{"id":2443,"date":"2025-11-18T16:50:00","date_gmt":"2025-11-18T19:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/?p=2443"},"modified":"2025-11-19T10:15:20","modified_gmt":"2025-11-19T13:15:20","slug":"cronica-o-dia-em-que-dei-um-vibrador-para-minha-irma-mais-nova","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/cronica-o-dia-em-que-dei-um-vibrador-para-minha-irma-mais-nova\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica &#8211; O dia em que dei um vibrador para minha irm\u00e3 mais nova"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde cedo, a socializa\u00e7\u00e3o sexual performa um duplo julgamento baseado em g\u00eanero. Os que nasceram meninos s\u00e3o estimulados a descobrir-se \u2014 seja pelos pais ou pelos amigos \u2014, s\u00e3o expostos a conte\u00fados que moldam seu julgamento de forma at\u00e9 problem\u00e1tica e deparam-se involuntariamente com o corpo provocando mudan\u00e7as \u2014 tudo isso quase que mecanicamente e esperado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 as meninas s\u00e3o majoritariamente aconselhadas a nunca se tocar, a sentir nojo dos pelos que aparecem com a puberdade e parabenizadas pela oportunidade de reproduzir com a chegada da primeira menstrua\u00e7\u00e3o. Mas a sexualidade \u00e9 vista como vergonhosa. Eu fui uma exce\u00e7\u00e3o: contei com uma m\u00e3e compreensiva e explorei minha sexualidade precocemente, mas com seguran\u00e7a (<em>na maioria das vezes<\/em>).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Minha irm\u00e3 mais nova, no entanto, nunca pareceu sentir muita atra\u00e7\u00e3o por ningu\u00e9m, nem desejo por explorar a pr\u00f3pria sexualidade. Na verdade, acredito que ela tinha at\u00e9 uma certa repulsa ao acompanhar relacionamentos disfuncionais em que, ora eu, ora nossa m\u00e3e, nos encontr\u00e1vamos. E ela at\u00e9 que estava certa em sua avers\u00e3o, confesso, pois as rela\u00e7\u00f5es juvenis que tive serviram apenas como aprendizado. Agora sei que, parafraseando <em>Ninfoman\u00edaca<\/em> (Lars von Trier), \u201co ingrediente secreto do sexo \u00e9 o amor.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Prestes a fazer 18 anos, agora minha irm\u00e3zinha \u00e9 quase uma mulher. Claro que com o passar do tempo fomos nos aproximando mais, tendo interesses em comum e criando uma rela\u00e7\u00e3o de amizade. Digo para ela que, al\u00e9m de am\u00e1-la, eu gosto dela \u2014 o que n\u00e3o \u00e9 comum entre muitos outros membros da nossa fam\u00edlia. A sexualidade tamb\u00e9m foi um assunto abordado em nossas conversas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eu, sem pudores e preocupada com a pessoa que me permitiu sentir um amor quase pr\u00f3ximo ao de uma m\u00e3e, busco manter todas as portas abertas para minha irm\u00e3. Sexo tamb\u00e9m deve ser discutido: o que ela tem vontade, o que \u00e9 seguro, o que \u00e9 consentimento \u2014 tudo ela pode me perguntar. E digo que nos apropriarmos disso tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um dia, falando sobre prazer com uma amiga que tamb\u00e9m considero fam\u00edlia, minha irm\u00e3 confessou nunca ter experienciado o \u00e1pice. Lembrei de mim, uma adolescente que se descobriu atrav\u00e9s dos olhos de pessoas que n\u00e3o foram t\u00e3o gentis, e de como gostaria de ter tido a oportunidade de me encontrar comigo mesma antes faz\u00ea-lo de com os outros. A sexualidade, estigmatizada, reside principalmente no c\u00e9rebro, e por muito tempo eu acreditava que o poder de me fazer gozar era detido apenas por m\u00e3os alheias. A insist\u00eancia do prazer solo resultou apenas em coisas boas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Minha irm\u00e3, virgem, nunca tinha tido nem o \u00edmpeto de se tocar, mas demonstrava interesse pelo assunto quando convers\u00e1vamos. Perguntei se ela n\u00e3o estaria interessada em ganhar um vibrador de presente. Para minha surpresa, ela aceitou. Milena recentemente tinha assistido <em>Sex and the City<\/em> e me falou de um epis\u00f3dio em que Charlotte, personagem recatada e conservadora, descobriu as maravilhas fisiol\u00f3gicas gra\u00e7as a um brinquedo em formato de coelhinho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa foi a exig\u00eancia de minha irm\u00e3: que fosse um vibrador fofo, preferencialmente igual ao da personagem. N\u00e3o esperava que ela fosse demonstrar tanto interesse na compra, mas na tarde seguinte em que fomos almo\u00e7ar, perguntou se pod\u00edamos visitar uma sex shop antes de voltarmos para casa. Por acaso, ali mesmo na quadra do restaurante havia uma loja, no subsolo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Milena queria entrar e ver os produtos, mas ainda era menor de idade, mesmo que apenas por alguns meses. Pela insist\u00eancia da menina, disse-lhe que entrasse do meu lado e ficasse calada. A fei\u00e7\u00e3o delicada, no entanto, n\u00e3o enganou as vendedoras, que pediram \u00e0 minha irm\u00e3 que esperasse do lado de fora, mesmo adorando a hist\u00f3ria do vibrador de presente. \u201cDaqui a uns meses voc\u00ea volta e nos conta o que achou!\u201d, divertiram-se com a oportunidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entre dildos excessivamente grandes e fantasias er\u00f3ticas, encontrei o t\u00e3o almejado vibrador de coelhinho. Mandei foto do cilindro rosa com orelhinhas para ela, que rapidamente o escolheu, mesmo eu tendo mandado outras op\u00e7\u00f5es com diversas funcionalidades. Distrai-me entre tantos objetos curiosos e acabei levando para mim uma calcinha que Milena carinhosamente apelidou de descalcinha, devido a aus\u00eancia de panos e a abund\u00e2ncia de tiras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No caixa, as atendentes embrulharam o vibrador para presente. O papel celofane roxo escondia mais do que um brinquedo a pilhas: guardava tamb\u00e9m a liberdade de algu\u00e9m que iniciaria sua jornada de autoconhecimento. Saindo da loja, encontrei Milena j\u00e1 na porta, curiosa para analisar sua mais nova aquisi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ela sentou ali mesmo no banco da comercial, olhou para os lados para verificar se algu\u00e9m a assistia e desembrulhou o objeto dentro da sacola de papel que protegia o formato suspeito, envergonhada por se constranger caso qualquer pessoa passasse. A vis\u00e3o de dentro do pacote foi o suficiente para ela olhar para mim e sorrir. \u201cA mam\u00e3e vai te odiar\u201d, Milena disse entre risos. N\u00e3o sei se nossa m\u00e3e tinha ci\u00eancia do presente, mas, se estiver lendo isso, pe\u00e7o que trate a masturba\u00e7\u00e3o como algo natural e n\u00e3o tire o brinquedo da ca\u00e7ula.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora eu pergunte uma vez por semana se ela j\u00e1 usou o coelhinho, Milena desconversa. Por mais que eu adorasse o feedback, respeito sua privacidade e seu tempo de escolha, caso ainda n\u00e3o tenha tido a coragem de se aventurar. Penso que o presente n\u00e3o foi s\u00f3 para minha irm\u00e3, mas tamb\u00e9m para a adolescente que ainda mora na minha cabe\u00e7a e tinha tanta \u00e2nsia de conhecer o mundo e a si mesma. Ela estaria orgulhosa de quem nos tornamos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo que o assunto possa ser tratado como um tabu ou algo vergonhoso socialmente \u2014 especialmente entre as mulheres (ou homens falando de mulheres) \u2014, tocar-se \u00e9 saud\u00e1vel em diversas nuances psicol\u00f3gicas e f\u00edsicas. O prazer pr\u00f3prio n\u00e3o deveria ser um luxo, julgado como certo ou errado conforme o g\u00eanero. Aprender a se escutar \u00e9 como acender uma pequena l\u00e2mpada em um quarto onde sempre nos disseram para manter a luz apagada \u2014 e talvez descobrir um caminho maravilhoso naquilo que era dito como proibido.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde cedo, a socializa\u00e7\u00e3o sexual performa um duplo julgamento baseado em g\u00eanero. 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