{"id":11754,"date":"2019-03-11T22:00:00","date_gmt":"2019-03-12T01:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/?p=11754"},"modified":"2019-03-11T23:06:43","modified_gmt":"2019-03-12T02:06:43","slug":"meu-personagem-da-semana-coutinho-a-cronica-de-nelson-rodrigues-sobre-o-craque-que-faleceu-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/meu-personagem-da-semana-coutinho-a-cronica-de-nelson-rodrigues-sobre-o-craque-que-faleceu-hoje\/","title":{"rendered":"Meu personagem da semana: Coutinho. A cr\u00f4nica de Nelson Rodrigues sobre o craque que morreu hoje"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/gabriel-jesus-pode-superar-coutinho-e-ser-o-artilheiro-mais-jovem-da-historia-do-brasileirao\/\">Conversei com Coutinho pela \u00faltima vez em 2016.<\/a> Um longa entrevista por telefone sobre a possibilidade de Gabriel Jesus quebrar o recorde do \u00eddolo do Santos e se tornar o artilheiro mais jovem da hist\u00f3ria do Campeonato Brasileiro unificado, ou seja, a contar de 1959. Foi um bate-papo inesquec\u00edvel. Com uma pitada de marra, mas tamb\u00e9m de simplicidade, de humildade.\u00a0&#8220;Eu n\u00e3o vejo jogo do Palmeiras, s\u00f3 vejo do Santos. Pelo que me dizem, o menino \u00e9 bom de bola. Eu j\u00e1 fiz a minha vida, parei de jogar h\u00e1 40 anos, que ele fa\u00e7a a (vida) dele. N\u00e3o tenho preocupa\u00e7\u00e3o nenhuma com isso, se ele se tornar o ca\u00e7ula dos artilheiros, vou dar a ele os meus parab\u00e9ns, nenhum recorde \u00e9 eterno\u201d.\u00a0Coutinho continua sendo o mais jovem artilheiro da hist\u00f3ria do Brasileir\u00e3o. E com a sa\u00edda cada vez mais precoce dos nossos talentos pode, sim, ser eterno.<\/p>\n<p>Mas este post \u00e9 para recordar uma cr\u00f4nica inesquec\u00edvel escrita por um craque das letras \u2014 <strong>Nelson Rodrigues<\/strong> \u2014 sobre o craque Coutinho.<\/p>\n<p>O texto \u00e9 simplesmente genial.<\/p>\n<p>Boa leitura!<\/p>\n<p>?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">***********<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>POR NELSON RODRIGUES*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Amigos, o jogo Santos x Vasco, que deu o t\u00edtulo ao Santos, comporta v\u00e1rios personagens da semana. Antes de mais nada, ter\u00edamos a diretoria do clube da Cruz de Malta. E que fez ela, a diretoria do Vasco da Gama, para que assim eu a destaque, em alto relevo? Fez apenas isto: atirou \u00e0s feras um time de reservas, remeteu o time de reservas para o matadouro do Pacaembu. Qualquer paralelep\u00edpedo previra o que, fatalmente, aconteceu. O Santos deu um passeio, um baile, um banho de futebol.<\/em><\/p>\n<p><em>Imagino que, a essas horas, nas prateleiras de S\u00e3o Janu\u00e1rio, as ta\u00e7as, os trof\u00e9us inumer\u00e1veis h\u00e3o de estar chocalhando de humilha\u00e7\u00e3o. Vamos e venhamos: a Cruz de Malta n\u00e3o merecia t\u00e3o horroroso vexame. E o velho almirante, o pr\u00f3prio do Caminho das \u00cdndias, se vivo fosse, estaria sentado num meio-fio, a chorar l\u00e1grimas de esguicho. Gl\u00f3ria, pois, ao imortal Barbosa. Debaixo dos tr\u00eas paus, ele foi algo como uma rocha oce\u00e2nica, como uma bastilha invicta. Amigos, sua velhice n\u00e3o \u00e9 velhice, mas uma soberba, uma salub\u00e9rrima eternidade. E o falso velhinho impediu que a goleada fosse mais abundante, mais torrencial.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas eu n\u00e3o farei da diretoria cruz-maltina o meu personagem da semana. N\u00e3o. Repito: o meu personagem da semana h\u00e1 de ser um santista. E penso no ataque. Sim, amigos: o Santos n\u00e3o \u00e9 como os outros. Qualquer time \u00e9 um conjunto, que inclui o goleiro, a zaga, os m\u00e9dios e os cinco dianteiros. No Santos, n\u00e3o. No Santos tudo \u00e9 ataque e s\u00f3 ataque. A defesa pode falhar, o goleiro pode papar frangos hom\u00e9ricos, frangos camonianos. Mas desde que o ataque esteja em estado de gra\u00e7a, de plenitude, n\u00e3o h\u00e1 o que temer.<\/em><\/p>\n<p><em>A gente n\u00e3o sabe como se chama o qu\u00edper, a gente n\u00e3o se lembra como se chama o zagueiro. O que ningu\u00e9m esquece \u00e9 a linha, com suas penetra\u00e7\u00f5es fulgurantes, suas tramas geniais. Basta dizer o seguinte: o Santos tem um Pel\u00e9. Eu sei que Pel\u00e9, contra os ingleses, jogou pedrinhas. Mas \u00e9 Pel\u00e9 mesmo jogando mal, e vou mais al\u00e9m: Pel\u00e9, mesmo em casa, mesmo lendo gibi, j\u00e1 infunde um p\u00e2nico religioso. E, al\u00e9m do Pel\u00e9, o ataque do Santos tem o Coutinho.<\/em><\/p>\n<p><em>Lembro-me que ao ouvir falar em Coutinho, pela primeira vez, tomei um susto. Comentei, ent\u00e3o, de mim para mim: \u201cCoutinho n\u00e3o \u00e9 nome de jogador de futebol!\u201d De fato, o nome influi muito para o \u00eaxito ou para o infort\u00fanio. Napole\u00e3o, se tivesse outro nome, j\u00e1 seria muito menos napole\u00f4nico. Outro exemplo: por que \u00e9 que Domingos da Guia foi o que foi? Porque esse \u201cda Guia\u201d dava-lhe um halo de fidalgo espanhol, italiano, sei l\u00e1. Ainda hoje, o sujeito treme quando ouve falar em \u201cda Guia\u201d.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cCoutinho n\u00e3o \u00e9 nome de jogador de futebol! <\/em><em>O sujeito que se chama apenas Coutinho d\u00e1 logo a ideia de pai de fam\u00edlia, de Aldeia Campista, Vila Isabel, Engenho Novo, com oito filhos nas costas e a simpatia pungente de um barnab\u00e9. Pois bem. Apesar de chamar-se liricamente Coutinho, o meu personagem da semana \u00e9 um monstro, um Dr\u00e1cula, um Vampiro da Noite de futebol.\u00a0<\/em><em>Guardem esse nome de pai de fam\u00edlia e de barnab\u00e9: Coutinho. Ou muito me engano ou estar\u00e1 ele no escrete brasileiro que, se Deus quiser, vai ser bicampe\u00e3o no Mundial do Chile&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p><em>Mas o Coutinho tem contra si o nome. O sujeito que se chama apenas Coutinho d\u00e1 logo a ideia de pai de fam\u00edlia, de Aldeia Campista, Vila Isabel, Engenho Novo, com oito filhos nas costas e a simpatia pungente de um barnab\u00e9. Pois bem. Apesar de chamar-se liricamente Coutinho, o meu personagem da semana \u00e9 um monstro, um Dr\u00e1cula, um \u201cVampiro da Noite\u201d de futebol.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o sei se me entendem a imagem. Mas o Coutinho n\u00e3o sugere outra coisa, sen\u00e3o o sujeito que come a bola de uma maneira, por assim dizer, material, f\u00edsica. Ao sair de campo, parece-lhe escorrer dos l\u00e1bios o sangue, ainda vivo, ainda efervescente da bola rec\u00e9m-vampirizada.<\/em><\/p>\n<p><em>As intelig\u00eancias simples, bovinas e, atrevo-me mesmo a diz\u00ea-lo, vacuns, h\u00e3o de rosnar: \u201cLiteratura!\u201d Parece, amigos, parece! Mas o povo, com o seu instinto agudo, sua vid\u00eancia terr\u00edvel, reconhece e aponta os jogadores que \u201ccomem\u201d a bola, como se a estra\u00e7alhassem nos dentes, fazendo esguichar o sangue da redonda. E se, na verdade, existem os \u201ctarados\u201d da pelota, Pel\u00e9 ou Coutinho h\u00e1 de ser um deles. Com o doce e inofensivo nome de Coutinho, o meu personagem fez, ontem, contra o Vasco, barbaridades sem conta.<\/em><\/p>\n<p><em>A um confrade que veio, de avi\u00e3o, do Pacaembu, eu perguntei: \u201cQue tal o Coutinho?\u201d O colega baixa a voz: \u201cB\u00e1rbaro!\u201d Insisti: \u201cE o Pel\u00e9?\u201d Resposta: \u201cB\u00e1rbaro!\u201d Fui adiante: \u201cE Dorval? Pepe?\u201d A tudo, o sujeito respondia, de olho r\u00fatilo: \u201cB\u00e1rbaro!\u201d Ent\u00e3o, eu me convenci, de vez, que o ataque do Santos se constitui, realmente, de sujeitos que n\u00e3o respeitam e, pelo contr\u00e1rio, brutalizam a bola, e cravam, nela, os seus caninos de vampiro. S\u00f3 o Coutinho fez, contra a velhice genial e quase imbat\u00edvel de Barbosa, dois gols. Dizem que, nas bolas altas, ele se tornava el\u00e1stico, acrob\u00e1tico, alado. O seu salto realmente era um voo.<\/em><\/p>\n<p><em>Guardem esse nome de pai de fam\u00edlia e de barnab\u00e9: Coutinho. Ou muito me engano ou estar\u00e1 ele no escrete brasileiro que, se Deus quiser, vai ser bicampe\u00e3o no Mundial do Chile.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Santos 3 x 0 Vasco, 17\/5\/1959, no Pacaembu, pelo Torneio Rio-S\u00e3o Paulo, Santos campe\u00e3o. Na \u00e9poca desta cr\u00f4nica, Coutinho tinha \u2014 acredite ou n\u00e3o \u2014 dezesseis anos incompletos e despontava como o mais perfeito parceiro de Pel\u00e9. Foi \u00e0 Copa do Chile como reserva de Vav\u00e1.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[*Manchete Esportiva, 23\/5\/1959] Cr\u00f4nica reproduzida do livro <em>A P\u00e1tria em Chuteiras<\/em>, Companhia das Letras.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/twitter.com\/mplimaDF\">Siga o blogueiro no Twitter: @mplimaDF<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conversei com Coutinho pela \u00faltima vez em 2016. Um longa entrevista por telefone sobre a possibilidade de Gabriel Jesus quebrar o recorde do \u00eddolo do Santos e se tornar o artilheiro mais jovem da hist\u00f3ria do Campeonato Brasileiro unificado, ou seja, a contar de 1959. Foi um bate-papo inesquec\u00edvel. Com uma pitada de marra, mas tamb\u00e9m de simplicidade, de humildade.\u00a0&#8220;Eu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":11755,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-11754","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-esporte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11754","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11754"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11754\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11764,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11754\/revisions\/11764"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11755"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11754"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11754"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11754"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}