{"id":2583,"date":"2026-01-29T10:48:00","date_gmt":"2026-01-29T13:48:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/?p=2583"},"modified":"2026-01-29T11:28:12","modified_gmt":"2026-01-29T14:28:12","slug":"sexo-transcentrado-prazer-desejo-e-afeto-como-ato-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/sexo-transcentrado-prazer-desejo-e-afeto-como-ato-politico\/","title":{"rendered":"Sexo transcentrado: prazer, desejo e afeto como ato pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2584\" aria-describedby=\"caption-attachment-2584\" style=\"width: 546px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2584\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460-300x214.jpg\" alt=\"\" width=\"546\" height=\"389\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460-300x214.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460-768x548.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460-1024x731.jpg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460-1440x1027.jpg 1440w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460-800x571.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460-550x392.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460-230x164.jpg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/wp-content\/uploads\/sites\/28\/2026\/01\/6053460.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 546px) 100vw, 546px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2584\" class=\"wp-caption-text\">Freepik<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desmistificar a transexualidade como um corpo que apenas sofre tamb\u00e9m \u00e9 uma pauta a ser destacada no Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira (29\/1). Na luta por igualdade, inser\u00e7\u00e3o social e respeito, o prazer muitas vezes acaba ficando em segundo plano. Nas rela\u00e7\u00f5es, as viv\u00eancias e recortes de g\u00eanero tamb\u00e9m se cruzam, e \u00e9 nesse cen\u00e1rio que o sexo transcentrado surge como um espa\u00e7o de liberdade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cTudo tem que ser leve, sem amarra social, porque isso dificulta o prazer em todas as \u00e1reas de rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ou com outras pessoas\u201d, conta Lia Vinic, de 24 anos, ao resumir o que ainda precisa mudar no imagin\u00e1rio social sobre sexo e corpos trans para que o prazer n\u00e3o seja tratado como exce\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao experienciar o sexo com outra pessoa trans, Lia encontrou um escape do pensamento e vivencia cisg\u00eanero, no qual, muitas vezes, se sentia cobrada a aparentar e perfomar sexualmente uma mulher cis. \u201c\u00c9 uma aceita\u00e7\u00e3o e liberdade de que eu n\u00e3o preciso seguir essa norma, esse roteiro de uma mulher cis. At\u00e9 porque eu n\u00e3o sou cis\u201d, descreve.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cPara mim, viver sendo uma pessoa trans \u00e9 algo de corpo, mente e alma. No in\u00edcio da transi\u00e7\u00e3o me cobrei com expectativas de padr\u00f5es sociais e de g\u00eanero de corpos cis femininos, o que j\u00e1 \u00e9 imposs\u00edvel para mulheres cis seguirem, quem dir\u00e1 para uma mulher trans&#8221;,\u00a0define Lia sobre as experi\u00eancias mediadas por expectativas cisnormativas. Atualmente, ela comemora ter se desprendido de padr\u00f5es cisnormativos, pois \u201cjamais deixariam eu ser uma mulher.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No \u00e2mbito sexual, Lia relembra como via as rela\u00e7\u00f5es de forma perform\u00e1tica diante das cobran\u00e7as, n\u00e3o as enxergando nem como sexo. Para ela, n\u00e3o existe uma regra a se seguir, mas sim apenas ser e sentir.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cPor mais que ser um corpo trans seja maravilhoso \u2014 porque finalmente sou quem eu quero ser, ainda que n\u00e3o totalmente \u2014, ele tamb\u00e9m machuca, porque deprecia. Infelizmente, somos n\u00f3s mesmas que acabamos nos barrando diante da cisnormatividade, que est\u00e1 sempre batendo \u00e0 porta e nos cobrando perfei\u00e7\u00e3o dentro de um padr\u00e3o de sexo cis. Isso gera disforia e acaba nos levando, \u00e0s vezes, a tomar atitudes extremas para sermos vistas e tratadas como mulheres\u201d, relata Lia.\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Prazer, autonomia e bem-estar s\u00e3o elementos que a jovem encontrou no afeto trans centrado. No entanto, ainda existem desafios. \u201cAcredito que a viol\u00eancia e o silenciamento s\u00e3o fatores que acabam causando a fetichiza\u00e7\u00e3o e a invalida\u00e7\u00e3o de pessoas trans aos olhos dos outros, por sermos corpos considerados \u201cdiferentes\u201d do habitual\u201d, aponta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de celebrar as rela\u00e7\u00f5es trasncentradas, Lia alerta para a objetifica\u00e7\u00e3o de corpos trans: \u201cCom isso, somos totalmente retiradas da condi\u00e7\u00e3o de humanas e passamos a ser tratadas como objetos de desejo proibidos e vergonhosos. Tanto que muitas pessoas n\u00e3o assumem relacionamentos com pessoas trans por vergonha,\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Lia, o mais importante ao se relacionar com uma pessoa trans \u00e9 am\u00e1-la em todas as fases da vida, e acolher a disforia quando ela chega. \u201cSentir orgulho da pessoa que est\u00e1 se relacionando e mostrar que ama essa pessoa independente de qualquer coisa\u201d, conclui.\u00a0<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"font-weight: 400\">Psiquiatria como acolhimento LGBT<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um processo de viol\u00eancia continuada \u00e9 como Diego Gardenal \u2014 psiquiatra e psicoterapeuta com enfoque LGBTQIA+ \u2014 define a condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia trans. \u201cEnt\u00e3o, \u00e9 muito comum, nos atendimentos em sa\u00fade mental, ouvirmos inseguran\u00e7as relacionadas ao momento do sexo\u201d, relata. \u201cMuitas vezes, se n\u00e3o quase todas, essas inseguran\u00e7as s\u00e3o consequ\u00eancia das viol\u00eancias que elas sofrem continuamente ao longo da vida. Assim, pessoas trans v\u00e3o experienciar uma viv\u00eancia sexual profundamente marcada pelas viol\u00eancias, pelos traumas e pelas inseguran\u00e7as que foram introjetadas nelas.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No consult\u00f3rio, o especialista busca separar o que \u00e9 externo e interno do paciente. \u201cNesse processo, vamos percebendo que, no final, quase tudo \u00e9 externo. S\u00e3o verdades criadas por outras pessoas, que as pessoas trans acabam tomando para si como verdades. Ao longo do processo, vamos descobrindo que isso n\u00e3o \u00e9 real\u201d, aponta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante disso, o sexo transcentrado surge como uma forma de blindagem\u00a0 \u2014 \u201cQue nem sempre funciona, porque existe transfobia e diversas formas de viol\u00eancia inclusive dentro da comunidade LGBTQIAPN+, e at\u00e9 mesmo dentro da pr\u00f3pria comunidade trans\u201d, contrap\u00f5e Gardenal. Ainda assim, o sexo entre pessoas trasn \u00e9 como uma prote\u00e7\u00e3o. \u201cVejo isso como um respiro, uma possibilidade de experienciar um lugar seguro.\u201d<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO prazer para pessoas trans n\u00e3o \u00e9 banido apenas no campo da sexualidade ou do ato sexual. As pessoas trans s\u00e3o continuamente proibidas de sentir prazer. \u00c9 muito comum, na cl\u00ednica, encontrarmos pessoas trans que nunca tiveram uma experi\u00eancia sexual em que alcan\u00e7aram o orgasmo, ou em que se sentiram completamente confort\u00e1veis, ou em que ocuparam um papel no qual foram vistas e reconhecidas como realmente s\u00e3o, sem fetichiza\u00e7\u00e3o, sem serem tratadas como objeto de experimenta\u00e7\u00e3o, como teste ou tentativa. Falas como \u201cvamos ver como \u00e9 transar com um homem trans, tenho curiosidade\u201d s\u00e3o extremamente violentas e transf\u00f3bicas.\u201d<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A priva\u00e7\u00e3o dentro da sexualidade resulta na inseguran\u00e7a, no medo, na falta de consci\u00eancia corporal e na disforia. O psiquiatra percebe que a falta de repert\u00f3rio de pessoas cis ao relacionarem-se com as trans implica um cercamento de liberdade. \u201cPor mais que um ambiente protegido gere seguran\u00e7a, eu penso que pessoas trans podem e deveriam transar com qualquer pessoa, em qualquer situa\u00e7\u00e3o que desejarem, desde que haja consentimento. Compreendo que existam in\u00fameras viol\u00eancias e entendo o medo, mas, dentro de um processo reflexivo, \u00e9 preciso ter cuidado para n\u00e3o gerar mais priva\u00e7\u00e3o do que autonomia\u201d, reflete.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vale ressaltar que o sexo n\u00e3o envolve apenas \u00f3rg\u00e3os genitais, e sim pessoas, corpos e hist\u00f3rias de vida. \u201cNesses casos, a condi\u00e7\u00e3o trans se dissolve, no sentido de que a pessoa compreende a outra a partir da identidade existente. Por exemplo, ao se relacionar com uma mulher trans, a pessoa a v\u00ea como uma mulher trans, e isso transcende a quest\u00e3o da genit\u00e1lia ou do corpo em transi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 amor, prazer e conex\u00e3o independentemente da condi\u00e7\u00e3o da transgeneridade\u201d, argumenta Gardenal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, o especialista prop\u00f5e a celebra\u00e7\u00e3o: \u201c Apesar de toda a viol\u00eancia existente, penso que \u00e9 fundamental nos conectarmos com as vit\u00f3rias, com as conex\u00f5es e com as partilhas que t\u00eam feito bem \u00e0s pessoas trans. Acima de tudo, celebrar a exist\u00eancia, retirar as pessoas trans de um discurso centrado apenas no sofrimento e na ang\u00fastia, e trazer \u00e0 tona a pot\u00eancia da vitalidade que lhes foi t\u00e3o roubada.\u201d<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"font-weight: 400\">Cuidado m\u00fatuo e reconhecimento afetuoso\u00a0<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dj e produtora nas festas brasilienses, Marceline enxerga a sexualidade transcentrada como um espa\u00e7o de reconhecimento pr\u00f3prio. \u201cAcho de extrema import\u00e2ncia ser afetuosa com quem passa pelo que eu passo, e o fato de passarmos por coisas relativamente parecidas que se diferencia de se relacionar com pessoas cis: o v\u00ednculo em comum\u201d, descreve.\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">No sexo com pessoas trans, a Dj analisa a quebra de estigmas de g\u00eanero colocado em seus corpos. \u201cPoder me relacionar sexualmente com outra pessoa trans pra mim \u00e9 algo revolucion\u00e1rio\u201d, destaca. \u201cO sexo transcentrado quebra estere\u00f3tipos que j\u00e1 existem a muito tempo. A maioria das pessoas ficam em choque ao ver duas pessoas trans se amando. N\u00e3o \u00e9 de hoje que n\u00f3s pessoas trans nos relacionamos entre n\u00f3s mesmas, sendo um relacionamento h\u00e9tero ou homoafetivo, acho de extrema import\u00e2ncia que n\u00f3s n\u00e3o tenhamos medo de sermos afetuosas.\u201d<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A versatilidade e a conex\u00e3o \u00e9 o que mais desperta desejo em Marceline ao sair do roteiro cisnormativo. \u201cPessoas tendem a gostar de coisas em comum, e eu acredito que quando se vive uma \u201cnarrativa\u201d parecida, inevitavelmente se desperta mais interesse\u201d, explica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, esse Dia Nacional da Visibilidade Trans reafirma que a exist\u00eancia de pessoas trans passa tamb\u00e9m por romper com narrativas que as aprisionam exclusivamente ao sofrimento. Falar de prazer, desejo, afeto e bem-estar \u00e9 um gesto pol\u00edtico, porque devolve humanidade a corpos historicamente violentados e silenciados. Tornar vis\u00edvel essa dimens\u00e3o \u00e9 insistir que vidas trans n\u00e3o apenas resistem: elas sentem, se conectam, amam e t\u00eam direito ao prazer.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desmistificar a transexualidade como um corpo que apenas sofre tamb\u00e9m \u00e9 uma pauta a ser destacada no Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira (29\/1). Na luta por igualdade, inser\u00e7\u00e3o social e respeito, o prazer muitas vezes acaba ficando em segundo plano. 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