{"id":15490,"date":"2020-05-10T08:00:43","date_gmt":"2020-05-10T11:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/?p=15490"},"modified":"2020-05-10T08:00:43","modified_gmt":"2020-05-10T11:00:43","slug":"o-que-os-jogadores-brasileiros-precisam-aprender-com-as-tragedias-da-chape-e-do-ninho-do-urubu-antes-de-entrar-em-campo-na-pandemia-da-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/o-que-os-jogadores-brasileiros-precisam-aprender-com-as-tragedias-da-chape-e-do-ninho-do-urubu-antes-de-entrar-em-campo-na-pandemia-da-covid-19\/","title":{"rendered":"Das trag\u00e9dias da Chapecoense e do Ninho do Urubu \u00e0 pressa pela volta do futebol no Brasil: li\u00e7\u00f5es que os jogadores n\u00e3o podem esquecer na pandemia"},"content":{"rendered":"<p>Um dia, fam\u00edlias se despediram de profissionais que embarcaram no voo LaMia fretado pela Chapecoense. Eles n\u00e3o chegaram ao destino devido a uma s\u00e9rie de irregularidades e irresponsabilidades que culminaram no acidente a\u00e9reo, em Rionegro. Um dia, pais e m\u00e3es dormiram se despedindo de adolescentes que moravam no Ninho do Urubu. Acordaram sabendo que 10 deles estavam mortos devido a um inc\u00eandio em parte do Centro de Treinamento do Flamengo, em Vargem Grande.<\/p>\n<p>Os epis\u00f3dios s\u00e3o diferentes, mas h\u00e1 coincid\u00eancias nas trag\u00e9dias de 2016 e 2019. O hist\u00f3rico de voos fretados da LaMia e os recorrentes alertas de irregularidades no Ninho do Urubu apontaram que ambas poderiam ter sido evitadas. Os desdobramentos dos acidentes s\u00e3o um trailer terr\u00edvel em meio \u00e0 pressa pela volta do futebol no Brasil: jogo de empurra dos cartolas, fuga da responsabilidade, indiferen\u00e7a e at\u00e9 mesmo descaso com o sofrimento das fam\u00edlias numa incans\u00e1vel batalha por indeniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias tristes servem de alerta em tempos de pressa pela volta do futebol. Os jogadores n\u00e3o est\u00e3o imunes ao novo coronav\u00edrus. A covid-19 tamb\u00e9m mata atletas, mas o presidente Jair Bolsonaro quer v\u00ea-los de volta aos gramados. Provavelmente baseado naquele papo de que o hist\u00f3rico de atleta dele o blindou da contamina\u00e7\u00e3o. Pois bem. Certamente, ele ser\u00e1 o primeiro a tirar o corpo fora das divididas com as fam\u00edlias em caso de \u00f3bitos no mundo da bola causados pela doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Parte da cartolagem \u2014 \u00e9 injusto generalizar \u2014 consegue ser pior do que pol\u00edticos. Trama a volta do futebol arbitrariamente na surdina, \u00e0s escondidas, sem dar a m\u00ednima para a opini\u00e3o das vidas que estar\u00e3o em jogo dentro e fora das quatro linhas. Em frente \u00e0s c\u00e2meras, por\u00e9m, fazem discursos rebuscados, politicamente corretos em defesa da continuidade da paralisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As trag\u00e9dias da Chapecoense, do Ninho do Urubu e outras pelo Brasil advertem: \u00e9 preciso valorizar a pr\u00f3pria vida, a fam\u00edlia, antes de topar a aventura de pisar no gramado em nome do presidente da Rep\u00fablica, dos cartolas ou seja l\u00e1 quem for.<\/p>\n<p>Lamento que a opini\u00e3o dos jogadores esteja sufocada. A falta de uni\u00e3o da classe pelo maior patrim\u00f4nio de um atleta: a sa\u00fade. Em \u00faltimo caso, se toparem aderir \u00e0 insensatez dos patr\u00f5es, eles devem revisar contratos, atualiz\u00e1-los, observar com lupa cada cl\u00e1usula, conferir valor dos seguros e demais direitos atrelados aos acordos, proteger as fam\u00edlias juridicamente. Do contr\u00e1rio, arriscam v\u00ea-los entrar no time dos parentes que travam batalhas ingl\u00f3rias por indeniza\u00e7\u00f5es contra departamentos jur\u00eddicos de clubes e seguradoras.\u00a0Que os epis\u00f3dios da Chapecoense e do Ninho do Urubu sirvam de alerta contra sofrimentos que podem, sim, ser evitados. Talvez, passageiros da LaMia e h\u00f3spedes do Ninho do Urubu n\u00e3o tivessem no\u00e7\u00e3o do perigo a que estavam expostos. A pandemia \u00e9 globalizada. S\u00e3o mais de 285 mil mortes no mundo, 4,1 milh\u00e3o de contaminados. No Brasil,\u00a0 \u2014 11 mil \u00f3bitos e 169 mil testes positivos.<\/p>\n<p>O acidente da LaMia tem tr\u00eas anos. Locat\u00e1ria da aeronave, a Chapecoense responde a 28 a\u00e7\u00f5es judiciais, entre trabalhistas e c\u00edveis. At\u00e9 o momento, s\u00e3o 45 acordos. O clube foi acionado 56 vezes na Justi\u00e7a desde a trag\u00e9dia, sendo 38 a\u00e7\u00f5es trabalhistas de familiares de jogadores e outras profissionais que trabalhavam para a Chapecoense ou eram prestadores de servi\u00e7o. H\u00e1, ainda, 18 a\u00e7\u00f5es c\u00edveis de parentes de v\u00edtimas que n\u00e3o tinham v\u00ednculo com o clube, como diretores, jornalistas e convidados.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia do Ninho do Urubu faz 15 meses. Segundo balan\u00e7o publicado em 8 de maio no blog do colega Mauro Cezar Pereira no <em>UOL<\/em>, tr\u00eas fam\u00edlias e meia finalizaram acordo com o Flamengo. Um dos meninos era filho de um casal separado. O pai aceitou a proposta rubro-negra. A m\u00e3e discorda e segue firme na disputa judicial.<\/p>\n<p>Em 2004, o zagueiro Serginho do S\u00e3o Caetano morreu dentro do gramado do Morumbi numa partida contra o S\u00e3o Paulo pelo Campeonato Brasileiro. A vi\u00fava do jogador esperou 10 anos para receber a indeniza\u00e7\u00e3o das seguradoras. Mesmo assim, uma delas conseguiu embargar o pagamento alegando que o jogador era ciente de que tinha cardiopatia. Logo, conhecedor do risco. Os jogadores conhecem o risco da pandemia da covid-19.<\/p>\n<p>A queda de bra\u00e7o entre a vi\u00fava do atacante Dener, Luciana Gabino, com o Vasco, por exemplo, durou 21 anos. O atacante Dener morreu em 1994 num acidente automobil\u00edstico na Lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul do Rio. O caso teve solu\u00e7\u00e3o em 2015. Luciana aceitou reduzir o valor integral da d\u00edvida e dividiu o montante em nove vezes. A indeniza\u00e7\u00e3o assinada em 2007 previa o pagamento de R$ 5 milh\u00f5es para ela e os tr\u00eas filhos de Dener.<\/p>\n<p>A d\u00edvida rolou. Com multas por atraso de pagamento e juros de corre\u00e7\u00e3o do valor original do esp\u00f3lio, a d\u00edvida ainda girava em torno de R$ 1 milh\u00e3o. Pelo acordo assinado \u00e0 \u00e9poca, o Vasco pagaria 85% do valor \u2014 R$ 3,2 milh\u00f5es \u2014 por meio de ato trabalhista no Tribunal Regional do Trabalho do Rio, mais os 15% restantes \u2014 R$ 1,8 milh\u00e3o \u2014 em 36 parcelas mensais de R$ 50 mil. O \u00faltimo pagamento deveria ter sido feito em setembro de 2010. Tristes li\u00e7\u00f5es para que os jogadores n\u00e3o tomem bola nas costas. <a href=\"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/opiniao-querer-jogar-a-forca-na-pandemia-e-a-maior-fraqueza-do-futebol\/\">Como escrevi outro dia aqui no blog,\u00a0a pressa \u00e9 inimiga da perfei\u00e7\u00e3o e amante da irresponsabilidade<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Siga o blogueiro no Twitter:<\/strong>\u00a0@mplimaDF<\/p>\n<p><strong>Siga o blogueiro no Instagram:<\/strong>\u00a0@marcospaul0lima<\/p>\n<p><strong>Siga o blog no Facebook:<\/strong>\u00a0https:\/\/www.facebook.com\/dribledecorpo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia, fam\u00edlias se despediram de profissionais que embarcaram no voo LaMia fretado pela Chapecoense. Eles n\u00e3o chegaram ao destino devido a uma s\u00e9rie de irregularidades e irresponsabilidades que culminaram no acidente a\u00e9reo, em Rionegro. 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