{"id":9132,"date":"2014-03-23T00:00:00","date_gmt":"2014-03-23T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/olho_no_contagio_gente\/"},"modified":"2014-03-23T00:00:00","modified_gmt":"2014-03-23T03:00:00","slug":"olho_no_contagio_gente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/olho_no_contagio_gente\/","title":{"rendered":"Olho no cont\u00e1gio, gente"},"content":{"rendered":"<div><b><\/b> <\/p>\n<p>Mois\u00e9s Morais, de BH,&nbsp;\u00e9 voraz leitor de  jornais. Na viagem por letras, palavras, per\u00edodos e par\u00e1grafos, presta aten\u00e7\u00e3o  ao fato e ao texto. Nada escapa ao olhar atento e \u00e0 cr\u00edtica perspicaz. \u00c9 dele o  coment\u00e1rio: &#8220;Constato que, gradativamente, h\u00e1 aumento consider\u00e1vel no n\u00famero de  erros grosseiros de portugu\u00eas em reportagens, cr\u00f4nicas e at\u00e9 em editoriais. Os  deslizes s\u00e3o tantos que n\u00e3o me animo a apont\u00e1-los a cada dia. Hoje, por\u00e9m, h\u00e1 um  imperdo\u00e1vel na capa. Ei-lo: `Ferraz admitiu que devem haver mais confrontos com  bandidos\u00b4. Baita trombada, n\u00e3o?&#8221;<b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\"> <\/b><b> <\/p>\n<p><\/b><b>O verbo singular<\/b>   <\/p>\n<p>L\u00e1&nbsp;&nbsp;longe, no curso prim\u00e1rio, nossos  professores ensinavam: &#8220;O verbo haver, no sentido de <i>existir e ocorrer<\/i>, \u00e9  impessoal&#8221;. O que isso quer dizer? A maioria dos verbos \u2014 comuns, rotineiros,  sem charme \u2013 <i>\u00e9 pessoal<\/i>. Conjuga-se em todas as pessoas (eu, tu, ele, n\u00f3s,  v\u00f3s, eles). Veja, por exemplo, o laborioso <i>trabalhar: eu trabalho, tu  trabalhas, ele trabalha, n\u00f3s trabalhamos, v\u00f3s trabalhais, eles trabalham.  <\/i>  <\/p>\n<p>O haver detesta fazer parte de rebanho. Quer ser especial. E consegue. No  sentido de <i>ocorrer<\/i> e <i>existir<\/i>, \u00e9 <i>impessoal<\/i>. Sem sujeito, s\u00f3  se conjuga 3a pessoa do singular. Por isso recebe o apelido de verbo  singular. Exemplos n\u00e3o faltam: <i>H\u00e1 (existem) 10 pessoas na sala. No leil\u00e3o,  havia (existiam) antiguidades pra dar e vender.<\/i> <i>Acompanhamos as  tentativas que houve <\/i>(existiram) <i>at\u00e9 aqui. Houve <\/i>(ocorreram)  <i>dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es. A demanda \u00e9 por habita\u00e7\u00f5es que n\u00e3o h\u00e1  <\/i>(existem) <i>no mercado. <\/i><b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>A raz\u00e3o<\/b>  <\/p>\n<p>Vamos combinar? N\u00e3o \u00e9 nada do outro mundo. Por que, ent\u00e3o, se faz tanta  confus\u00e3o com a criatura? \u00c9 poss\u00edvel que muitos n\u00e3o tenham prestado aten\u00e7\u00e3o \u00e0s  palavras do professor. Ou n\u00e3o tenham entendido a li\u00e7\u00e3o. Ou, ainda, tenham  deixado a explica\u00e7\u00e3o entrar por um ouvido e sair por outro.   <\/p>\n<p>Resultado: at\u00e9 hoje, barbudos e carecas pensam que o sofisticado <i>haver<\/i>  \u00e9 igual aos demais membros da tribo. Esquecem que ele n\u00e3o tem sujeito. Com medo de errar, imaginam que o objeto direto  \u00e9 o sujeito. Bobeiam. Quando se diz &#8220;houve poucos dist\u00farbios&#8221;,  <i>dist\u00farbios<\/i> n\u00e3o \u00e9 sujeito como pensam os desavisados. \u00c9 objeto direto. N\u00e3o  tem nada a ver com a concord\u00e2ncia. <b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Cont\u00e1gio<\/b>  <\/p>\n<p>A impessoalidade \u00e9 contagiosa. Os auxiliares do haver  tamb\u00e9m se tornam impessoais. Foi a\u00ed que o jornal trope\u00e7ou: Haver\u00e1 mais  confrontos com bandidos. Deve haver mais confrontos com bandidos. Vai haver mais  confrontos com bandidos. Pode haver mais confrontos com bandidos. Talvez v\u00e1  haver mais confrontos com bandidos. <b>  <\/p>\n<p>Mais exemplos<\/b><i> <\/i> <\/p>\n<p>Olho no cont\u00e1gio: Houve dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es. Talvez tenha  havido dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es. Vai haver dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es  contra a Copa? Pode haver dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es. Tor\u00e7o para que n\u00e3o haja  dist\u00farbios durante as manifesta\u00e7\u00f5es. E voc\u00ea?<b style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif\">  <\/p>\n<p>Superdica <\/b><b><\/b> <\/p>\n<p>Dizem que, se conselho fosse t\u00e3o  bom, a gente n\u00e3o dava. Vendia. V\u00e1 l\u00e1. Mas eis um de gra\u00e7a: sempre que pintar a  tenta\u00e7\u00e3o de flexionar o haver, pare e pense. No sentido de ocorrer e de existir,  ele \u00e9 invari\u00e1vel, irremediavelmente fiel \u00e0 3a pessoa. Por via  das d\u00favidas, risque o <i>houveram <\/i>do seu vocabul\u00e1rio. Voc\u00ea nunca o usar\u00e1.   <\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mois\u00e9s Morais, de BH,&nbsp;\u00e9 voraz leitor de jornais. Na viagem por letras, palavras, per\u00edodos e par\u00e1grafos, presta aten\u00e7\u00e3o ao fato e ao texto. Nada escapa ao olhar atento e \u00e0 cr\u00edtica perspicaz. \u00c9 dele o coment\u00e1rio: &#8220;Constato que, gradativamente, h\u00e1 aumento consider\u00e1vel no n\u00famero de erros grosseiros de portugu\u00eas em reportagens, cr\u00f4nicas e at\u00e9 em editoriais. 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