{"id":9304,"date":"2014-04-11T10:10:00","date_gmt":"2014-04-11T13:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/chatinhos_e_chatinhas\/"},"modified":"2014-04-11T10:10:00","modified_gmt":"2014-04-11T13:10:00","slug":"chatinhos_e_chatinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/chatinhos_e_chatinhas\/","title":{"rendered":"Chatinhos e chatinhas"},"content":{"rendered":"\n<p>Concei\u00e7\u00e3o Freitas <\/p>\n<p>Meu amigo Carlos Tavares estava \u00e0 morte, mas continuava t\u00e3o Carlos Tavares  quando nos tempos de vida plena. A enfermeira entrava no quarto do hospital com  os instrumentos para inje\u00e7\u00e3o: &#8220;Seu Carlos, me d\u00ea seu bracinho\u2026Pode ficar  tranquilo que n\u00e3o vai doer nadinha&#8221;. O irado Tavares retrucava, sem d\u00f3 nem  piedade: &#8220;N\u00e3o me trate como idiota.&#8221; Estava vivo como nunca.  <\/p>\n<p>Uma amiga me conta que, quando vai \u00e0 pedicure de um sal\u00e3o do circuito chique,  e a mo\u00e7a pede: &#8220;Estique o seu pezinho&#8221;, ela responde, com a voz calma que lhe \u00e9  habitual: &#8220;Desde os 12 anos cal\u00e7o 40. Estou longe de ter um pezinho&#8221;.  <\/p>\n<p>Outra amiga estava ensaiando o casamento do filho, com o cerimonial, quando  teve de reagir \u00e0 mo\u00e7a que a convocava: &#8220;M\u00e3ezinha, venha c\u00e1. M\u00e3ezinha, o seu  lugar ser\u00e1 aqui. M\u00e3ezinha\u2026&#8221;. A m\u00e3e de um marmanjo de 32 anos n\u00e3o viu nenhuma  gra\u00e7a em ser tratada com tatibitates. &#8220;Meu nome \u00e9 S\u00f4nia, S\u00f4-ni-a&#8221;, retrucou,  para espanto da interlocutora que deve ter considerado a cliente uma  mal-educada. A prop\u00f3sito de educa\u00e7\u00e3o, o &#8220;m\u00e3ezinha&#8221; \u00e9 usado \u00e0 exaust\u00e3o pelas  professoras e afins nas escolas particulares, nas cl\u00ednicas pedi\u00e1tricas e, j\u00e1 se  tem not\u00edcia, at\u00e9 nas cl\u00ednicas veterin\u00e1rias!   <\/p>\n<p>O uso do diminutivo na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o se alastrou tanto quanto o  execr\u00e1vel gerundismo, onda que parece ter se aquietado nos \u00faltimos tempos.  Quanto mais chique o lugar, maior o uso do diminutivo. A gente rica precisa ser  bajulada, gosta de ser bajulada e nada mais eficaz do que ser tratada como um  beb\u00ea de maternal.   <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m est\u00e1 se alastrando irritantemente pela cidade o tratamento afetivo  entre desconhecidos. Conta-se que num dos restaurantes do circuito da alta  gastronomia, os gar\u00e7ons chamam os clientes de &#8220;meu amor&#8221;(Meu amor?!).   <\/p>\n<p>&#8220;Querida&#8221;, &#8220;meu bem&#8221; t\u00eam sido recursos muito utilizados, nos estabelecimentos  comerciais da cidade, para tentar estabelecer uma falsa intimidade com o  cliente. At\u00e9 o &#8220;amada&#8221;, caracter\u00edstico de Bel\u00e9m do Par\u00e1, chegou a Bras\u00edlia. O  muito afetivo paraense usa com muita naturalidade o &#8220;adorada&#8221; e o &#8220;mana&#8221;, claro.    <\/p>\n<p>Daqui a uns dias v\u00e3o nos chamar de &#8220;minha rainha&#8221; ou &#8220;meu rei&#8221;, \u00e0 moda  baiana. Muito mais simp\u00e1tico, aos meus ouvidos pelo menos, \u00e9 o modo como as  vendedoras de roupas da Feira do Guar\u00e1 tratam as freguesas. &#8220;Meninas, vamos  olhar cal\u00e7a, bermudinha, c\u00f3s alto, c\u00f3s m\u00e9dio, c\u00f3s baixo&#8221;, elas anunciam para mim  e minha m\u00e3e, de 81 anos, e para qualquer poss\u00edvel cliente. &#8220;Meninas&#8221; \u00e9 termo  consagrado na Feira do Guar\u00e1, n\u00e3o sei se em outras.  <\/p>\n<p>Sorte das vendedoras e dos gar\u00e7ons \u00e9 que o Carlos Tavares n\u00e3o est\u00e1 mais por  aqui. Ele j\u00e1 teria lan\u00e7ado uma campanha furiosa contra os diminutivos e a falsa  intimidade no circuito comercial: &#8220;Me respeite!&#8221;, ele exigiria, para come\u00e7ar os  trabalhos.    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Concei\u00e7\u00e3o Freitas Meu amigo Carlos Tavares estava \u00e0 morte, mas continuava t\u00e3o Carlos Tavares quando nos tempos de vida plena. 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