{"id":472,"date":"2017-08-09T19:18:03","date_gmt":"2017-08-09T22:18:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/?p=472"},"modified":"2017-08-09T23:35:22","modified_gmt":"2017-08-10T02:35:22","slug":"homens-sofrem-abuso-sexual-de-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/homens-sofrem-abuso-sexual-de-mulheres\/","title":{"rendered":"Estudo investiga casos de homens que sofreram abuso sexual de mulheres"},"content":{"rendered":"<p><em>* Colabora\u00e7\u00e3o de Ana Carolina Fonseca<\/em><\/p>\n<p>Na imensa maioria dos casos em que uma pessoa \u00e9 for\u00e7ada a fazer sexo com outra, o criminoso \u00e9 um homem, e a v\u00edtima, uma mulher. Isso n\u00e3o significa, contudo, que o oposto n\u00e3o possa ocorrer. Mesmo mais raros, epis\u00f3dios em que homens s\u00e3o coagidos a penetrar uma mulher acontecem e podem deixar grandes traumas emocionais nas v\u00edtimas. Um estudo conduzido pela Universidade de Lancaster, no Reino Unido, \u00e9 um dos primeiros a investigar o\u00a0abuso sexual cometido por mulheres contra homens.<\/p>\n<p>A pesquisa, publicada em julho de 2017, entrevistou, por meio de um formul\u00e1rio na internet, 200 homens, dos quais 154 deram informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis e \u00fateis ao objetivo da an\u00e1lise. Esses participantes contaram j\u00e1 ter sido, ao menos uma vez, coagidos por uma mulher a fazer sexo. A idade m\u00e9dia da v\u00edtima quando sofreu a viol\u00eancia foi de 27 anos, mas os relatos s\u00e3o de incidentes ocorridos quando os volunt\u00e1rios tinham entre 2 e 61 anos. Como ocorre na viol\u00eancia sexual contra as mulheres, a maioria dos participantes disse que conhecia a abusadora, sendo que pouco mais da metade disse que estava em um relacionamento com ela.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/wp.lancs.ac.uk\/forced-to-penetrate-cases\/files\/2016\/11\/Project-Report-Final.pdf\" target=\"_blank\">O estudo foi disponibilizado pela universidade em PDF e pode ser acessado aqui, em inlg\u00eas<\/a>.<\/p>\n<p>As formas mais comuns de coagir os homens ao sexo, citadas por 22,2% dos respondentes, foram contar uma mentira, amea\u00e7ar com o t\u00e9rmino do relacionamento, dizer que espalharia rumores maldosos e pressionar por meio de ofensas e abuso verbal. Os epis\u00f3dios em que a abusadora aproveitou que a v\u00edtima estava sob o efeito de \u00e1lcool ou drogas somam 30,1% das cita\u00e7\u00f5es. J\u00e1 o uso de for\u00e7a f\u00edsica ou de armas foi citado por 14,4% dos homens.<\/p>\n<p>A autora da pesquisa, a professora de direito Siobhan Weare, explica que o universo de 154 pessoas pode parecer pequeno, mas, considerado o assunto, que costuma ser sub-reportado e muito pouco debatido, trata-se de uma mostra significativa.<\/p>\n<p>&#8220;Este \u00e9 o primeiro e \u00fanico estudo do tipo conduzido at\u00e9 hoje no Reino Unido&#8221;, lembrou a autora em um comunicado emitido pela Universidade de Lancaster. &#8220;A natureza desse tipo de crime, que costuma ficar escondido, e as complexas din\u00e2micas entre os g\u00eaneros tornam a possibilidade de um grande n\u00famero de participantes muito pouco prov\u00e1vel. Mas n\u00e3o porque isso n\u00e3o acontece com os homens, mas porque muitos se sentem envergonhados ou abalados demais para denunciar&#8221;, completou.<\/p>\n<h2>Abalo emocional<\/h2>\n<p>Os resultados mostram que 80% dos homens nunca mencionaram o epis\u00f3dio com familiares ou amigos e 74,5% n\u00e3o procuraram nenhum tipo de apoio, seja legal ou psicol\u00f3gico. Segundo Weare, esse dado \u00e9 muito preocupante porque 20,9% dos participantes disseram ter sofrido impactos emocionais negativos muito graves devido \u00e0 experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Fundador da Survivor Manchester, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que apoia homens v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual e ajudou a divulgar o question\u00e1rio on-line disponibilizado pelos pesquisadores, elogiou o estudo. &#8220;\u00c9 um estudo revolucion\u00e1rio feito pela doutora Weare. Eu fiquei muito contente de apoiar a pesquisa, porque ela traz luz \u00e0 um dos \u00faltimos tabus na sociedade: homens v\u00edtimas de mulheres. Temos de romper o sil\u00eancio e deixar os homens saberem que estamos aqui para ouvi-los e apoi\u00e1-los&#8221;, afirmou \u00e0 assessoria de imprensa da Universidade de Lancaster.<\/p>\n<h2>Abuso sexual: o que diz a lei<\/h2>\n<p>Apesar de a grande maioria dos homens ter se referido ao que sofreu como um estupro, a lei brit\u00e2nica n\u00e3o denomina dessa forma esse tipo de crime. Por isso, no pa\u00eds europeu, \u00e9 usado o termo &#8220;for\u00e7ado a penetrar&#8221;. &#8220;(Segundo a lei do Reino Unido), o crime de estupro s\u00f3 pode ser cometido por homens e requer a penetra\u00e7\u00e3o da v\u00edtima com o p\u00eanis. Nos casos de &#8216;for\u00e7ado a penetrar&#8217;, \u00e9 o agressor que est\u00e1 sendo penetrado por uma v\u00edtima que n\u00e3o consentiu aquele ato&#8221;, explica Weare.<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a lei brasileira, vigente desde 1940, tamb\u00e9m considerava a mulher como \u00fanica poss\u00edvel v\u00edtima de estupro. A mudan\u00e7a veio com a Lei 12.015\/2009: agora, l\u00ea-se no Artigo 231 que \u00e9 crime &#8220;constranger <strong>algu\u00e9m<\/strong>, mediante viol\u00eancia ou amea\u00e7a grave, a ter conjun\u00e7\u00e3o carnal ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso&#8221;. &#8220;Isso nos permite discutir o estupro de grupos historicamente vulner\u00e1veis, como travestis, transg\u00eaneros e transexuais, bem como estupros de homens, que nada tem a ver com orienta\u00e7\u00e3o sexual&#8221;, explica a advogada especialista em direito penal Rebeca de Holanda.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a advogada considera que a mudan\u00e7a no C\u00f3digo Penal brasileiro contribui para dar foco ao principal ponto do problema: a falta de consentimento. &#8220;N\u00e3o importa o g\u00eanero da v\u00edtima ou do criminoso. Se n\u00e3o h\u00e1 consentimento para o ato sexual \u2013 que n\u00e3o precisa ser conjun\u00e7\u00e3o carnal, diga-se \u2013, h\u00e1 crime e deve haver responsabiliza\u00e7\u00e3o penal&#8221;, argumenta Holanda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Colabora\u00e7\u00e3o de Ana Carolina Fonseca Na imensa maioria dos casos em que uma pessoa \u00e9 for\u00e7ada a fazer sexo com outra, o criminoso \u00e9 um homem, e a v\u00edtima, uma mulher. Isso n\u00e3o significa, contudo, que o oposto n\u00e3o possa ocorrer. 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