{"id":7549,"date":"2013-01-16T20:00:00","date_gmt":"2013-01-16T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/murundu_polissemico\/"},"modified":"2013-01-16T20:00:00","modified_gmt":"2013-01-16T22:00:00","slug":"murundu_polissemico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/murundu_polissemico\/","title":{"rendered":"Murundu poliss\u00eamico"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Antonio Prata  <\/p>\n<p>Quero comer mangas em mangas de camisa, curtir os baratos da  vida sem pensar em monstruosos insetos  <\/p>\n<p>Que manga seja tanto o fruto da mangueira quanto o bra\u00e7o da camisa \u00e9 um  desses ind\u00edcios -pequenos, mas incontorn\u00e1veis- de que a humanidade est\u00e1 fadada  ao fracasso. Veja, as combina\u00e7\u00f5es entre as consoantes e as vogais s\u00e3o infinitas,  os frutos, as partes da camisa e os demais itens deste mundo, n\u00e3o. Se usamos o  mesmo nome para duas coisas t\u00e3o distintas, \u00e9 porque a bagun\u00e7a \u00e9 ampla, geral e  irrestrita. <\/p>\n<p>Eu sei que a l\u00edngua n\u00e3o surge por decreto. Palavras brotam como \u00e1rvores,  esgar\u00e7am-se como camisas; \u00e0s vezes, tamb\u00e9m, mudam de significado: a fruta vira  compota, a blusa, pano de ch\u00e3o. Mas assim como os pomares t\u00eam seus agricultores  e as roupas, as costureiras, o vern\u00e1culo conta com os gram\u00e1ticos para trazer  mais racionalidade \u00e0 selva da comunica\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n<p>Se, em vez de ficarem depenando os  tremas de pinguins indefesos em in\u00fateis reformas ortogr\u00e1ficas, eles se  dedicassem a uma reforma sem\u00e2ntica, tudo ficaria mais simples. &#8220;A partir de 1\u00ba  de janeiro de 2014, a manga da camisa passa a chamar-se lafana&#8221;. Ou &#8220;bada&#8221;. Ou  &#8220;sprrrrlsploft&#8221;. (Eu, particularmente, prefiro &#8220;lafana&#8221;). &#8220;A partir de 1\u00ba de  janeiro de 2014, os cabos do ex\u00e9rcito passam a chamar-se subsargentos.&#8221; Ou  &#8220;zartos&#8221;. Ou &#8220;inhaum-inhaum-plaplum&#8221;. (Eu, particularmente, prefiro  &#8220;inhaum-inhaum-plaplum&#8221;). <\/p>\n<p>Os novos termos, contudo, pouco importam. Fundamental \u00e9 deixarmos de  viver nesta barafunda em que uma mercadoria que n\u00e3o \u00e9 cara (rosto) \u00e9 barata  (inseto), em que os budistas s\u00e3o liderados por lamas, em que tr\u00eas pessoas e uma  rachadura num copo -uma \u00fanica rachadura, olhe s\u00f3- s\u00e3o chamados de  trinca. <\/p>\n<p>Polissemia \u00e9 o nome da lamban\u00e7a. Vem do grego: poli = v\u00e1rios + sema =  significado &#8211; e muito me admira que gram\u00e1ticos tenham se reunido, se debru\u00e7ado  sobre o problema e surgido n\u00e3o com uma solu\u00e7\u00e3o, mas com esta palavra bonita e  pomposa. Lembra-me aquela placa: &#8220;Aten\u00e7\u00e3o, buracos na pista&#8221;. N\u00e3o era mais f\u00e1cil  consertar a estrada? Minha vontade \u00e9 arrancar a placa e botar sobre um buraco. \u00c9  pegar &#8220;polissemia&#8221; e batizar com ela as mangas da camisa. Ou o molho t\u00e1rtaro. Ou  o t\u00e1rtaro dos dentes. Ou o povo da Tart\u00e1ria. <\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de um purismo, de uma firula anal retentiva. A  polissemia atrapalha a vida da pessoa. Toda vez que chamo meu amigo Caio, por  exemplo, projeta-se em algum canto do meu c\u00e9rebro a imagem deste que vos escreve  caindo num bueiro. Quando fa\u00e7o um galo na cabe\u00e7a, quase escuto cacarejos. Quando  ou\u00e7o falar em banco de dados, penso numa porcaria de um banco feito com dados.  S\u00e3o neur\u00f4nios mobilizados inutilmente. Sinapses jogadas no lixo. \u00c9 um pedacinho  de nossa experi\u00eancia na Terra que entra pelo cano &#8211; como eu, quando penso no  Caio. <\/p>\n<p>Ora, gastemos nosso tempo com o que importa. Quero comer mangas em  mangas de camisa, quero dar cabo deste problema, curtir os baratos que a vida  oferece sem pensar em monstruosos insetos, em Kafka, que nasceu em Praga,  sin\u00f4nimo de peste, que nada tem a ver com Budapeste, que, al\u00e9m de peste, tem Buda  no nome; &#8220;Antes buda do que Tcheca!&#8221;, pensa a senhora de mente suja &#8211; mas n\u00e3o eu,  pois jamais faria tais insinua\u00e7\u00f5es num jornal de fam\u00edlia e s\u00f3 vim aqui por amor  \u00e0 l\u00edngua e ao nosso povo, perdido neste murundu poliss\u00eamico. <a href=\"mailto:antonioprata.folha@uol.com.br\" target=\"_blank\"><b>antonioprata.folha@uol.com.br<\/b><\/a> <\/p>\n<div>(Artigo publicado na<i> Folha de S.Paulo <\/i>de 16.1.13) <\/p>\n<p>Colabora\u00e7\u00e3o de Alexandre Garcia <\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Prata Quero comer mangas em mangas de camisa, curtir os baratos da vida sem pensar em monstruosos insetos Que manga seja tanto o fruto da mangueira quanto o bra\u00e7o da camisa \u00e9 um desses ind\u00edcios -pequenos, mas incontorn\u00e1veis- de que a humanidade est\u00e1 fadada ao fracasso. 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