{"id":593,"date":"2017-12-14T17:32:30","date_gmt":"2017-12-14T19:32:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/?p=593"},"modified":"2017-12-14T21:44:12","modified_gmt":"2017-12-14T23:44:12","slug":"cat-person-conto-da-new-yorker-que-voce-precisa-ler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/daquilo\/cat-person-conto-da-new-yorker-que-voce-precisa-ler\/","title":{"rendered":"Cat person, o conto publicado pela New Yorker do qual todos est\u00e3o falando e que voc\u00ea precisa ler"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tem text\u00e3o novo viralizando. Estranhamente, contudo, n\u00e3o se trata de um desabafo lan\u00e7ado de madrugada em alguma rede social, mas de um conto publicado na renomada <em>The New Yorker<\/em>. Assim que surgiu no site da revista, alguns dias atr\u00e1s,\u00a0<em>Cat person<\/em>, da escritora Kristen Roupenian (<a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2017\/12\/11\/cat-person\" target=\"_blank\">dispon\u00edvel aqui, em ingl\u00eas<\/a>), repercutiu instantaneamente, merecendo o topo da lista global de trending topics do Twitter, o que n\u00e3o costuma acontecer com obras de fic\u00e7\u00e3o editadas pela publica\u00e7\u00e3o norte-americana.<\/p>\n<p>O sucesso inesperado gerou uma s\u00e9rie de teorias sobre por que o texto se tornou viral e uma enxurrada de an\u00e1lises a respeito do que ele revela sobre as rela\u00e7\u00f5es heterossexuais em tempos de aproxima\u00e7\u00e3o via internet e a sexualidade das mulheres nascidas nos anos 1990. Discute-se tamb\u00e9m muito se a obra tem qualidade liter\u00e1ria ou n\u00e3o, mas uma coisa \u00e9 certa: de alguma maneira, Roupenian conseguiu se comunicar com a parcela feminina dos millenialls \u2014 e com todas as pessoas interessadas em entender estes novos tempos \u2014 como poucos autores conseguiram.<\/p>\n<p><em>Cat person<\/em>\u00a0conta como uma estudante universit\u00e1ria de 20 anos, Margot, e um homem de 34, Robert, se conhecem, flertam e, depois de passar semanas trocando mensagens de celular, acabam em um angustiante primeiro e \u00faltimo encontro, que deixa sequelas emocionais inesperadas.<\/p>\n<p>Um primeiro aspecto que chama a aten\u00e7\u00e3o na narrativa \u00e9 como Robert, t\u00e3o interessante e seguro enquanto est\u00e1 trocando mensagens, se revela uma decep\u00e7\u00e3o para Margot quando, finalmente, ela passa algumas horas com ele, primeiro indo ao cinema, depois a um bar e finalmente \u00e0 casa dele. As intera\u00e7\u00f5es virtuais abrem ainda mais espa\u00e7o para idealiza\u00e7\u00f5es que nos dirigem \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o (ou at\u00e9 mesmo ao perigo), parece sugerir Roupenian.<\/p>\n<h2>Por que Margot n\u00e3o diz n\u00e3o?<\/h2>\n<p>O ponto mais intrigante da obra, por\u00e9m, est\u00e1 no fato de Margot n\u00e3o se sentir no direito de interromper o sexo que ela e Robert est\u00e3o prestes a fazer. Como ela tomou a iniciativa de convid\u00e1-lo a sair do bar e perguntou se poderia ir at\u00e9 sua casa, acha que n\u00e3o pode dizer que mudou de ideia. E n\u00e3o porque tem medo de que ele, contrariado, a force a fazer o que ela n\u00e3o quer, mas porque desistir a far\u00e1 parecer &#8220;mimada e caprichosa, como se ela tivesse pedido algo em um restaurante e, ent\u00e3o, quando a comida chegasse, ela mudasse de ideia e retornasse o pedido&#8221;.<\/p>\n<p>Sem &#8220;permiss\u00e3o&#8221; para mudar de ideia, Margot decide ir em frente. Em algum momento, tenta at\u00e9 mesmo sentir algum prazer, mas, por fim, desiste e se deixa manipular &#8220;como uma boneca&#8221; para concluir, ap\u00f3s o orgasmo de Robert, que aquela foi a pior ideia de sua vida. A pergunta que fica \u00e9: por que ela se sente obrigada a agir assim? E por que ela se sente, depois, culpada por n\u00e3o querer mais ver Robert?<\/p>\n<h2>D\u00e1 vontade de conversar sobre <em>Cat person<\/em><\/h2>\n<p>\u00c9 por gerar perguntas assim que\u00a0<em>Cat person<\/em>\u00a0tem o poder de gerar todas as discuss\u00f5es e teorias que gerou. \u00c9 um conto sobre o qual d\u00e1 vontade de pensar e conversar, e recomendar aos amigos para que depois eles possam pensar e conversar com voc\u00ea.<\/p>\n<p>O conto intriga e incomoda. Ele conta a hist\u00f3ria de um homem e uma mulher que no in\u00edcio est\u00e3o, aparentemente, em p\u00e9 de igualdade. Em alguns momentos, s\u00e3o as fragilidades dela que afloram, em outros, as dele. E, quando a fragilidade de um aparece, o outro se sente mais tranquilo, o que deixa claro que, naquele encontro, h\u00e1 uma disputa de poder, uma esp\u00e9cie de competi\u00e7\u00e3o sobre quem vale mais que quem, ou uma investiga\u00e7\u00e3o sobre se um \u00e9 merecedor do outro. E tamb\u00e9m o medo de n\u00e3o ser t\u00e3o valioso quanto o outro.<\/p>\n<p>Tanto Robert quanto Margot, em alguma medida, jogam esse jogo. Mas, no fim, por algum motivo, ela se sente obrigada a abdicar de sua autonomia e liberdade e deixar que Robert a manipule como uma atriz porn\u00f4. A igualdade, afinal, se revela uma ilus\u00e3o. Algo favorece Robert. Algo invis\u00edvel e muito poderoso, que paralisa Margot em um momento crucial e ainda a faz se sentir culpada. E que d\u00e1 for\u00e7as a Robert, ap\u00f3s se sentir rejeitado, de reduzi-la a uma &#8220;puta&#8221;, forma como ele a chama na \u00faltima mensagem que lhe envia. Algo que faz as rela\u00e7\u00f5es entre jovens homens e mulheres do s\u00e9culo 21 se parecerem com as de qualquer s\u00e9culo passado. E, quando vemos esse desfecho, reparamos que, ao longo de toda a noite, para acalmar sua inseguran\u00e7a, Robert tenta, e consegue, em v\u00e1rios momentos diminuir Margot \u2013 porque ela \u00e9 muito nova, porque ela mora em um dormit\u00f3rio etc. E a Margot s\u00f3 resta se sentir mais bonita que ele, porque a beleza e a juventude ainda parece ser a \u00fanica coisa que se valoriza nas mulheres.<\/p>\n<p>Basicamente, \u00e9 para nomear e tornar vis\u00edvel esse algo \u2014 provando sua exist\u00eancia para que ele possa, ent\u00e3o, ser combatido \u2014 que as mulheres lutam hoje. Machismo, patriarcado, cultura do estupro, privil\u00e9gio masculino s\u00e3o alguns dos nomes dados a essa for\u00e7a que impede a igualdade.\u00a0<em>Cat person<\/em>\u00a0gerou todo esse impacto porque mostra os efeitos dessa for\u00e7a n\u00e3o nos casos de abuso e ass\u00e9dio nos ambientes de trabalho ou nos est\u00fadios de Hollywood, mas nas consensuais e cheias de expectativas idas ao cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Tem text\u00e3o novo viralizando. Estranhamente, contudo, n\u00e3o se trata de um desabafo lan\u00e7ado de madrugada em alguma rede social, mas de um conto publicado na renomada The New Yorker. 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