{"id":182,"date":"2017-06-22T09:00:43","date_gmt":"2017-06-22T12:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/?p=182"},"modified":"2017-06-22T02:26:52","modified_gmt":"2017-06-22T05:26:52","slug":"trans-ivana-forca-do-querer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/trans-ivana-forca-do-querer\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Nery, o trans que inspirou Ivana, de &#8216;A for\u00e7a do querer&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Desde os 4 anos, Jo\u00e3o W. Nery se sabia menino, embora todos ao redor, baseados na sua anatomia, o vissem como menina. O pequeno Jo\u00e3o, no entanto, ignorava as opini\u00f5es alheias e passou a maior parte da inf\u00e2ncia se comportando como o menino que era. Gostava de usar short sem camisa e brincar com os outros garotos na pracinha em frente \u00e0 sua casa, no Rio de Janeiro dos anos 1950. Tamb\u00e9m apelava \u00e0 fantasia e passava tardes inteiras interpretando Zeca, um vi\u00favo que cuidava das filhas, ou seja, as bonecas das tr\u00eas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>Com o tempo, apareceram as censuras por ele, tendo corpo de menina, se identificar com o g\u00eanero masculino. Primeiro foram os meninos da pracinha, depois os colegas de escola, as pessoas na rua. As reprova\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o convenceram Jo\u00e3o de que ele n\u00e3o era homem, apenas o fizeram se isolar, em uma &#8220;viagem solit\u00e1ria&#8221;, express\u00e3o que d\u00e1 nome a um de seus livros, no qual conta a trajet\u00f3ria que o levou a se tornar o primeiro trans-homem (termo que considera mais adequado que homem transexual) a ser operado no Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/especiais.correiobraziliense.com.br\/transexual-travesti-drag-queen-qual-e-a-diferenca\" target=\"_blank\">Veja aqui um gloss\u00e1rio de termos LGBT<\/a><\/p>\n<p>Foi gra\u00e7as a uma cirurgia clandestina (porque ilegal \u00e0 \u00e9poca), realizada em S\u00e3o Paulo em 1977, em plena ditadura militar, que Jo\u00e3o p\u00f4de, aos 27 anos, adequar sua apar\u00eancia \u00e0 sua identidade. Naquele momento, ao livrar-se dos seios e come\u00e7ar um tratamento hormonal, seu corpo finalmente deixou de ser um obst\u00e1culo e passou a ser fonte de prazer.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi em outro ato de desobedi\u00eancia civil que Jo\u00e3o adquiriu documentos com seu nome social. Na cara e na coragem, foi a um cart\u00f3rio e disse precisar de novos documentos. Informou ser Jo\u00e3o e assumiu assim sua nova e verdadeira identidade. Por\u00e9m, pagou um pre\u00e7o: todos seus outros documentos, incluindo a gradua\u00e7\u00e3o e o mestrado em psicologia, tornaram-se inv\u00e1lidos. Deixou de dar aulas e precisou se virar em outras profiss\u00f5es, como pedreiro e motorista de t\u00e1xi.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-185\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2017\/06\/imagem_release_970543-1.jpg\" alt=\"imagem_release_970543 (1)\" width=\"350\" height=\"494\" \/>Seu livro <em>Viagem solit\u00e1ria \u2013 Mem\u00f3rias de um transexual 30 anos depois<\/em> (editora Leya), lan\u00e7ado em 2011, ajudou o Brasil a abrir os olhos para a realidade das pessoas trans e, mais especificamente, dos homens trans. E transformou Jo\u00e3o, hoje com 67 anos, em uma refer\u00eancia na luta pelos direitos humanos no pa\u00eds. A ponto de seu nome batizar <a href=\"http:\/\/www.camara.gov.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=565315\" target=\"_blank\">o projeto de lei que institui o direito \u00e0 identidade de g\u00eanero e facilita a obten\u00e7\u00e3o de novos documentos por transpessoas, de autoria dos deputados Jean Wyllys e \u00c9rika Kokay<\/a>.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo e ativista conta que, com a repercuss\u00e3o de sua obra, acabou procurado, dois anos atr\u00e1s, pela autora Gl\u00f3ria Perez, que pensava em criar uma personagem trans para sua pr\u00f3xima novela. A partir do contato com Jo\u00e3o, Gl\u00f3ria decidiu que a personagem n\u00e3o seria uma transmulher, como havia concebido inicialmente, mas um trans-homem, como Jo\u00e3o. O resultado da parceria foi Ivana, interpretada pela atriz Carol Duarte, em <em>A for\u00e7a do querer<\/em>.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria com Gl\u00f3ria Perez e toda a contribui\u00e7\u00e3o que Jo\u00e3o Nery deu nos \u00faltimos anos \u00e0 luta pelos direitos de trans s\u00e3o narrados agora em seu terceiro livro: <em>Vidas trans, a coragem de existir<\/em> (Astral Cultural), que traz relatos do psic\u00f3logo e de outros tr\u00eas trans: Amara Moira, M\u00e1rcia Rocha e T. Brant. Foi por conta do lan\u00e7amento da nova obra, com pref\u00e1cio da cartunista Laerte, que Jo\u00e3o conversou com o <strong>Blog Daquilo<\/strong>. Leia a entrevista a seguir.<\/p>\n<p><strong>O que o novo livro traz de diferente em rela\u00e7\u00e3o aos anteriores?<\/strong><\/p>\n<p>Eu escrevi duas autobiografias. A primeira, <em>Erro de pessoa \u2013 Joana ou Jo\u00e3o<\/em>, \u00e9 de 1984. Na segunda, eu j\u00e1 tinha 61 anos, e contei toda a minha hist\u00f3ria at\u00e9 a paternidade (Jo\u00e3o se tornou pai depois que sua mulher engravidou de um homem cisg\u00eanero e ele assumiu a crian\u00e7a), que eu chamei de <em>Viagem solit\u00e1ria<\/em>. Agora, depois da viagem solit\u00e1ria, vem a viagem solid\u00e1ria. Eu me tornei refer\u00eancia da luta pelos direitos trans no Brasil, ajudei a criar 36 grupos secretos para trans no pa\u00eds, dando a essas pessoas um atendimento adequado. E h\u00e1 dois anos a Gl\u00f3ria Perez me procurou dizendo que precisava de ajuda para criar uma personagem transexual para a novela. Foi conversando comigo e lendo meu livro que ela desistiu de criar uma mulher trans e fazer um homem, e o resultado \u00e9 o que estamos vendo com a Ivana. O novo livro fala desse per\u00edodo.<\/p>\n<p><strong>O senhor est\u00e1 assistindo \u00e0 novela? Gosta do resultado?<\/strong><\/p>\n<p>Gosto. Porque para abordar um tema t\u00e3o inovador para a televis\u00e3o brasileira, \u00e9 preciso ir apresentando o personagem aos poucos. N\u00e3o dava para j\u00e1 chegar e mostrar um trans-homem. Assim, o p\u00fablico vai conhecendo a pessoa aos poucos, conhecendo sua hist\u00f3ria. E outro ponto \u00e9 mostrar a psic\u00f3loga, mostrar como no Brasil os profissionais s\u00e3o despreparados para lidar com transexuais. De maneira geral, n\u00e3o h\u00e1 a cadeira de g\u00eanero e sexualidade nas universidades brasileiras, as pessoas n\u00e3o sabem o que \u00e9 identidade de g\u00eanero, n\u00e3o diferenciam de identidade sexual. Voc\u00ea v\u00ea profissionais falando o travesti, sendo que nenhuma travesti tem identidade masculina.<\/p>\n<p><strong>O senhor presta consultoria para Gl\u00f3ria Perez?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, uma consultoria informal, gratuita, porque \u00e9 de meu interesse que esse tema seja bem compreendido pelas pessoas. Converso com ela, envio textos, v\u00eddeos. \u00c9 importante que a Ivana conquiste as pessoas. Essa novela pode ajudar a combater preconceitos, dar uma visibilidade que nunca houve \u00e0 transexualidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_184\" aria-describedby=\"caption-attachment-184\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-184\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2017\/06\/Ivana222.jpg\" alt=\"A personagem Ivana, interpretada por Carol Duarte (Cr\u00e9dito: Rede Globo\/Divulga\u00e7\u00e3o)\" width=\"800\" height=\"460\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-184\" class=\"wp-caption-text\">A personagem Ivana, interpretada por Carol Duarte (Cr\u00e9dito: Rede Globo\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O senhor mencionou o despreparo dos profissionais no Brasil. O acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade ainda \u00e9 muito prec\u00e1rio, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Muito. No pa\u00eds todo s\u00f3 h\u00e1 cinco ambulat\u00f3rios que realizam o processo transexualizador pelo SUS. Um no Rio, um em S\u00e3o Paulo, um em Recife, um em Goi\u00e2nia e um em Porto Alegre. Para o pa\u00eds inteiro. E a fila \u00e9 imensa. Na Regi\u00e3o Norte, n\u00e3o h\u00e1 nenhum. Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma s\u00e9rie de particularidades que s\u00e3o ignoradas e que s\u00e3o um verdadeiro desrespeito. Por exemplo, um trans-homem precisa de atendimento ginecol\u00f3gico. Se ele j\u00e1 tem documentos com seu nome social, o sistema do SUS acusa aquela consulta como uma fraude, porque um homem n\u00e3o pode se consultar com um ginecologista. O mesmo acontece nas consultas com obstetras. Outro problema \u00e9 a patologiza\u00e7\u00e3o. A transexualidade ainda \u00e9 tratada como patologia e, por conta disso, para ter o direito de fazer algo no nosso pr\u00f3prio corpo, n\u00f3s precisamos ser avaliados por uma equipe m\u00e9dica multidisciplinar, que muitas vezes \u00e9 machista, homof\u00f3bica, transf\u00f3bica. A despatologiza\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria e devemos alcan\u00e7\u00e1-la um dia, assim como os homossexuais conseguiram.<\/p>\n<p><strong>Sobre essa quest\u00e3o, h\u00e1 pessoas, especialmente te\u00f3ricos americanos, que consideram a despatologiza\u00e7\u00e3o perigosa, porque poderia tirar direitos dos trans aos tratamentos. O que o senhor acha desse argumento?<\/strong><\/p>\n<p>A realidade m\u00e9dica americana \u00e9 bem diferente da brasileira. L\u00e1 h\u00e1 uma quest\u00e3o de a pessoa precisar estar doente para ter direito a um atendimento. No SUS n\u00e3o \u00e9 assim, tanto que a mulher gr\u00e1vida n\u00e3o est\u00e1 doente e mesmo assim \u00e9 atendida pelo SUS. A patologiza\u00e7\u00e3o nos tira autonomia, nos tira nossa cidadania. Mas s\u00f3 um pa\u00eds at\u00e9 hoje despatologizou completamente: a Argentina, com a Lei da Identidade de G\u00eanero. L\u00e1, hoje, trans conseguem um novo registro civil sem nenhum problema. No Brasil, h\u00e1 um projeto de lei semelhante, de Jean Wyllys e \u00c9rika Kokai, que leva o meu nome, o que me deixou muito honrado.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel contar com a aprova\u00e7\u00e3o desse projeto?<\/strong><\/p>\n<p>Com esse Congresso conservador que temos agora, n\u00e3o devemos ver a aprova\u00e7\u00e3o de uma lei assim. Estamos no tempo de esperar e resistir. Mas pol\u00edticas p\u00fablicas que combatam a homofobia, a transfobia s\u00e3o necess\u00e1rias. <a href=\"http:\/\/especiais.correiobraziliense.com.br\/luta-por-identidade\" target=\"_blank\">O Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata transexuais no mundo, tr\u00eas vezes mais que o segundo colocado, que \u00e9 o M\u00e9xico<\/a>. Temos uma lei contra o racismo, temos a Lei Maria da Penha. Precisamos tamb\u00e9m de uma lei que proteja a popula\u00e7\u00e3o LGBT. Da\u00ed a import\u00e2ncia das Paradas do orgulho LGBT, que come\u00e7aram nos anos 1990 com meia d\u00fazia de gatos pingados, mascarados, porque n\u00e3o podiam se mostrar. Hoje cresceram e s\u00e3o importantes n\u00e3o s\u00f3 como espa\u00e7o pol\u00edtico, mas como um espa\u00e7o de liberdade, de as pessoas poderem exercer seu desejo, se vestirem como gostam livremente.<\/p>\n<p><strong>Hoje, o senhor ainda se sente amea\u00e7ado, tem medo de ser agredido na rua?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, toda pessoa trans corre esse risco. Eu, por\u00e9m, depois de 40 anos tomando horm\u00f4nios, tenho um alto grau de passabilidade, que \u00e9 como chamamos a capacidade de se passar por uma pessoa cisg\u00eanera. Isso me protege bastante. Eu tamb\u00e9m quase n\u00e3o saio de casa. S\u00f3 saio para dar palestras, praticamente, viajo o Brasil inteiro.<\/p>\n<p><strong>Quanto \u00e0 invisibilidade, os homens trans s\u00e3o menos vis\u00edveis? H\u00e1 gente que nem mesmo sabe que existem, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. H\u00e1 algumas raz\u00f5es. Primeiro, o movimento das transmulheres e travestis est\u00e1 a\u00ed h\u00e1 mais tempo. No Brasil, a quest\u00e3o dos trans-homens praticamente s\u00f3 passou a existir com o lan\u00e7amento do meu livro em 2011. As trans tamb\u00e9m t\u00eam concursos, se mostram mais. Os homens n\u00e3o t\u00eam tanto isso. Mas acho que agora, com a novela, isso deve mudar bastante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde os 4 anos, Jo\u00e3o W. Nery se sabia menino, embora todos ao redor, baseados na sua anatomia, o vissem como menina. O pequeno Jo\u00e3o, no entanto, ignorava as opini\u00f5es alheias e passou a maior parte da inf\u00e2ncia se comportando como o menino que era. 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