugares onde  impera o monolinguismo, ao iniciar-se na escrita, o mo\u00e7ambicano aprende tamb\u00e9m a  falar com um outro mundo. O problema \u00e9 que este outro mundo n\u00e3o sabe falar com  ele. N\u00e3o h\u00e1 espelho, n\u00e3o h\u00e1 simetria entre a voz e a letra. <\/p>\n<p>A express\u00e3o  escrita em Mo\u00e7ambique n\u00e3o abrange sen\u00e3o o centro das zonas urbanas. Essa pequena  na\u00e7\u00e3o, a na\u00e7\u00e3o da escrita, \u00e9 absolutamente minorit\u00e1ria. Contudo, \u00e9 essa na\u00e7\u00e3o  que comanda as v\u00e1rias outras na\u00e7\u00f5es de Mo\u00e7ambique. O que aconteceu na sala em  que foi julgado o campon\u00eas n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a tradu\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie de nova  trindade: escrita, l\u00edngua portuguesa e poder s\u00e3o os tr\u00eas nomes de uma mesma  hegem\u00f3nica entidade.   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um cabrito para uma multinacional, de Mia Couto (publicado na revista \u00c1frica21, edi\u00e7\u00e3o dez\/2012-jan\/2013) A pequena na\u00e7\u00e3o, a na\u00e7\u00e3o da escrita, \u00e9 absolutamente minorit\u00e1ria em Mo\u00e7ambique, escreve Mia Couto, relatando o caso de um campon\u00eas julgado em tribunal por desrespeito para com uma petrol\u00edfera estrangeira. \u00abO que aconteceu na sala (\u2026) n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a tradu\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie de nova trindade: escrita, l\u00edngua portuguesa e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-7519","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7519"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7519\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}