{"id":8363,"date":"2014-05-09T00:00:00","date_gmt":"2014-05-09T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/deixem_a_ortografia_em_paz\/"},"modified":"2014-05-09T00:00:00","modified_gmt":"2014-05-09T03:00:00","slug":"deixem_a_ortografia_em_paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/deixem_a_ortografia_em_paz\/","title":{"rendered":"Deixem a ortografia em paz"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp; JAIME PINSKY <i> <\/i><i>  <\/p>\n<p><\/i><i>Historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto, autor  de <\/i>Por que gostamos de hist\u00f3ria<i>, entre outros livros <\/i> &nbsp; Do Senado, duas not\u00edcias, uma boa e outra m\u00e1. A boa: parece que temos  senadores preocupados com o ensino de portugu\u00eas. A m\u00e1: querem alterar outra vez  nossa ortografia, agora radicalmente, com a esperan\u00e7a de que, com isso, alunos  possam obter melhores resultados na aprendizagem da l\u00edngua. Criaram at\u00e9 uma  comiss\u00e3o, com o objetivo de aplicar o acordo ortogr\u00e1fico (o mesmo que, na  pr\u00e1tica, j\u00e1 est\u00e1 em vigor), e para fazer com que &#8220;se escreva como se fala&#8221;.   <\/p>\n<p>Al\u00e9m de n\u00e3o ser boa, a ideia \u00e9 impratic\u00e1vel. Fico curioso a respeito de como  vai se escrever, por exemplo, aquilo que na ortografia atual \u00e9 denominada  Esta\u00e7\u00e3o das Barcas (l\u00e1 na Pra\u00e7a Mau\u00e1, no Rio de Janeiro). Para &#8220;fazer justi\u00e7a&#8221; \u00e0  pron\u00fancia, dever\u00edamos grafar &#8220;Ijta\u00e7\u00e3o daj Barcaj&#8221; ou Ixta\u00e7\u00e3o dax Barcax&#8221;? Fora  do Rio, talvez &#8220;Ista\u00e7\u00e3o&#8221;, ou ainda &#8220;Sta\u00e7\u00e3o&#8221;, como muita gente fala, j\u00e1 que  poucos dizem &#8220;esta\u00e7\u00e3o&#8221;, al\u00e9m dos curitibanos&#8230;   <\/p>\n<p>E como redigir o quarto m\u00eas do ano? &#8220;Abriu&#8221;, como dizem muitos brasileiros,  &#8220;abril&#8221;, como diriam alguns ga\u00fachos, ou &#8220;abrir&#8221;, como parte dos paulistas,  mineiros, paranaenses e outros pronunciam? Cabe ao leitor pensar em outros  exemplos.    <\/p>\n<p>Pesquisas excelentes, feitas por linguistas s\u00e9rios (Thais Crist\u00f3faro, Ataliba  Castilho, Stella Maris Bortoni, entre muitos outros) t\u00eam mostrado enorme  varia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica at\u00e9 no chamado portugu\u00eas culto. Qual seria, pois, o ponto  de partida oral, para sua suposta reprodu\u00e7\u00e3o em texto escrito? Obrigar todos a  pronunciar as palavras de uma s\u00f3 maneira, ou ter uma infinidade de  representa\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas para diferentes express\u00f5es fon\u00e9ticas?   <\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo. Como costuma lembrar Carlos Alberto Faraco, a l\u00edngua  escrita n\u00e3o \u00e9 mero reflexo da l\u00edngua falada: ambas constituem meios aut\u00f4nomos de  manifesta\u00e7\u00e3o do saber lingu\u00edstico. A ortografia \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o abstrata e  convencional da l\u00edngua. E \u00e9 fundamental que o sistema ortogr\u00e1fico seja est\u00e1vel e  que, independentemente da varia\u00e7\u00e3o na fala, haja uma \u00fanica representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica  por palavra. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o ter\u00edamos como reconhecer palavras que fossem  escritas em outro tempo (ou at\u00e9 em outro espa\u00e7o). Seria o caos.    <\/p>\n<p>As l\u00ednguas, patrim\u00f4nios culturais da humanidade, possuem hist\u00f3ria. Elas  resultam de pr\u00e1ticas sociais que as moldaram para que aqui chegassem do jeito  que s\u00e3o. S\u00e3o fatores fonol\u00f3gicos, morfol\u00f3gicos, etimol\u00f3gicos e de tradi\u00e7\u00e3o  cultural que fizeram com que nossa l\u00edngua seja grafada do jeito que \u00e9. L\u00ednguas  tamb\u00e9m t\u00eam parentesco, e nossa origem latina comum permite que possamos ler com  relativa facilidade (mesmo que n\u00e3o falemos) outras l\u00ednguas como o espanhol, o  franc\u00eas e o italiano. Mesmo o ingl\u00eas, gra\u00e7as ao enorme contingente de palavras  de origem latina, fica mais acess\u00edvel a partir de grafias semelhantes. Arrancar  as ra\u00edzes de nossa ortografia seria romper com importantes aspectos de nossa  identidade hist\u00f3rica.   <\/p>\n<p>Temos ainda o aspecto pr\u00e1tico, talvez o mais relevante de todos. Quando foi  imposto o \u00faltimo acordo ortogr\u00e1fico (que, absurdamente, teve sua implanta\u00e7\u00e3o  oficial postergada), toda a ind\u00fastria editorial movimentou-se para preparar  novas edi\u00e7\u00f5es de todo o seu acervo. Dezenas de milhares de t\u00edtulos sofreram as  mudan\u00e7as exigidas pelo MEC e outros \u00f3rg\u00e3os governamentais e privados. Gram\u00e1ticas  e dicion\u00e1rios foram refeitos; tratados foram revisados; livros infantis,  alterados; manuais, reeditados. Uma nova reforma seria desastrosa, n\u00e3o s\u00f3 para  as editoras, mas tamb\u00e9m para os governos, que teriam que substituir todas as  bibliotecas novamente. Trata-se de muito dinheiro jogado fora, possivelmente  levando \u00e0 fal\u00eancia muitas casas editoriais importantes, promovendo gasto  desnecess\u00e1rio de verbas p\u00fablicas, tornando obsoletos bilh\u00f5es de livros escolares  e universit\u00e1rios.    <\/p>\n<p>E h\u00e1, ainda, o aspecto da exclus\u00e3o social. Quando uma reforma ortogr\u00e1fica \u00e9  implantada, grande parte dos adultos se torna analfabeta, j\u00e1 que eles nem sempre  conseguem reter e utilizar as novas regras inventadas por capricho de meia d\u00fazia  de &#8220;s\u00e1bios&#8221;, ou de desavisados.    <\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com a qualidade do ensino? Busquem-se solu\u00e7\u00f5es adequadas,  fazendo com que excelentes pesquisas realizadas por importantes grupos de  especialistas possam chegar at\u00e9 as escolas brasileiras, por meio de amplo  programa nacional de qualifica\u00e7\u00e3o de professores do ensino fundamental. Se  houver, de fato, inten\u00e7\u00e3o de melhorar o ensino no Brasil, est\u00e1 cheio de gente  boa pronta para ajudar.   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; JAIME PINSKY Historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto, autor de Por que gostamos de hist\u00f3ria, entre outros livros &nbsp; Do Senado, duas not\u00edcias, uma boa e outra m\u00e1. A boa: parece que temos senadores preocupados com o ensino de portugu\u00eas. 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