{"id":15548,"date":"2020-05-17T08:00:47","date_gmt":"2020-05-17T11:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/?p=15548"},"modified":"2020-05-17T08:00:47","modified_gmt":"2020-05-17T11:00:47","slug":"dois-meses-antes-do-maracanazo-ha-70-anos-o-brasil-conquistava-titulo-contra-o-uruguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/dois-meses-antes-do-maracanazo-ha-70-anos-o-brasil-conquistava-titulo-contra-o-uruguai\/","title":{"rendered":"Dois meses antes do Maracanazo: h\u00e1 70 anos, o Brasil conquistava a Copa Rio Branco contra o Uruguai, em S\u00e3o Janu\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Dezessete de maio de 1950. S\u00e3o Janu\u00e1rio, Rio de Janeiro. Dois meses antes do segundo maior vexame do futebol brasileiro \u2013 o primeiro \u00e9 o 7 x 1, em 8 de julho de 2014 \u2013, a justa comemora\u00e7\u00e3o de um t\u00edtulo embalava o sonho da conquista in\u00e9dita do Mundial. A Sele\u00e7\u00e3o vence o Uruguai por 1 x 0 no est\u00e1dio do Vasco, arremata o trof\u00e9u da extinta Copa Rio Branco e ensina ao arquirrival como super\u00e1-lo em um poss\u00edvel encontro no Mundial que come\u00e7aria a ser disputado no m\u00eas seguinte justamente no Brasil.<\/p>\n<p>Criado em 1916, o torneio era uma esp\u00e9cie de Supercl\u00e1ssico das Am\u00e9ricas da \u00e9poca, mas entre Brasil e Uruguai. Foi disputado pela primeira vez, em 1931 e durou at\u00e9 1976. Eram disputados tr\u00eas jogos para apontar o campe\u00e3o. Portanto, no ano da Copa de 1950, no Brasil, a Sele\u00e7\u00e3o enfrentou o Uruguai tr\u00eas vezes. Todas elas um m\u00eas antes do in\u00edcio do Mundial.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas duelos da Copa Rio Branco de 1950 foram no Brasil. Em 6 de maio, a Celeste derrotou o Brasil por 4 x 3 em um jog\u00e3o no Pacaembu, em S\u00e3o Paulo. Oito dias depois, a trupe comandada pelo t\u00e9cnico Fl\u00e1vio Costa venceu o segundo duelo por 3 x 2, em S\u00e3o Janu\u00e1rio. O terceiro duelo voltou a ser disputado no campo do Vasco, em 17 de maio de 1950.<\/p>\n<p>Dois meses antes do Maracanazo, o t\u00e9cnico Fl\u00e1vio Costa mandou a campo: Barbosa; Nilton Santos e Juvenal; Eli, Danilo e Bigode; Fria\u00e7a, Zizinho (Jair Rosa Pinto), Baltazar, Ademir Menezes e Chico. Dos 12 campe\u00f5es da Copa Rio Branco, dois n\u00e3o entrariam em campo na final da Copa do Mundo diante do mesmo Uruguai na decis\u00e3o do Mundial: Nilton Santos, Eli e Baltazar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPouco antes da Copa jogamos com o Brasil. Rec\u00e9m come\u00e7\u00e1vamos a prepara\u00e7\u00e3o para o Mundial. O Brasil j\u00e1 come\u00e7ara h\u00e1 meses. Jogamos ent\u00e3o sem algumas figuras do time principal, mas, apesar disso, ganhamos (o primeiro jogo, no Pacaembu). Embora eles vencessem o torneio, n\u00f3s tiramos experi\u00eancia daquelas partidas. Quer dizer que n\u00f3s sab\u00edamos intimamente que os brasileiros n\u00e3o iam nos arrasar no Maracan\u00e3. Teriam de lutar muito para nos ganhar. N\u00e3o est\u00e1vamos tremendo. Est\u00e1vamos muito controlados e medidos. Conhec\u00edamos demasiado o Brasil\u201d<\/p>\n<p><strong>M\u00e1spoli,<\/strong> goleiro do Uruguai, em entrevista ao uruguaio El Pa\u00eds, em 1985<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Uruguai tamb\u00e9m estava com for\u00e7a m\u00e1xima. Dos 11 campe\u00f5es mundiais contra o Brasil dois meses depois da final da Copa Rio Branco, apenas um n\u00e3o havia participado da derrota de 17 de maio, em S\u00e3o Janu\u00e1rio: Rub\u00e9n Mor\u00e1n. At\u00e9 o carrasco Ghiggia havia jogado e pouco incomodou o goleiro Barbosa. Na verdade, a Celeste escapou de perder por 3 x 0. Dois gols foram anulados em S\u00e3o Janu\u00e1rio. Segundo relado da Folha da Manh\u00e3 publicado no dia seguinte \u00e0 final, o \u00e1rbitro ingl\u00eas Cyrill Barrick apontou impedimento nas duas finaliza\u00e7\u00f5es de Baltazar.<\/p>\n<p>Um detalhe chama a aten\u00e7\u00e3o na compara\u00e7\u00e3o das escala\u00e7\u00f5es dos tr\u00eas duelos da Copa Rio Branco com as forma\u00e7\u00f5es de Brasil e Uruguai no Maracanazo: a mudan\u00e7a de t\u00e9cnico do Uruguai. Romeo V\u00e1zquez comandou a Celeste no vice do duelo \u00e0 parte, mas foi Juan L\u00f3pez quem levou a Celeste ao bicampeonato na \u00faltima rodada do quadrangular final do Mundial de 1950.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA sele\u00e7\u00e3o do Uruguai que ganhou o mundial de 1950 no Brasil o\u00a0fez com um sistema cl\u00e1ssico, muito similar, em seu esquema\u00a0posicional e em seu funcionamento, ao que sempre praticaram os\u00a0celestes. N\u00e3o jogaram no \u201cW-M\u201d criado por Chapman. Talvez,\u00a0esse apego ao m\u00e9todo dos anos 1920, com dois beques centrais\u00a0que se apoiavam mutuamente ( \u201cYo salgo, usted me cubre. Usted\u00a0sale , yo lo cubro\u201d) em vez de um \u00fanico zagueiro central do\u00a0sistema ingl\u00eas, tenha sido um dos fundamentos b\u00e1sicos da sua\u00a0sensacional vit\u00f3ria no Maracan\u00e3&#8230;\u00a0Na fortaleza da sua defesa \u2013 algo tradicional nas equipes\u00a0uruguaias- se cimentou essa conquista&#8230;N\u00e3o houve acr\u00e9scimos\u00a0que constitu\u00edssem mudan\u00e7a ou renova\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p>\n<p><strong>Juvenal,<\/strong> meia do Brasil, em entrevista \u00e0 revista El Gr\u00e1fico 1977-1978<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Titular do Uruguai nos quatro confrontos com o Brasil em 1950, o goleiro M\u00e1spoli revelou em entrevista ao jornal <em>El Pa\u00eds <\/em>de 16 de maio de 1985 que os duelos pela Copa Rio Branco foram relevantes para o planejamento do jogo decisivo do Mundial. O depoimento est\u00e1 publicado no livro <em>Anatomia de uma derrota<\/em>, de Paulo Perdig\u00e3o. \u201cPouco antes da Copa jogamos com o Brasil. Rec\u00e9m come\u00e7\u00e1vamos a prepara\u00e7\u00e3o para o Mundial. O Brasil j\u00e1 come\u00e7ara h\u00e1 meses. Jogamos ent\u00e3o sem algumas figuras do time principal, mas, apesar disso, ganhamos (o primeiro jogo, no Pacaembu). Embora eles vencessem o torneio, n\u00f3s tiramos experi\u00eancia daquelas partidas. Quer dizer que n\u00f3s sab\u00edamos intimamente que os brasileiros n\u00e3o iam nos arrasar no Maracan\u00e3. Teriam de lutar muito para nos ganhar. N\u00e3o est\u00e1vamos tremendo. Est\u00e1vamos muito controlados e medidos. Conhec\u00edamos demasiado o Brasil\u201d, declarou M\u00e1spoli.<\/p>\n<p>O t\u00e9cnico Fl\u00e1vio Costa parecia vacinado contra as armadilhas do Uruguai, mas n\u00e3o o suficiente. Na v\u00e9spera da final, disse ao <em>O Globo<\/em>. \u201cO time uruguaio tem sempre atrapalhado o sossego dos brasileiros. Tenho medo de que meus jogadores entrem em campo, domingo, como se j\u00e1 tivessem a faixa de campe\u00f5es sobre os ombros. O Uruguai \u00e9 o maior obst\u00e1culo \u00e0 conquista do t\u00edtulo. Eles s\u00e3o capazes de explorar qualquer falha nossa, qualquer descuido, que pode assim se tornar fatal\u201d, alertou depois de exibi\u00e7\u00f5es de gala contra Su\u00e9cia e Espanha no quadrangular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAp\u00f3s as goleadas conquistadas pelo Brasil, n\u00f3s abandonamos nossa inten\u00e7\u00e3o de usar o l\u00edbero e nos voltamos para a velha t\u00e1tica. Com poucas modifica\u00e7\u00f5es tomadas de empr\u00e9stimo da forma\u00e7\u00e3o com l\u00edbero, n\u00f3s conseguimos erigir uma gaiola, da qual os atacantes brasileiros poderiam poucas vezes escapar. Quantas vezes conseguiu Ademir passar por mim? Quando ele conseguia, havia sempre Rodr\u00edguez Andrade ou Tejera para cobrir. Nosso plano estabelecia que cada atacante brasileiro tivesse ao menos que enfrentar dois defensores nosso antes que pudesse chutar&#8221;<\/p>\n<p><strong>Obdulio Varellla,<\/strong> em entrevista ao jornalista Brian Glanville<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma das armadilhas do Uruguai foi t\u00e1tica, como contou Obdulio Varella em depoimento ao jornalista Brian Glanville publicado no livro <em>Anatomia de uma derrota<\/em>, de Paulo Perdig\u00e3o. A Celeste surpreendeu ao trocar o sistema WM de Herbert Chapman da moda na \u00e9poca por uma aproxima\u00e7\u00e3o do que se tornaria o 4-3-3. A Celeste usou linha defensiva de quatro contra o Brasil.<\/p>\n<p>\u201cAp\u00f3s as goleadas conquistadas pelo Brasil, n\u00f3s abandonamos nossa inten\u00e7\u00e3o de usar o l\u00edbero e nos voltamos para a velha t\u00e1tica. Com poucas modifica\u00e7\u00f5es tomadas de empr\u00e9stimo da forma\u00e7\u00e3o com l\u00edbero, n\u00f3s conseguimos erigir uma gaiola, da qual os atacantes brasileiros poderiam poucas vezes escapar. Quantas vezes conseguiu Ademir passar por mim? Quando ele conseguia, havia sempre Rodr\u00edguez Andrade ou Tejera para cobrir. Nosso plano estabelecia que cada atacante brasileiro tivesse ao menos que enfrentar dois defensores nosso antes que pudesse chutar. N\u00f3s conseguimos isso gra\u00e7as \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o, velocidade e \u00edmpeto de Rodr\u00edguez Andrade, que parecia estar em todas as posi\u00e7\u00f5es e que efetivou formid\u00e1veis recupera\u00e7\u00f5es de bola. Sem ele, nossas contramedidas teria fracassado inevitavelmente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>E assim o t\u00edtulo da Copa Rio Branco de 1950 est\u00e1 para a hist\u00f3ria como a conquista da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es de 2013, um ano antes do Mundial de 2014. Virou a ilus\u00e3o de que o Brasil era favorito, havia conquistado o caneco antecipadamente. Uruguai e Alemanha provaram que n\u00e3o em um espa\u00e7o de 64 anos entre as edi\u00e7\u00f5es de 1950 e 2014.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Siga o blogueiro no Twitter:<\/strong>\u00a0@mplimaDF<\/p>\n<p><strong>Siga o blogueiro no Instagram:<\/strong>\u00a0@marcospaul0lima<\/p>\n<p><strong>Siga o blog no Facebook:<\/strong>\u00a0https:\/\/www.facebook.com\/dribledecorpo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dezessete de maio de 1950. S\u00e3o Janu\u00e1rio, Rio de Janeiro. Dois meses antes do segundo maior vexame do futebol brasileiro \u2013 o primeiro \u00e9 o 7 x 1, em 8 de julho de 2014 \u2013, a justa comemora\u00e7\u00e3o de um t\u00edtulo embalava o sonho da conquista in\u00e9dita do Mundial. 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