{"id":3568,"date":"2016-10-23T06:00:28","date_gmt":"2016-10-23T08:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/?p=3568"},"modified":"2016-10-23T16:18:08","modified_gmt":"2016-10-23T18:18:08","slug":"pele-76-anos-o-dia-em-que-ele-virou-rei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dribledecorpo\/pele-76-anos-o-dia-em-que-ele-virou-rei\/","title":{"rendered":"Pel\u00e9, 76 anos: o dia em que ele virou Rei"},"content":{"rendered":"<p>Edson Arantes do Nascimento, o Pel\u00e9, comemora 76 anos neste domingo. Revirando meu ba\u00fa de recorda\u00e7\u00f5es do maior jogador de todos os tempos, encontrei a lista jogo a jogo de todos os gols do craque de Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es (MG). Minha curiosidade era saber quando Pel\u00e9 atingiu a marca de 76 bolas na rede na carreira. Ele j\u00e1 era t\u00e3o bom que em um s\u00f3 jogo fez quatro \u2014 os gols de n\u00famero 75, 76, 77 e 78. A v\u00edtima? O America-RJ, em 25 de fevereiro de 1958, pelo extinto Torneio Rio-S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A exibi\u00e7\u00e3o de gala na vit\u00f3ria por 5 x 3 \u00e9 um marco na hist\u00f3ria de Edson Arantes do Nascimento, do personagem Pel\u00e9, como ele costuma separar, do futebol brasileiro e do jornalismo esportivo. Pela primeira vez, algu\u00e9m ousou juntar tr\u00eas letras dar a Pel\u00e9 o eterno t\u00edtulo de rei. O respons\u00e1vel pelo batismo da crian\u00e7a que tinha s\u00f3 17 anos e 8 meses foi um craque das letras \u2014 um tal de Nelson Rodrigues \u2014 na cr\u00f4nica A realeza de Pel\u00e9, publicada na revista Manchete Esportiva em 8 de mar\u00e7o de 1958 e reproduzida na integra a seguir aqui no <strong>blog<\/strong>.<\/p>\n<p>Neste 23 de outubro de 2016, feliz anivers\u00e1rio, Pel\u00e9! Vida longa ao Rei do Futebol. E minha rever\u00eancia ao hist\u00f3rico texto genial de Nelson Rodrigues.<\/p>\n<p><strong>A REALEZA DE PEL\u00c9*<\/strong><\/p>\n<p>Depois do jogo Am\u00e9rica x Santos, seria um crime n\u00e3o fazer de Pel\u00e9 o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade [Albert] Laurence chama de \u201co Domingos da Guia do ataque\u201d. Examino a ficha de Pel\u00e9 e tomo um susto: \u2014 dezessete anos! H\u00e1 certas idades que s\u00e3o aberrantes, inveross\u00edmeis. Uma delas \u00e9 a de Pel\u00e9. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que algu\u00e9m possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: \u2014 verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresist\u00edveis e fatais. Dir-se-ia um rei, n\u00e3o sei se Lear, se imperador Jones, se et\u00edope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invis\u00edveis. Em suma: \u2014 ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade din\u00e1stica h\u00e1 de ofuscar toda a corte em derredor.<\/p>\n<p>O que n\u00f3s chamamos de realeza \u00e9, acima de tudo, um estado de alma. E Pel\u00e9 leva sobre os demais jogadores uma vantagem consider\u00e1vel: \u2014 a de se sentir rei, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Quando ele apanha a bola e dribla um advers\u00e1rio, \u00e9 como quem enxota, quem escorra\u00e7a um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensa\u00e7\u00e3o de superioridade que n\u00e3o faz cerim\u00f4nias. J\u00e1 lhe perguntaram: \u2014 \u201cQuem \u00e9 o maior meia do mundo?\u201d Ele respondeu, com a \u00eanfase das certezas eternas: \u2014 \u201cEu.\u201d Insistiram: \u2014 \u201cQual \u00e9 o maior ponta do mundo?\u201d E Pel\u00e9: \u2014 \u201cEu.\u201d Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque p\u00f5e no que diz uma tal carga de convic\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m reage, e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posi\u00e7\u00f5es. Nas pontas, nas meias e no centro, h\u00e1 de ser o mesmo, isto \u00e9, o incompar\u00e1vel Pel\u00e9.<\/p>\n<p>Vejam o que ele fez, outro dia, no j\u00e1 referido Am\u00e9rica x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esfor\u00e7o pessoal, quatro gols em Pompeia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o Am\u00e9rica, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: \u2014 \u201cV\u00e1 jogar bem assim no diabo que o carregue!\u201d De certa feita, foi at\u00e9 desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pel\u00e9, n\u00e3o. Olha para a frente, e o caminho at\u00e9 o gol est\u00e1 entupido de advers\u00e1rios. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe, ao encal\u00e7o, ferozmente, o terceiro, que Pel\u00e9 corta sensacionalmente. Numa palavra: \u2014 sem passar a ningu\u00e9m e sem ajuda de ningu\u00e9m, ele promoveu a destrui\u00e7\u00e3o minuciosa e s\u00e1dica da defesa rubra. At\u00e9 que chegou um momento em que n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m para driblar. N\u00e3o existia uma defesa. Ou por outra: \u2014 a defesa estava indefesa. E, ent\u00e3o, livre na \u00e1rea inimiga, Pel\u00e9 achou que era demais driblar Pompeia e enca\u00e7apou de maneira genial e inapel\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ora, para fazer um gol assim n\u00e3o basta apenas o simples e puro futebol. \u00c9 preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confian\u00e7a, de certeza, de otimismo que faz de Pel\u00e9 o craque imbat\u00edvel. Quero crer que a sua maior virtude \u00e9, justamente, a imod\u00e9stia absoluta. P\u00f5e-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a pr\u00f3pria bola, que vem aos seus p\u00e9s com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, at\u00e9 uma cambaxirra sabe que Pel\u00e9 \u00e9 imprescind\u00edvel na forma\u00e7\u00e3o de qualquer escrete. Na Su\u00e9cia, ele n\u00e3o tremer\u00e1 de ningu\u00e9m. H\u00e1 de olhar os h\u00fangaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. N\u00e3o se inferiorizar\u00e1 diante de ningu\u00e9m. E \u00e9 dessa atitude viril e, mesmo, insolente, que precisamos.<\/p>\n<p>Sim, amigos: \u2014 aposto minha cabe\u00e7a como Pel\u00e9 vai achar todos os nossos advers\u00e1rios uns pernas de pau. Por que perdemos, na Su\u00ed\u00e7a, para a Hungria? Examinem a Fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os h\u00fangaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, n\u00f3s baixamos a cabe\u00e7a e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si s\u00f3, antecipa e elucida a derrota. Com Pel\u00e9 no time, e outros como ele, ningu\u00e9m ir\u00e1 para a Su\u00e9cia com a alma dos vira-latas. Os outros \u00e9 que tremer\u00e3o diante de n\u00f3s.<\/p>\n<p>*<strong>Santos 5 x 3 Am\u00e9rica, 25\/02\/1958, no Maracan\u00e3, pelo Torneio Rio-SP. Foi a primeira cr\u00f4nica de Neldon Rodrigues sobre Pel\u00e9 \u2014 e a primeira em que o jogador foi chamado de rei.<\/p>\n<p>Manchete Esportiva, 8\/3\/1958<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edson Arantes do Nascimento, o Pel\u00e9, comemora 76 anos neste domingo. Revirando meu ba\u00fa de recorda\u00e7\u00f5es do maior jogador de todos os tempos, encontrei a lista jogo a jogo de todos os gols do craque de Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es (MG). Minha curiosidade era saber quando Pel\u00e9 atingiu a marca de 76 bolas na rede na carreira. 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