{"id":8803,"date":"2013-08-26T13:00:00","date_gmt":"2013-08-26T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/juridiques_pra_que_te_quero\/"},"modified":"2013-08-26T13:00:00","modified_gmt":"2013-08-26T16:00:00","slug":"juridiques_pra_que_te_quero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/juridiques_pra_que_te_quero\/","title":{"rendered":"Juridiqu\u00eas, pra que te quero?"},"content":{"rendered":"\n<p><br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">Dad Squarisi<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os advogados se especializam no jurisdiqu\u00eas. Os economistas, no econom\u00eas. Os pedagogos, no pedagog\u00eas. Os programadores, no informatiqu\u00eas. O nome dessas e de falas do mesmo time t\u00eam clara inten\u00e7\u00e3o pejorativa. Traduz a linguagem rebuscada, cheia de floreios e marcada pela \u00e2nsia de exibi\u00e7\u00e3o. \u201cViu como sou erudito?\u201d, parece perguntar o profissional que acredita no quanto mais prolixo melhor. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o. Entre n\u00f3s h\u00e1 uma unanimidade. Adoramos gente que fala bonito. Manipular palavras com esmero \u00e9 pura sedu\u00e7\u00e3o. Com ela sonhamos todos n\u00f3s. A flu\u00eancia verbal abre portas. Dirime controv\u00e9rsias. Conquista adeptos. O orador desenvolto fala de improviso. Cativa plateias. \u00c9 o maior.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>O encantamento vem das palavras. N\u00e3o tem nada a ver com o significado. \u00c9 comum ouvir o suspiro de um deslumbrado. Depois o coment\u00e1rio: \u201cQue maravilha! Como ele \u00e9 culto! N\u00e3o entendi muita coisa. Mas ele fala t\u00e3o bem\u2026\u201d A adora\u00e7\u00e3o fica por conta do falar. N\u00e3o do dizer.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Os pol\u00edticos sabem disso. Falam bonito. N\u00e3o poupam v\u00eanias e excel\u00eancias. Per\u00edodos longos, mil ora\u00e7\u00f5es intercaladas, met\u00e1foras, desvios pra l\u00e1 e pra c\u00e1, imagens, vale tudo. No final, a gente n\u00e3o entende muito bem o recado. Mas bate palmas.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Fernando Sabino contou um caso ilustrativo. Passa-se na C\u00e2mara. Era quinta-feira, dia de plen\u00e1rio e galerias lotados. O deputado dirigiu-se \u00e0 tribuna. Cumprimentou o excelent\u00edssimo senhor presidente e os nobres parlamentares. Depois, partiu para o improviso. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Come\u00e7ou mal: \u201cN\u00e3o sou daqueles que\u2026\u201d Pintou a d\u00favida. O verbo vai para o plural? Ou ser\u00e1 singular? Falou que falou. Intercalou frases. Fez compara\u00e7\u00f5es. Enrolou de mont\u00e3o. Nada. A ora\u00e7\u00e3o continuava sem verbo. Com o tempo esgotado, pediu mais um minuto. Sem se decidir por um ou outro n\u00famero, concluiu: n\u00e3o sou daqueles. Tenho dito. A sala desabou de aplausos.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>Como explicar a verbolatria? \u201cO brasileiro desconfia do que entende\u201d, diagnosticou Nelson Rodrigues. \u201cO brasileiro tem alma de vira-lata\u201d, deduziu Glauber Rocha. \u201cSempre se sente diminu\u00eddo.\u201d Ant\u00f4nio C\u00e2ndido explicou o fen\u00f4meno. Chamou-o deslumbramento do colonizado.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>\u00c9 mais ou menos isto: quando os portugueses chegaram aqui, encontraram \u00edndios. Depois vieram os escravos. Uma massa de analfabetos formava o grosso da popula\u00e7\u00e3o. Os poucos portugueses ou descendentes que iam \u00e0 Europa estudar voltavam com a cabe\u00e7a feita. Tinham vergonha do que viam. N\u00e3o era esse o mundo onde poderiam exibir todo o conhecimento acumulado em Lisboa, Paris ou Londres. Para quem escrever? Para quem falar?<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>O jeito era esquecer o Brasil, feio, pobre, explorado e atrasado. Fizeram uma m\u00e1gica. O corpo ficaria aqui, mas os olhos l\u00e1. Quando falavam ou escreviam, dirigiam-se a um p\u00fablico imagin\u00e1rio \u2014 culto e refinado. Era uma boa. A realidade que n\u00e3o queriam enxergar ficava cada vez mais longe.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>A moda quase se perpetuou. Mas n\u00e3o h\u00e1 bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. O pa\u00eds se urbanizou. A popula\u00e7\u00e3o teve acesso \u00e0 escola. O saber se amplia em progress\u00e3o geom\u00e9trica. Mas o dia mant\u00e9m as 24 horas. Livros, jornais, revistas, internet, e-mails, tev\u00eas, cinemas, fam\u00edlia, trabalho \u2014 falta tempo para tantos apelos.<br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>O jeito? \u00c9 simplificar. Primeiro mandamento: respeitar os minutos do outro. Segundo: ser conciso. Cultivar a economia verbal \u2014 sem preju\u00edzo da completa e eficaz express\u00e3o do pensamento \u2014 n\u00e3o significa ser lac\u00f4nico, mas denso. Op\u00f5e-se a vago, impreciso, verborr\u00e1gico. <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/p>\n<p>No estilo denso, cada palavra conta. O jurisdiqu\u00eas, claro, entra na fatura. Mas tem hora e vez. Valem as palavras do ministro Edson Vidigal: \u201cJurisdiqu\u00eas \u00e9 como latim em missa. Acoberta um mist\u00e9rio que amplia a dist\u00e2ncia entre a f\u00e9 e o fiel. Do mesmo modo, entre o cidad\u00e3o e a lei\u201d.&nbsp; <br style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dad Squarisi&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os advogados se especializam no jurisdiqu\u00eas. Os economistas, no econom\u00eas. Os pedagogos, no pedagog\u00eas. Os programadores, no informatiqu\u00eas. O nome dessas e de falas do mesmo time t\u00eam clara inten\u00e7\u00e3o pejorativa. Traduz a linguagem rebuscada, cheia de floreios e marcada pela \u00e2nsia de exibi\u00e7\u00e3o. \u201cViu como sou erudito?\u201d, parece perguntar o profissional que acredita no quanto mais prolixo melhor. N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o. 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