{"id":308,"date":"2017-07-07T17:30:44","date_gmt":"2017-07-07T20:30:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/?p=308"},"modified":"2017-07-07T20:09:53","modified_gmt":"2017-07-07T23:09:53","slug":"feminista-ou-pro-feminismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/feminista-ou-pro-feminismo\/","title":{"rendered":"Homem feminista ou pr\u00f3-feminismo?"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 cada vez mais comum ouvir um homem\u00a0dizer que \u00e9 feminista. Eu j\u00e1 disse. Hoje, n\u00e3o mais. N\u00e3o que eu tenha me juntado ao odiento grupo de homens antifeminismo. N\u00e3o! S\u00f3 achei um termo com o qual me sinto mais confort\u00e1vel e, principalmente, mais honesto: pr\u00f3-feminismo.<\/p>\n<p>O feminismo me interessa h\u00e1 muito tempo, desde a adolesc\u00eancia, talvez porque tivesse dificuldade de me ajustar aos estere\u00f3tipos masculinos. Os homens, com sua necessidade de ser fod\u00f5es, maiorais, mais-mais \u2014 o que muitas vezes significava ser bem escroto com as mulheres e com os pr\u00f3prios amigos \u2014 me deprimiam e tamb\u00e9m me intimidavam, porque eu tinha medo do que eles fariam se percebessem que eu n\u00e3o me sentia muito como eles e at\u00e9 os achava bem rid\u00edculos. As mulheres pareciam pessoas muito mais bacanas, e era infinitamente mais agrad\u00e1vel, e seguro, ficar na companhia delas.<\/p>\n<p>Mas, mesmo sendo esse garoto, eu era um garoto, um homem. E mais: um garoto classe m\u00e9dia alta, branco, cheio de facilidades na vida que, depois aprendi, se chamam privil\u00e9gios. Eu n\u00e3o sofria ass\u00e9dio dos professores na escola, n\u00e3o era abordado na rua por caras que diziam coisas amea\u00e7adoras, n\u00e3o corria o risco de ficar mal-falado se sumisse por um tempo com uma menina no meio de uma festa, n\u00e3o achava que n\u00e3o valia nada s\u00f3 por ser gordo, n\u00e3o me intimidava em expressar minhas opini\u00f5es porque era incentivado\u00a0a cultivar e expressar minha intelig\u00eancia, n\u00e3o pensava duas vezes antes de fazer palha\u00e7adas, falar alto, gargalhar, dizer palavr\u00e3o&#8230; Enfim, gozava de uma liberdade e de muitos est\u00edmulos encorajadores dos quais as garotas n\u00e3o gozavam.<\/p>\n<p>Com o tempo, fui vencendo minhas ang\u00fastias, resolvendo meus desafios da juventude, achando meu espa\u00e7o no mundo, ganhando mais seguran\u00e7a e n\u00e3o me sentindo mais intimidado pelos mach\u00f5es bobocas. E a vida ficou mais simples, boa, tranquila, excitante.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Olhando l\u00e1 no fundo de mim, enxergo um cara que tem medo da libera\u00e7\u00e3o sexual das mulheres, porque ela revela \u00a0minhas inseguran\u00e7as e neuras.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>Como posso me dizer feminista?<\/h3>\n<p>E a\u00ed chegamos ao feminismo. Eu penso: se eu me disser feminista, <a href=\"http:\/\/especiais.correiobraziliense.com.br\/perseguidas\" target=\"_blank\">estou me equiparando \u00e0 Lola, \u00e0s D\u00e9boras, \u00e0 Viviany, \u00e0 Nana, \u00e0 Djamila&#8230;<\/a> Elas s\u00e3o feministas e eu tamb\u00e9m? E a\u00ed eu come\u00e7o a me sentir um embuste, uma baita de uma fraude. Porque, olhando l\u00e1 no fundo de mim, enxergo um cara que tem medo da libera\u00e7\u00e3o sexual das mulheres, porque ela revela minhas inseguran\u00e7as e neuras. Enxergo um cara que tem dificuldade de perder uma discuss\u00e3o para uma mulher e que reluta muito mais em admitir que est\u00e1 errado quando na minha frente est\u00e1 uma interlocutora. Enxergo um cara que gosta de falar pacas em sala de aula e s\u00f3 depois de um esfor\u00e7o racional se d\u00e1 conta de que as colegas n\u00e3o est\u00e3o se expressando. Enxergo um cara que demorou muito para ter \u00eddolas, mulheres que eu admirasse pelo talento e pelas realiza\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o s\u00f3 pela beleza. Um cara que&#8230; \u00e9 machista, oras.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como posso me dizer feminista se sou machista? Como posso me dizer feminista se v\u00e1rias vezes opto pela facilidade de usufruir do meu privil\u00e9gio masculino e seguir a vida comodamente? Como posso me equiparar \u00e0s feministas quando sei que este texto, no qual admito ainda ser machista, vai fazer muita gente, inclusive mulheres, me admirar mais que a Lola, a D\u00e9bora, a Nana, a Djamila&#8230;? S\u00f3 porque fui sincero, sou um homem sens\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, \u00e9 mais honesto me dizer pr\u00f3-feminismo. Apoio o feminismo porque ele \u00e9 uma causa justa que, de quebra, me educa, me revela a mim mesmo, me mostra como eu e os homens costumamos agir e contribuir para a manuten\u00e7\u00e3o do machismo. Sou pr\u00f3-feminismo porque acho que esse machismo que reside em mim tem que sumir antes de eu morrer, mesmo que envolva lidar com meus medos. Sou pr\u00f3-feminismo e n\u00e3o me ofendo quando uma mulher me diz que n\u00e3o posso ser feminista. O feminismo \u00e9 das mulheres. No feminismo, aos homens, cabe um papel que, ao longo da vida, eles v\u00e3o infelizmente aprendendo a rejeitar: o de aprendizes das mulheres. N\u00e3o rejeitemos esse papel, amigos. Nos reconhe\u00e7amos alunos delas. Sejamos pr\u00f3-feminismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 cada vez mais comum ouvir um homem\u00a0dizer que \u00e9 feminista. 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