{"id":15090,"date":"2020-04-15T15:30:10","date_gmt":"2020-04-15T18:30:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/?p=15090"},"modified":"2020-04-15T17:52:35","modified_gmt":"2020-04-15T20:52:35","slug":"rubem-fonseca-e-o-futebol-no-adeus-ao-escritor-a-lembranca-do-conto-abril-no-rio-em-1970-publicada-no-livro-feliz-ano-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/rubem-fonseca-e-o-futebol-no-adeus-ao-escritor-a-lembranca-do-conto-abril-no-rio-em-1970-publicada-no-livro-feliz-ano-novo\/","title":{"rendered":"Rubem Fonseca e o futebol: no adeus ao escritor, a lembran\u00e7a do conto &#8220;Abril, no Rio, em 1970&#8221; publicado na obra Feliz Ano Novo"},"content":{"rendered":"<p>O escritor Jos\u00e9 Rubem Fonseca morreu nesta quarta-feira, no Rio, ao sofrer infarto em seu apartamento no Leblon. Aos 94 anos, chegou a ser levado ao Hospital Samaritano, mas n\u00e3o resistiu. Escreveu, entre outros, &#8220;Feliz ano novo&#8221;. A obra tem um conto hist\u00f3rico sobre futebol: &#8220;Abril, no Rio, em 1970&#8221;. A seguir, o bel\u00edssimo texto\u00a0do contista, romancista e roteirista mineiro de Juiz de Fora, vencedor dos pr\u00eamios Jabuti (1970), (1984), (1993), Pr\u00eamio da Associa\u00e7\u00e3o Paulista dos Cr\u00edticos de Arte (1979, 2000); Pr\u00eamio Cam\u00f5es 2003; Pr\u00eamio Casa de las Am\u00e9ricas (2005); Pr\u00eamio ABL de Fic\u00e7\u00e3o romance teatro e conto (2007) e\u00a0Pr\u00eamio Machado de Assis (2015).\u00a0A seguir, a hist\u00f3rica tabelinha de Rubem Fonseca com o futebol. Jair Rosa Pinto, Jairzinho, G\u00e9rson e Tost\u00e3o e at\u00e9 o Rei Pel\u00e9 s\u00e3o alguns nomes citados pelo craque das letras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Abril, no Rio, em 1970<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tudo come\u00e7ou quando o cara que sentou perto de mim na grama disse, olha s\u00f3 o cuspe do G\u00e9rson. Na hora eu n\u00e3o dei import\u00e2ncia, eu tinha feito mis\u00e9rias para chegar at\u00e9 ali, mas a minha cabe\u00e7a estava no jogo de domingo e eu n\u00e3o ligava as coisas umas com as outras. O jogo de domingo ia ser assistido pelo Jair da Rosa Pinto, t\u00e9cnico do Madureira, que j\u00e1 foi crac\u00e3o do escrete, e uma coisa l\u00e1 dentro me dizia, Z\u00e9, vai ser a chance da sua vida. <\/em><\/p>\n<p><em>Eu disse pra minha garota, que era datil\u00f3grafa da firma, n\u00e3o fico de cont\u00ednuo nem mais um m\u00eas, disse tamb\u00e9m que o Jair da Rosa Pinto ia me ver no domingo, mas mulher \u00e9 um bicho gozado, ela nem deu bola. Me larga, deixa eu te contar. Levantei da cama, expliquei, porra, se eu jogar bem e o Jair da Rosa Pinto me levar para o Madureira, estou feito, ningu\u00e9m me segura, mas ela me puxou de novo pra cama e foi aquela loucura, minha garota \u00e9 fogo.<\/em><\/p>\n<p><em>O cara se chamava Braguinha. Olha o cuspe do G\u00e9rson, ele disse, no segundo tempo do treino. Braguinha tinha chegado no intervalo, todo mundo conhecia ele; diziam, \u00f4 Braguinha qu\u00ea que voc\u00ea est\u00e1 achando?, e ele respondia, vamos estra\u00e7alhar os gringos. Eu balan\u00e7ava a cabe\u00e7a e ria pra ele, concordando. Estava querendo me enturmar, eu era penetra e n\u00e3o queria ser posto para fora, era s\u00f3 olhar para mim que os caras viam que o meu lugar era outro, nem como rep\u00f3rter eu podia passar.<\/em><\/p>\n<p><em>Fiquei de olho no G\u00e9rson. Jogador de futebol vive cuspindo. Ele passou perto, deu um daqueles passes de trinta metros e cuspiu. Viu? Limpo, transparente, cristalino. Sabe o que \u00e9 isso?, perguntpu Braguinha. Fiquei na d\u00favida, ser\u00e1 que ele estava esculhambando o G\u00e9rson? Est\u00e1 cheio de nego a\u00ed que n\u00e3o topa o G\u00e9rson, qu\u00ea que eu ia dizer? Fiquei calado, balancei a cabe\u00e7a e o Braguinha mesmo respondeu, preparo f\u00edsico, menino, preparo f\u00edsico, pra cuspir assim o cara tem que estar tinindo. Vamos estra\u00e7alhar os gringos.<\/em><\/p>\n<p><em>O Braguinha me contou que eles treinavam todos os dias e n\u00e3o viam mulher, nem as pr\u00f3prias; n\u00e3o tem nada de Rose n\u00e3o, Jairzinho n\u00e3o bota o p\u00e9 na Mangueira, o Paulo C\u00e9sar n\u00e3o passa na porta do Lebat\u00f4, os caras est\u00e3o levando o neg\u00f3cio a s\u00e9rio. Mulher, nem a m\u00e3e.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu j\u00e1 tinha ouvido falar nessa coisa de que mulher acaba com o cara e nunca acreditei, mas naquele dia, n\u00e3o sei por que, comecei a achar que era aquilo mesmo e perguntei ao Braguinha, o senhor \u00e9 m\u00e9dico?, e ele respondeu, n\u00e3o, n\u00e3o sou m\u00e9dico mas estou por dentro, j\u00e1 vi futebol de garoto de dezoito anos acabar por causa de mulher. Porra, dezoito anos \u00e9 a minha idade. V\u00ea o cuspe do Tost\u00e3o, ele est\u00e1 meio fudido, o tro\u00e7o no olho, parou seis meses, v\u00ea s\u00f3 o cuspe dele. O Tost\u00e3o passou perto e cuspiu uma bolota de goma branca. Parece &#8220;marchemelo&#8221;, disse Braguinha, ele est\u00e1 trinta por cento, mas quando chegar no ponto vai cuspir jatinho de \u00e1gua filtrada igual o canhotinha de ouro. Era assim que chamavam o G\u00e9rson.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o eram as roupas, eram os cabelos e o cheiro, essa era a diferen\u00e7a entre Nely e as mo\u00e7as que andavam a cavalo, pensei enquanto vinha pela estrada fazendo exerc\u00edcio, correndo at\u00e9 o ponto de \u00f4nibus da Rocinha; eram os cabelos e o cheiro, e as roupas, puxa vida, eu queria ter uma mulher daquelas, mas o cara pra ter uma mulher daquelas tinha que ser no m\u00ednimo da sele\u00e7\u00e3o. Eu tinha que comer a bola no domingo, do Madureira para a sele\u00e7\u00e3o, bola com Zezinho, \u00e9 goool! A multid\u00e3o gritava dentro da minha cabe\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>Nely morava num apartamento de sala e quarto na praia de Botafogo, com uma colega que sabia do nosso caso, uma mo\u00e7a meio corcunda chamada Margarida, muito boazinha; quando ia dormir com a Nely ela ia pra sala, deitava no sof\u00e1 e fingia n\u00e3o ouvir a geme\u00e7\u00e3o dentro do quarto.<\/em><\/p>\n<p><em>Voc\u00ea n\u00e3o gosta mais de mim, disse Nely, fa\u00e7o uma macarronada, voc\u00ea come e agora quer se mandar dizendo que vai para casa dormir. Que hist\u00f3ria \u00e9 essa? Voc\u00ea pensa que eu sou boba?<\/em><\/p>\n<p><em>Eu n\u00e3o queria dizer a ela que estava pensando no cuspe do G\u00e9rson, pensando no jogo de domingo, e disse, eu n\u00e3o estou me sentindo bem, acho que estou doente, nem sei se d\u00e1 pra jogar amanh\u00e3.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o est\u00e1 se sentindo bem, gritou Nely, e comeu dois quilos de macarr\u00e3o? Voc\u00ea pensa que eu sou idiota?<\/em><\/p>\n<p><em>Acho que foi o macarr\u00e3o, me encheu demais.<\/em><\/p>\n<p><em>Te encheu demais? Seu burro, ent\u00e3o por que voc\u00ea est\u00e1 comendo esse p\u00e3o?, perguntou Nely.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu nem tinha percebido que estava comendo p\u00e3o, eu estava mesmo com a cabe\u00e7a noutro lugar. Nely virou para a Margarida, que tinha jantado com a gente, e perguntou, Margarida, voc\u00ea acha que algu\u00e9m pode acreditar no que ele est\u00e1 dizendo? N\u00e3o sei, disse Margarida, saindo apressada da mesa.<\/em><\/p>\n<p><em>Voc\u00ea vai se encontrar com outra mulher, disse Nely. A cara ossuda dela, o l\u00e1bio grosso foram me dando vontade, fiquei naquela base, cheguei a dar um passo para perto dela, mas pensei no cuspe do G\u00e9rson, o jato transparente entre os dentes, e disse, eu gosto de voc\u00ea, meu bem, mas v\u00ea se me entende, hoje n\u00e3o, v\u00ea se me entende, hoje n\u00e3o, amanh\u00e3 de noite. Eu juro pela minha m\u00e3e que eu n\u00e3o vou encontrar nenhuma mulher.<\/em><\/p>\n<p><em>Voc\u00ea n\u00e3o tem m\u00e3e!, gritou Nely, espatifando um prato no ch\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Era verdade. Eu n\u00e3o tinha m\u00e3e, n\u00e3o conheci minha m\u00e3e, mas s\u00f3 jurava pela m\u00e3e e a Nely sabia disso. Era um h\u00e1bito.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu vou dizer a verdade, eu n\u00e3o estou doente, mas amanh\u00e3 o Jair da Rosa Pinto, do Madureira, vai ver o jogo, se eu jogar bem ele me leva pra fazer um teste, eu preciso estar em forma, v\u00ea se entende, eu disse.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15092\" aria-describedby=\"caption-attachment-15092\" style=\"width: 362px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/rubem-fonseca-e-o-futebol-no-adeus-ao-escritor-a-lembranca-do-conto-abril-no-rio-em-1970-publicada-no-livro-feliz-ano-novo\/attachment\/1975\/\" rel=\"attachment wp-att-15092\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-15092\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-content\/uploads\/sites\/15\/2020\/04\/1975.jpg\" alt=\"\" width=\"362\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-content\/uploads\/sites\/15\/2020\/04\/1975.jpg 362w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-content\/uploads\/sites\/15\/2020\/04\/1975-181x300.jpg 181w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-content\/uploads\/sites\/15\/2020\/04\/1975-211x350.jpg 211w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/wp-content\/uploads\/sites\/15\/2020\/04\/1975-230x381.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 362px) 100vw, 362px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15092\" class=\"wp-caption-text\">Livro do escritor que morreu nesta quarta-feira, no Rio de Janeiro, aos 94 anos, chegou a ser censurado<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mentiroso, voc\u00ea vai se encontrar com outra mulher!<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o vou, juro por minha&#8230; palavra de honra, um cara me disse ontem, um cara que est\u00e1 por dentro, que o atleta n\u00e3o pode andar com mulheres na v\u00e9spera do jogo. Tive vontade de dizer mais, com uma igual voc\u00ea ent\u00e3o nem se fala, voc\u00ea me deixa no osso, \u00e9 a noite inteira, sem parar, mas fiquei com medo que ela quebrasse outro prato na minha cabe\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>Fui andando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta. Nely me abra\u00e7ou, me soltei do abra\u00e7o, n\u00e3o d\u00e1 p\u00e9, hoje n\u00e3o d\u00e1 p\u00e9, amanh\u00e3 de noite eu venho aqui.<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea for embora n\u00e3o precisa voltar nunca mais, exclamou Nely enfurecida. Quando ela me viu abrir a porta da rua gritou, vai, mentiroso, frouxo, debil\u00f3ide, ignorante, p\u00e9-rapado!<\/em><\/p>\n<p><em>Fui, chateado. Cheguei na pens\u00e3o, deitei, fiquei um tempo enorme curtindo o esporro que ela tinha me dado. N\u00e3o me incomodava de ser chamado de mentiroso, nem de frouxo, ora bolas, depois de tudo que eu fiz com ela tinha gra\u00e7a ser chamado de frouxo, duvido que ela arranjasse outro com mais disposi\u00e7\u00e3o do que eu, mas ser chamado de ignorante, p\u00e9-rapado, isso doeu. S\u00f3 porque era datil\u00f3grafa e cursou o gin\u00e1sio ela n\u00e3o tinha o direito de dizer aquilo de mim, eu era \u00f3rf\u00e3o, minha m\u00e3e morreu quando eu nasci, meu pai era pobre, morreu logo depois, me deixando na pior, s\u00f3 podia acabar mesmo cont\u00ednuo, ignorante, p\u00e9-rapado. Que que ela queria que eu fosse? Minha tristeza s\u00f3 passou quando me lembrei que o Clodoaldo tamb\u00e9m era \u00f3rf\u00e3o e deve ter passado pelas coisas que eu passei.<\/em><\/p>\n<p><em>Fiquei um tempo enorme acordado, sem poder imaginar coisas boas, pensando na chance, mas sem conseguir imaginar a coisa acontecendo, as jogadas sensacionais, o povo gritando gol. Se me chamassem eu treinava em qualquer time, do Rio, Belo Horizonte, topava o interior de S\u00e3o Paulo, Bahia, qualquer lugar; eu queria uma chance. A \u00fanica vez que treinei num time profissional foi no S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, num dia de chuva, o campo estava um lama\u00e7al. Quem j\u00e1 viu apoiador render na lama? Joguei dez minutos, dez minutos, tinha um monte de sujeitos esperando a vez na fila, s\u00f3 pro meio-campo, todos na mesma afli\u00e7\u00e3o que eu. Depois do treino eu falei com o homem se ele queria que eu voltasse e ele disse calmamente, n\u00e3o, obrigado, sem se incomodar com o meu sofrimento, cagando pra mim.<\/em><\/p>\n<p><em>Passei a manh\u00e3 de domingo na cama. Almocei \u00e0s onze horas, bife, arroz, salada de alface e tomate, igual a sele\u00e7\u00e3o em dia de jogo. S\u00f3 n\u00e3o tinha champignon. Botei o uniforme numa maleta de pl\u00e1stico, chuteira, cal\u00e7\u00e3o branco, camisa azul, meias brancas, peguei o \u00f4nibus, saltei na Central, peguei o trem.<\/em><\/p>\n<p><em>Seu Ti\u00e3o, o nosso t\u00e9cnico, j\u00e1 estava no campo. Tinha tamb\u00e9m uma por\u00e7\u00e3o de pessoas esperando o jogo come\u00e7ar. Fui pro vesti\u00e1rio mudar de roupa. Seu Ti\u00e3o reuniu a gente para dizer como \u00e9 que ele queria que o time jogasse. Perguntei, o Jair da Rosa Pinto, do Madureira, j\u00e1 chegou? Seu Ti\u00e3o respondeu, o Jaj\u00e1 da Barra Mansa? N\u00e3o sei, n\u00e3o vi. Olha, quando voc\u00ea for, o Tiago fica, Gabiru vem buscar jogo, ajudar o meio-campo. Outra coisa, cuidado com o ponta-de-lan\u00e7a deles, o tal de Jeov\u00e1. Se for preciso, cacete nele.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando sa\u00edmos do vesti\u00e1rio o campo j\u00e1 estava todo cercado de gente, em p\u00e9, pois arquibancada n\u00e3o tinha. Tentei ver o Jair da Rosa Pinto, n\u00e3o consegui, ele devia estar por ali, de olho em mim. Senti um frio no est\u00f4mago. Comecei a pular, esquentando o corpo, sentindo o corpo, sentindo os m\u00fasculos debaixo da pele, corri, pulei, o frio no est\u00f4mago passou, que coisa boa sentir os m\u00fasculos debaixo da pele.<\/em><\/p>\n<p><em>Eles ganharam o cara ou coroa, escolheram o campo. Pirulito deu a sa\u00edda, atrasando para mim, enfiei de curva para o Gabiru na ponta, mas a bola foi no p\u00e9 do advers\u00e1rio. Corri pra ver se recuperava a jogada. Enquanto eles triangulavam em cima de mim eu pensava, porra, comecei enfeitando, agora estou igual a bobo na roda, nem sei o que estou fazendo.<\/em><\/p>\n<p><em>O primeiro tempo foi de amargar. Eu dava o primeiro combate no Jeov\u00e1. Depois que ele passou duas vezes por mim eu resolvi apelar, ia direto no p\u00e9 de apoio dele. Comecei a ficar nervoso, gritei pro Ti\u00e3o, v\u00ea se recua tamb\u00e9m, porra. O cara s\u00f3 queria ficar no meio do campo, jogando de armandinho, enquanto a gente se fodia ali atr\u00e1s. Um minuto antes do intervalo, eu dei outro cacete no Jeov\u00e1. Ele se levantou, olhou pra mim e disse, qu\u00ea que h\u00e1, meu chapa? N\u00f3s dois cuspimos ao mesmo tempo, meu cuspe saiu fino, mas o dele, filho-da-puta, saiu ainda mais fino. Eu cuspi raspando a boca e soprando o cuspe com for\u00e7a pra fora, enquanto ele, moleque safado, nem abriu a boca, com um barulhinho de traque o cuspe esguichou dos sues l\u00e1bios fechados.<\/em><\/p>\n<p><em>No vesti\u00e1rio seu Ti\u00e3o disse para mim, Z\u00e9, voc\u00ea precisa caprichar mais nos passes. Eu disse, pode deixar. De repente, dei um suspiro, estava sentindo uma coisa esquisita. Disse, desanimado, n\u00e3o era bom eu trocar de vez em quando com o Tiago? Seu Ti\u00e3o co\u00e7ou a cabe\u00e7a, n\u00e3o sei, acho melhor voc\u00ea continuar plantando na entrada da \u00e1rea, t\u00e1tica que est\u00e1 dando certo a gente n\u00e3o muda.<\/em><\/p>\n<p><em>Botei uma toalha em cima do estrado e deitei. N\u00e3o quis pensar em nada, n\u00e3o tinha vontade de imaginar as coisas boas que ainda iam acontecer, um dia. Fiquei calado. S\u00f3 abri a boca para perguntar, algu\u00e9m viu o Jair da Rosa Pinto por a\u00ed? Ningu\u00e9m tinha visto.<\/em><\/p>\n<p><em>O sol continuava forte no segundo tempo. De sa\u00edda o ponta-esquerda deles foi at\u00e9 a linha de fundo, centrou, o Jeov\u00e1 subiu mais que todo mundo, deu uma cabe\u00e7ada t\u00e3o forte que o nosso goleiro nem viu por onde a bola entrou. Jeov\u00e1 saiu dando soco no ar, daquele jeito que o Pel\u00e9 inventou.<\/em><\/p>\n<p><em>Vamos virar esse placar, pessoal, eu disse para os companheiros, botando a bola debaixo do bra\u00e7o e correndo para o meio do campo, pra dar a sa\u00edda, igual o Didi na final da Copa de 62.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o viramos. Eles \u00e9 que fizeram outros gols, chutaram duas nas traves, dominaram o tempo todo. De tanto correr, fiquei no baga\u00e7o, a boca seca, n\u00e3o tinha coragem de cuspir pra n\u00e3o ver a bolota de &#8220;marchemelo&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando o jogo acabou, ainda dentro do campo, seu Ti\u00e3o me disse, cabe\u00e7a erguida Z\u00e9, isso acontece com todo mundo, tem dia que d\u00e1 tudo errado, \u00e9 assim mesmo. Eu estava t\u00e3o baratinado que s\u00f3 naquela hora percebi que o meu jogo tinha sido uma merda, eu n\u00e3o tinha feito outra coisa sen\u00e3o correr dentro do campo igual um cabe\u00e7a-de-bagre. Vi, de costas, Jeov\u00e1 conversando com um sujeito. N\u00e3o dava para ver quem era. Pensei, vai ver que \u00e9 o Jair da Rosa Pinto, convidando ele para treinar no Madureira. Me senti t\u00e3o infeliz que n\u00e3o tive coragem de olhar, saber se era ou n\u00e3o era. Corri para o vesti\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p><em>Fui o \u00faltimo a sair. Come\u00e7ava a escurecer. Na sombra da tarde o campo ficava ainda mais feio. Eu estava sozinho, todos tinham ido embora. Fui andando, passei por um monte de lixo, tive vontade de jogar ali a maleta com o uniforme. Mas n\u00e3o joguei. Apertei a maleta de encontro ao peito, senti as traves da chuteira e fui caminhando assim, lentamente, sem querer voltar, sem saber para onde ir.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fonseca, Rubem, 1925-2020\u00a0Feliz Ano Novo \/ Rubem Fonseca. &#8211; [Ed. especial]. &#8211; Rio de Janeiro : Nova\u00a0Fronteira, 2012.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Siga o blogueiro no Twitter:<\/strong>\u00a0@mplimaDF<\/p>\n<p><strong>Siga o blogueiro no Instagram:<\/strong>\u00a0@marcospaul0lima<\/p>\n<p><strong>Siga o blog no Facebook:<\/strong>\u00a0https:\/\/www.facebook.com\/dribledecorpo\/20<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor Jos\u00e9 Rubem Fonseca morreu nesta quarta-feira, no Rio, ao sofrer infarto em seu apartamento no Leblon. Aos 94 anos, chegou a ser levado ao Hospital Samaritano, mas n\u00e3o resistiu. Escreveu, entre outros, &#8220;Feliz ano novo&#8221;. A obra tem um conto hist\u00f3rico sobre futebol: &#8220;Abril, no Rio, em 1970&#8221;. 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