{"id":4480,"date":"2019-08-30T16:51:34","date_gmt":"2019-08-30T19:51:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/?p=4480"},"modified":"2019-09-06T13:18:01","modified_gmt":"2019-09-06T16:18:01","slug":"favela-peru-parapan-americano-lima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/favela-peru-parapan-americano-lima\/","title":{"rendered":"Arenas do Pan e Parapan constru\u00eddas em favelas de Lima levam esperan\u00e7a\u00a0a moradores"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Lima (Peru)\u00a0\u2014\u00a0<\/strong><\/span>Duas vezes melhor do mundo no futebol de 5 (modalidade praticada por cegos e pessoas com baixa vis\u00e3o), o brasileiro Ricardinho busca o quarto t\u00edtulo com a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira nos Jogos Parapan-Americanos de Lima-2019. O Brasil enfrenta a Argentina, \u00e0s 19h (de Bras\u00edlia), nesta sexta-feira (30\/8). N\u00e3o h\u00e1 do que reclamar sobre as instala\u00e7\u00f5es onde disputa a competi\u00e7\u00e3o. Tudo nov\u00edssimo e com acessibilidade para ele e pessoas com outras defici\u00eancias f\u00edsicas. O oposto da realidade que cerca o complexo esportivo da Villa Mar\u00eda del Triunfo, localizada em uma das regi\u00f5es mais pobres e violentas de Lima. Com a autoestima acalentada, moradores do local v\u00eam enchendo as arquibancadas e alimentam expectativa de desenvolvimento do paradesporto na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEssas crian\u00e7as, e comigo foi assim tamb\u00e9m, est\u00e3o muito longe dos referenciais de um atleta. Receber um Parapan pr\u00f3ximo \u00e9 fundamental n\u00e3o s\u00f3 para as crian\u00e7as como para os adultos\u201d, diz Ricardinho. O brasileiro j\u00e1 jogava bola quando ficou cego aos 8 anos, devido a um descolamento de retina. Nascido na Restinga, um dos bairros mais pobres e violentos de Porto Alegre, o ga\u00facho conheceu a modalidade praticada por cegos e pessoas com baixa vis\u00e3o em um instituto distante duas horas de casa.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1, conheci a bola de guizo (que tem uma esp\u00e9cie de chocalho para fazer barulho)\u201d, conta. Como era dif\u00edcil o artigo esportivo no com\u00e9rcio local, ele improvisava em casa. \u201cColocava a bola em uma sacola pl\u00e1stica e, conforme ela se mexia, fazia barulho\u201d, lembra. Aos 15 anos, foi para o primeiro clube. Um ano depois, chegou \u00e0 Sele\u00e7\u00e3o Brasileira. \u201cO esporte \u00e9 uma ferramenta muito preciosa para mudar uma hist\u00f3ria de vida\u201d, crava o ala ofensivo.<\/p>\n<h4><b>No meio da favela<\/b><\/h4>\n<p>A favela de Villa Mar\u00eda del Triunfo fica a 25km ao sul do centro de Lima e tem quase 400 mil habitantes. O colorido e a limpeza do complexo esportivo do Parapan se contrastam aos tijolos aparentes das casas instaladas empilhadas umas sobre as outras. Muitas delas, sem telhados, pois a capital peruana \u00e9 conhecida como a cidade que nunca chove. Nada que diminua o orgulho dos moradores locais.<\/p>\n<p>A arena de Villa Mar\u00eda del Triunfo recebeu competi\u00e7\u00f5es de sete modalidades durante os Jogos Pan-Americanos, entre h\u00f3quei e basebol, e sedia o futebol de 5 e o futebol de 7 durante o Parapan. \u201cTudo est\u00e1 mudado por aqui com esses Jogos. Tudo isso que foi constru\u00eddo ser\u00e1 usado pela comunidade que vive aqui. \u00c9 o que esperamos\u201d, almeja Edgar Sollis, que foi com o filho apaixonado por futebol, \u00c9rick Sollis, 12 anos, e a esposa, Consuelo Durand, assistir ao cl\u00e1ssico entre Brasil e Argentina no futebol de 7.<\/p>\n<p>Depois de ver os Jogos Paral\u00edmpicos do Rio-2016, o brasileiro Lucas da Silva correu para a internet para pesquisar mais sobre a modalidade. Pelo Facebook, o garoto de Franco da Rocha, em S\u00e3o Paulo, encontrou alguns jogadores de futebol de 7 e pediu indica\u00e7\u00e3o de clubes. Deu t\u00e3o certo que, hoje, aos 21 anos, defende a camisa verde-amarela no Parapan de Lima. \u201c\u00c9 importante um lugar como esse ser constru\u00eddo em uma favela, porque as pessoas podem conhecer e praticar uma atividade f\u00edsica\u201d, afirma o ala da classe FT2. Ele tem o movimento dos membros do lado direito comprometidos por causa da paralisia cerebral, sofrida por falta de oxigena\u00e7\u00e3o na hora do parto.<\/p>\n<h2><b>Realidade de pobreza e viol\u00eancia<\/b><\/h2>\n<p>Tamb\u00e9m faz parte das regi\u00f5es mais pobres e violentas de Lima o bairro El Salvador, local onde foi constru\u00edda a Vila dos Atletas e o Gin\u00e1sio Poliesportivo, que recebeu a gin\u00e1stica r\u00edtmica e, agora, o r\u00fagbi em cadeira de rodas. \u201c\u00c9 um orgulho ser um volunt\u00e1rio. Nunca imaginei que um dia ajudaria o meu pa\u00eds a crescer no esporte\u201d, comentou o morador local Diego Mendonza, 18 anos, enquanto ajudava a organizar a fila para os visitantes que assistiriam ao jogo entre Brasil e Canad\u00e1 pelas semifinais do r\u00fagbi em cadeira de rodas do Parapan-2019.<\/p>\n<p>Sorridente, Diego compartilhou o tom de esperan\u00e7a que paira sobre a vizinhan\u00e7a: \u201cA competi\u00e7\u00e3o far\u00e1 muito bem ao nosso distrito daqui em diante. Antes, El Salvador tinha sido catalogado como o distrito mais perigoso de Lima, mas isso vai mudar muito\u201d. Enquanto a Villa Mar\u00eda del Triunfo foi classificada pela Pol\u00edcia Nacional do Peru, em junho, como o 69\u00ba distrito mais perigoso do pa\u00eds, El Salvador ficou na 23\u00aa posi\u00e7\u00e3o da lista que ranqueou 120 regi\u00f5es. Todas as instala\u00e7\u00f5es levantadas para os Jogos de Lima s\u00e3o permanentes e, segundo o Comit\u00ea Organizador e o governo peruano, ser\u00e3o usadas para promover o desenvolvimento local e esportivo ap\u00f3s os eventos.<\/p>\n<p>Com uma popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o numerosa quanto a Villa Mar\u00eda del Triunfo, El Salvador \u00e9 o 34\u00ba no ranking do \u00edndice de desenvolvimento humano dos 43 distritos de Lima. Composta por maioria de mesti\u00e7os e qu\u00e9chuas, a principal etnia ind\u00edgena do pa\u00eds, a regi\u00e3o come\u00e7ou a ser povoada no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970 com invas\u00f5es e, em 2000, se tornou o principal s\u00edmbolo de pobreza urbana peruana.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s receber o maior evento esportivo da hist\u00f3ria do Peru, por\u00e9m, a expectativa \u00e9 de mudan\u00e7as. Tanto que o governo nacional aprovou uma lei para que todos os peruanos que conquistarem medalha no Pan ou no Parapan ganhar\u00e3o um apartamento na Vila dos Atletas, que foi constru\u00edda em um terreno vazio e conta com recursos de acessibilidade. O objetivo \u00e9 compensar o esfor\u00e7o dos atletas peruanos. H\u00e1 ainda a promessa de que as resid\u00eancias da Vila Pan-Americana que n\u00e3o forem ocupadas por atletas sejam vendidas a pre\u00e7os acess\u00edveis.<\/p>\n<h2><b>Como as instala\u00e7\u00f5es ficam depois?<\/b><\/h2>\n<p>\u201cAs instala\u00e7\u00f5es seguem sendo mantidas pelo comit\u00ea organizador at\u00e9 dezembro de 2019\u201d, afirmou Lucha Villar, presidente do Comit\u00ea Paral\u00edmpico do Peru. Depois, a gest\u00e3o do complexo Villa Mar\u00eda del Triunfo, por exemplo, ser\u00e1 assumida pelo Instituto Peruano de Esportes (IPD, na sigla em espanhol). A meta da nova gest\u00e3o ser\u00e1 promover a massifica\u00e7\u00e3o das modalidades esportivas que o local recebeu durante os Jogos.<\/p>\n<p>Um plano de legado, desenvolvido desde 2017 pelo governo do Peru com o apoio do governo do Reino Unido, tinha como proposta levar as instala\u00e7\u00f5es esportivas para \u00e1reas da regi\u00e3o metropolitana de Lima, que inclui os bairros de San Luis, San Miguel e Callao, al\u00e9m da Villa Maria del Triunfo e El Salvador. \u201cIsso \u00e9 um ganho, se pensar a longo prazo e \u00e9 fundamental. Onde precisa de mais instala\u00e7\u00f5es esportivas para o legado? Nessas comunidades. N\u00e3o adianta levar onde as pessoas s\u00e3o s\u00f3cias de clube, frequentam academia\u201d, defendeu Andrew Parsons, presidente do Comit\u00ea Paral\u00edmpico Internacional (IPC, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>\u201cAlgumas pessoas ainda vieram lamentar sobre o local das disputas do futebol de 7, por ser cercado de comunidades, de favela. Mas isso \u00e9 legado\u201d, refor\u00e7ou Parsons, sobre o complexo da Villa Mar\u00eda del Triunfo, onde j\u00e1 existia quadras esportivas e passou por melhorias consider\u00e1veis. A quest\u00e3o primordial apontada pelo presidente do IPC \u00e9 que seja oferecido servi\u00e7os, com professores e infraestrutura. \u201cPara n\u00e3o ser s\u00f3 uma instala\u00e7\u00e3o esportiva e virar um lugar onde as crian\u00e7as joguem bola. \u00c9 importante que seja um lugar onde se aprenda valores.<\/p>\n<p><em><strong>*A rep\u00f3rter viajou a convite do Comit\u00ea Paral\u00edmpico Brasileiro<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima (Peru)\u00a0\u2014\u00a0Duas vezes melhor do mundo no futebol de 5 (modalidade praticada por cegos e pessoas com baixa vis\u00e3o), o brasileiro Ricardinho busca o quarto t\u00edtulo com a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira nos Jogos Parapan-Americanos de Lima-2019. 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