{"id":7724,"date":"2013-05-24T13:13:00","date_gmt":"2013-05-24T16:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/sem_aspas_na_lingua_\/"},"modified":"2013-05-24T13:13:00","modified_gmt":"2013-05-24T16:13:00","slug":"sem_aspas_na_lingua_","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/sem_aspas_na_lingua_\/","title":{"rendered":"Sem aspas na l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<div>\n<div style=\"text-align: justify\">Antonio  Prata<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>Toda ter\u00e7a, l\u00e1 pelas quatro da tarde, envio a cr\u00f4nica  para a Andressa Taffarel, a L\u00edvia Scatena e a Daniela Mercier, redatoras aqui do  &#8220;Cotidiano&#8221;. Duas horas depois, mais ou menos, uma delas me devolve o texto com  todos os meus descalabros diligentemente corrigidos e grifados de amarelo. S\u00e3o  erros de ortografia e de digita\u00e7\u00e3o, v\u00edrgulas e mais v\u00edrgulas que v\u00e3o pro  belel\u00e9u, um ou outro ajuste ao padr\u00e3o <b>Folha<\/b> &#8211;s\u00e9culos &#8220;XXI&#8221; que se  adequam aos ditames do 21, &#8220;cowboys&#8221; que aprendem a falar sem a afeta\u00e7\u00e3o do  sotaque, como bons caub\u00f3is, &#8220;quinze pras seis&#8221; que trocam a imprecis\u00e3o das  letras pela pontualidade dos n\u00fameros: 17h45.  <\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>Sou imensamente grato a essas mulheres, sem as quais,  provavelmente, eu j\u00e1 teria sido desmascarado pela Ombudsman, num domingo, ou  mandado embora do jornal, numa quarta-feira bem sedinho. Quero dizer: cedinho  (Valeu, Andressa!). H\u00e1, contudo, um amarelo do qual sempre tento convenc\u00ea-las a  desistir: as aspas sobre os termos estrangeiros.  <\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>De in\u00edcio, o que me incomodava era o peso  desproporcional que as aspas d\u00e3o \u00e0 palavra. Se escrevo mouse pad, por exemplo,  suscito em seu pensamento apenas o quadradinho discreto que vive ao lado do  teclado, objeto n\u00e3o mais not\u00e1vel na economia do cotidiano do que as dobradi\u00e7as  da janela ou o porta-escova de dentes. J\u00e1 &#8220;mouse pad&#8221; parece grafado em neon,  brilha diante de seus olhos como o luminoso de uma lanchonete americana.  Desequilibra.  <\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>T\u00e1 legal, eu aceito o argumento: n\u00e3o se pode exigir  do leitor que saiba outra l\u00edngua al\u00e9m do portugu\u00eas. Se encasqueto em ornar meu  texto com &#8220;dramblys&#8221; ou &#8220;haveloos&#8221; &#8211;termos em lituano e holand\u00eas para elefante  e mulambento, respectivamente, segundo o Google Translator&#8211;, as aspas surgem  para acalmar quem me l\u00ea, como se dissessem: &#8220;Querid\u00e3o, os termos discriminados  s\u00e3o coisa doutras terras e doutra gente, nada que voc\u00ea devesse conhecer&#8221;.  <\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>Pois \u00e9 essa discrimina\u00e7\u00e3o o que, agora sei, mais me  incomoda. Vejo por tr\u00e1s das aspas uma pontinha de xenofobia, como se para  circular entre n\u00f3s a palavra estrangeira precisasse andar com o passaporte  aberto, mostrando o carimbo na entrada e na sa\u00edda.  <\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>Ora, por qu\u00ea? Ser\u00e1 que &#8220;blackberries&#8221; rolando  livremente por nossa terra poderiam frutificar e, como ervas daninhas, roubar os  nutrientes da graviola, da mangaba e do caj\u00e1? &#8220;Samplers&#8221;, sem as barrinhas  duplas de prote\u00e7\u00e3o, acabariam poluindo o portugu\u00eas com &#8220;beats&#8221; ex\u00f3genos,  condenando-o a uma vers\u00e3o &#8220;remix&#8221;? Caso receb\u00eassemos &#8220;blowjobs&#8221; sem o  supracitado preservativo gr\u00e1fico, doen\u00e7as ven\u00e9reas se espalhariam por nosso  exposto vern\u00e1culo?  <\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>Entendam, minhas caras L\u00edvia, Andressa e Daniela, n\u00e3o  estou reclamando de voc\u00eas &#8211;nem \u00e9 esta uma quest\u00e3o puramente jornal\u00edstica, mas  algo inerente \u00e0 burocracia da l\u00edngua, de todas as l\u00ednguas; resolu\u00e7\u00e3o de alguma  antiqu\u00edssima OMC lexical, datada, talvez, da queda de Babel, destinada a  garantir a pureza dos idiomas contra as invas\u00f5es b\u00e1rbaras.  <\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n<p>Bobagem, pessoal. Livremos as nossas frases desses  arames farpados, desses cacos de vidro. A l\u00edngua \u00e9 viva: quanto mais l\u00ednguas  tocar, mais sabores ir\u00e1 provar e experi\u00eancias poder\u00e1 acumular. Let it be, let it  bleed &#8211;e dessa geleia geral, whatever will be, will be. <\/p>\n<div style=\"text-align: justify\"> <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Prata &nbsp; Toda ter\u00e7a, l\u00e1 pelas quatro da tarde, envio a cr\u00f4nica para a Andressa Taffarel, a L\u00edvia Scatena e a Daniela Mercier, redatoras aqui do &#8220;Cotidiano&#8221;. Duas horas depois, mais ou menos, uma delas me devolve o texto com todos os meus descalabros diligentemente corrigidos e grifados de amarelo. S\u00e3o erros de ortografia e de digita\u00e7\u00e3o, v\u00edrgulas e mais v\u00edrgulas que v\u00e3o pro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-7724","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7724"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7724\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}