{"id":9386,"date":"2014-04-29T00:00:00","date_gmt":"2014-04-29T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_som_das_palavras\/"},"modified":"2014-04-29T00:00:00","modified_gmt":"2014-04-29T03:00:00","slug":"o_som_das_palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_som_das_palavras\/","title":{"rendered":"O som das palavras"},"content":{"rendered":"<p>  &nbsp;  &nbsp;Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho* <\/p>\n<p>Manda quem pode (Dad Squarisi), obedece quem tem juizo (este seu criado). Assim seja, ent\u00e3o. E escrevo esse artigo a partir dos ensinamentos de Rouxinol, velho cantador de Gravat\u00e1 (Pe): &#8220;Cada qual para o que nasce\/ Cada qual com sua classe\/ Seus estilos de agradar\/ E quem tem o mel, d\u00e1 o mel\/ Quem &nbsp;tem o fel, d\u00e1 o fel\/ Quem nada tem, nada d\u00e1&#8221;. Apesar de mel pouco, Dad mandou (ou pediu, no seu caso tanto faz) e seguem alguns conselhos&nbsp; aos mais jovens, no exerc\u00edcio do duro (e doce) of\u00edcio de escrever:&nbsp;  &nbsp;  1. <b>A pior palavra<\/b>. Num texto, sem d\u00favida, ser\u00e1&nbsp; <i>eu<\/i><i><\/i><i>. <\/i>Al\u00e9m de <i>meu<\/i> ou <i>minha. R<\/i><i><\/i><i><\/i>uim porque afasta o leitor, dando ideia de prepot\u00eancia. Ao escrever sobre mortos, por exemplo, vemos sempre tr\u00eas tipos diferentes de textos. Um \u00e9 <i>O morto, <\/i>que seria o certo. Outro, <i>O morto e eu,<\/i> j\u00e1 meio ruim. Sem contar o pior, <i>Eu e o morto. <\/i>Como se o autor do texto fosse mais importante que o desafortunado defunto. Como toda regra tem exce\u00e7\u00e3o, fique de fora da reprimenda o \u00fanico livro do grande Augusto dos Anjos, que t\u00e3o cedo se foi, <i>Eu.<\/i> Escrito o t\u00edtulo, na p\u00e1gina em branco que cobria os originais, com o pr\u00f3prio sangue. Assim se explicando porque, nas livrarias, o t\u00edtulo vai sempre em vermelho, sobre uma capa clara.  &nbsp;  2. <b>Adjetivos<\/b>. S\u00e3o sempre ruins. Melhor escrever s\u00f3 usando substantivos. Quando se recorre aos adjetivos, \u00e9 que a ideia n\u00e3o foi suficientemente boa para convencer sozinha. Meu velho pai dizia sempre esta frase:&nbsp; <i><\/i>&#8220;A m\u00e3o aberta \u00e9 um tapa, a m\u00e3o fechada \u00e9 um murro, e \u00e9 a mesma m\u00e3o&#8221;<i>. <\/i>Os dedos s\u00e3o os adjetivos. Se voc\u00ea puder escrever sem eles, o poder de convencer vai ser com certeza maior. Como um murro.  &nbsp;  3. <b>Cad\u00eancia<\/b>. Cada escritor tem cad\u00eancia pr\u00f3pria. Escolha a sua. Porque as frases fluem a partir do estilo de quem escreve. Inclusive nas v\u00edrgulas. Saramago, por exemplo, reproduzindo (ou tentanto reproduzir) a oralidade que ouvia nos interiores da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, escreve 21 antes de cada ponto, no <i>Evangelho segundo Jesus Cristo; <\/i>e 19, em <i>Caim.<\/i>  Na m\u00e9dia, 20. J\u00e1 Fernando Pessoa usava s\u00f3 duas v\u00edrgulas. Como se as ideias escorressem por tr\u00eas ondas. Um, dois e&#8230; tr\u00eas. Um, dois e&#8230; tr\u00eas. No meu caso, quase nunca uso as v\u00edrgulas. Prefiro frases curtas. Secas. Diretas. O que me trouxe um problema ao escrever uma biografia de Pessoa &#8212; no fundo, esp\u00e9cie de di\u00e1logo entre frases dele e as minhas. Porque Pessoa escrevia em tr\u00eas ondas e eu em uma. O texto ficava sem cad\u00eancia. Ruim. O que me levou no livro a tamb\u00e9m escrever como ele, com duas v\u00edrgulas por frase. Acontece.  &nbsp;  4. <b>Sinais ortogr\u00e1ficos<\/b>. Nesse ponto, lembro o grande Ant\u00f3nio Gede\u00e3o: &#8220;In\u00fatil seguir sozinhos\/ Querer ser depois ou antes\/ Cada qual com seus caminhos\/ Onde Sancho v\u00ea moinhos\/ Dom Quixote v\u00ea gigantes.\/ V\u00ea moinhos?, s\u00e3o moinhos.\/ V\u00ea gigantes&nbsp;?, s\u00e3o gigantes&#8221;<i>. <\/i>Cada qual com seus caminhos, pois. H\u00e1 os que usam ditos sinais a partir da ortografia convencional. Enquanto outros, para indicar a cad\u00eancia das frases. Como que ensinando o leitor a ler como o autor escreveu. O pr\u00f3prio Gede\u00e3o diz: &#8220;V\u00ea gigantes?, s\u00e3o gigantes<i>&#8220;. <\/i>Com v\u00edrgula depois de um ponto de interroga\u00e7\u00e3o. Heresia!, dir\u00e3o. Que nada, respondo. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ele. Muita gente boa, tamb\u00e9m. Semana passada mesmo, Helio Schwartsman, colunista da <i>Folha de S\u00e3o Paulo<\/i>, escreveu: &#8220;Como?, pergunta-se o leitor s\u00e3o&#8221;<i>. <\/i>Com v\u00edrgula, novamente, depois de um ponto de interroga\u00e7\u00e3o. Errou? Penso que n\u00e3o. Porque, sen\u00e3o, ter\u00edamos s\u00f3 o <i>leitor s\u00e3o <\/i>que continuaria a perguntar &#8220;Como<i>?&#8221;<\/i>  &nbsp;  5. <b>O som das palavras<\/b>. Para acabar, recomendo ler sempre em voz alta o que se escreveu antes de publicar. Depois de pronto o texto, deixar algum tempo na gaveta e ent\u00e3o ler tudo. Como se fosse algo escrito por outro. Penso que isso me veio dos tempos em que estudava para ser maestro (com oito anos de piano cl\u00e1ssico). Aprendi a ler com o ouvido. Compreendi, nesse caminho, que as frases s\u00e3o como uma esp\u00e9cie de m\u00fasica. E letras, como notas musicais. Algumas &#8212; como o P, o T, o R &#8212; s\u00e3o duras. No reino das vogais, o I e o U tamb\u00e9m s\u00e3o. Enquanto o A e o O se revelam doces. Raz\u00e3o pela qual se deve ter cuidado, nas frases, para n\u00e3o usar muitas letras duras. O som sai feio. Talvez por causa disso Cam\u00f5es, ao completar seu&nbsp; \u201cSoneto 48\u201d, tenha preferido escrever (certamente contrariado) \u201c<i>maminha\u201d.<\/i> Por ver, nessa constru\u00e7\u00e3o, um mal menor. Em vez de <i>MinhA Alma gentil que te partiste, <\/i>uma frase mon\u00f3tona e com dois <i>aa<\/i> colados, ficou <i>&#8220;<\/i>Alma minha<i> <\/i>gentil que te partiste&#8221;<i>. <\/i>Com a vantagem adicional, na cad\u00eancia, de certo balan\u00e7o no verso. Melhor <i>maminha<\/i>, ent\u00e3o, que dois <i>aa<\/i> pegados. Esse o conselho.   &nbsp;  Dando os tr\u00e2mites por findos me despe\u00e7o, caro leitor, lembrando bem conhecida frase de Guimar\u00e3es Rosa em uma par\u00e1frase: Escrever, amigos meus, \u00e9 muito perigoso.   &nbsp;     <\/p>\n<p>Autor de <i>Fernando Pessoa, <\/i>  <i>uma quase autobiografia<\/i>  <a href=\"mailto:jp@jpc.com.br\">(jp@jpc.com.br)<\/a>  &nbsp;     <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp;Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho* Manda quem pode (Dad Squarisi), obedece quem tem juizo (este seu criado). Assim seja, ent\u00e3o. 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