{"id":5340,"date":"2020-08-14T11:11:02","date_gmt":"2020-08-14T14:11:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/?p=5340"},"modified":"2020-08-14T11:17:18","modified_gmt":"2020-08-14T14:17:18","slug":"mulhres-negras-olimpiadas-rio-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/mulhres-negras-olimpiadas-rio-2016\/","title":{"rendered":"H\u00e1 4 anos, Olimp\u00edadas do Rio-2016 viviam protagonismo de mulheres negras"},"content":{"rendered":"<p>O primeiro ouro brasileiro nos Jogos Ol\u00edmpicos do Rio de Janeiro, em 2016, foi conquistado por uma mulher. A judoca Rafaela Silva, 24 anos, foi tamb\u00e9m a primeira atleta negra, entre homens e mulheres, a subir ao lugar mais alto do p\u00f3dio na Rio-2016. Depois dela, a norte-americana Simone Manuel, 20, sagrou-se como a primeira negra campe\u00e3 ol\u00edmpica de uma prova individual da nata\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria das Olimp\u00edadas. Ao lado da colega de time Lia Neal, 21, ela fez com que os Estados Unidos tivessem, pela primeira vez, duas nadadoras negras representando o pa\u00eds em uma mesma prova da modalidade\u00a0<span style=\"font-weight: 400\">\u2014\u00a0<\/span>no revezamento 4x100m livre.<\/p>\n<p>&#8220;As mulheres entraram nas Olimp\u00edadas, mas nunca todas as mulheres. Estamos tendo um levante negro, preto, significativo no evento. S\u00e3o mulheres que est\u00e3o se empoderando em espa\u00e7os onde antes nunca haviam ocupado&#8221;, reflete Yordanna Lara Pereira R\u00eago, professora e pesquisadora de rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG).<\/p>\n<p>Um movimento que n\u00e3o foi planejado internamente no Brasil, mas que se reflete de fora para dentro. &#8220;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a mulher preta brasileira que est\u00e1 se empoderando, mas de todo o mundo e as Olimp\u00edadas evidenciam isso, o que se torna uma porta importante&#8221;, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>&#8220;Talvez os organizadores e o poder p\u00fablico n\u00e3o tenham a dimens\u00e3o da ajuda e da colabora\u00e7\u00e3o que eles dar\u00e3o no combate ao racismo, na integra\u00e7\u00e3o do negro no contexto nacional&#8221;, disse Luislinda Valois, durante as Olimp\u00edadas do Rio, quando ocupava o posto de secret\u00e1ria especial de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial do Brasil. &#8220;\u00c9 uma oportunidade em que toda uma juventude, quer seja preta, branca, azul, amarela, rica, pobre, um se aproxima do outro&#8221;, completou, na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>A vendedora do Rio de Janeiro Rita dos Santos, presente no evento ol\u00edmpico disputado na cidade natal, ressalta que o preconceito existe e, ao ver uma negra conquistando medalha, \u00e9 prova de que h\u00e1 muita gente boa dentro das comunidades. S\u00f3 que elas precisam de apoio e incentivo. &#8220;Se voc\u00ea parar para pensar, a Rafaela Silva come\u00e7ou no jud\u00f4 quando morava na Cidade de Deus, mas teve de sair da favela para conquistar o sonho dela&#8221;, exemplifica Rita. &#8220;Eu sou negra com muito <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/dia-consciencia-negra-atletas-negras\/\">orgulho<\/a>, mas este \u00e9 um assunto que tem de ser mais divulgado&#8221;, cobra.<\/p>\n<p>A professora e tradutora carioca Rane Souza ressalta tratar-se de um problema presente no mundo todo, mas pontua que esta maior visibilidade em um grande evento \u00e9 positiva para o combate ao racismo e \u00e0s desigualdades de g\u00eanero. &#8220;Fortalece a autoestima dos negros, principalmente das crian\u00e7as negras, o que tem resultado concreto de engajar mais negros na luta contra o racismo e na resist\u00eancia e persist\u00eancia para conquistar uma vida melhor&#8221;, justifica.<\/p>\n<p>Para al\u00e7ar esse objetivo, o suporte financeiro \u00e9 essencial. Tema delicado para a maioria dos atletas brasileiros. Na tentativa de minimizar essas barreiras, o Minist\u00e9rio do Esporte implementa o Bolsa Atleta desde 2005. Dividido em seis classifica\u00e7\u00f5es que se distinguem pelos resultados esportivos, o programa de benef\u00edcio individual aos atletas variam de R$ 370 para aqueles das categorias de base e estudantil at\u00e9 quantias maiores referentes ao alto rendimento.<\/p>\n<p>As bolsas de R$ 5 mil a R$ 15 mil comp\u00f5em o n\u00edvel chamado p\u00f3dio, como \u00e9 o caso da judoca Rafaela Silva. J\u00e1 as jogadoras de futebol Formiga e Cristiane, por exemplo, se enquadram no n\u00edvel &#8220;ol\u00edmpico&#8221; (R$ 3.100) e &#8220;nacional&#8221; (R$ 925). Dos 465 atletas da delega\u00e7\u00e3o brasileira que estiveram nos Jogos do Rio, 77% disputaram a competi\u00e7\u00e3o como benefici\u00e1rios da Bolsa-Atleta.<\/p>\n<h3><strong>Somos Simone, Rafaela e Marta<\/strong><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5341\" aria-describedby=\"caption-attachment-5341\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5341 size-full\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2020\/08\/RafaelaSilvaOuro2016-e1597412530904.jpg\" alt=\"Rafaela Silva, campe\u00e3 ol\u00edmpica de judo nas Olimp\u00edadas do Rio-2016: representatividade negra\" width=\"750\" height=\"422\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5341\" class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/www.mg.superesportes.com.br\/app\/noticias\/especiais\/olimpiadas\/jogos2016\/jogos2016-noticias\/2016\/08\/08\/noticia-jogos2016,342911\/a-macaca-que-tinha-que-estar-na-jaula-hoje-e-campea-olimpica-desabafa-rafaela-apos-vitoria-no-judo.shtml\">&#8220;A macaca que tinha que estar na jaula hoje \u00e9 campe\u00e3 ol\u00edmpica&#8221;<\/a>, desabafou Rafaela Silva | Toshifumi Kitamura\/AFP Photo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na gin\u00e1stica art\u00edstica, a Cidade Maravilhosa foi palco de outra representante da causa negra que, no auge dos 19 anos, impressionou o mundo n\u00e3o apenas pelas maravilhas acrob\u00e1ticas que apresentou, mas pela personalidade forte. Na primeira participa\u00e7\u00e3o ol\u00edmpica de Simone Biles, a norte-americana j\u00e1 levou tr\u00eas ouros e est\u00e1 cotada como a maior ginasta de todos os tempos. Alvo de compara\u00e7\u00f5es a \u00eddolos de outras modalidades (homens, por sinal), ela foi categ\u00f3rica: &#8220;N\u00e3o sou a pr\u00f3xima Bolt ou Phelps. Sou a primeira Simone Biles&#8221;.<\/p>\n<p>Talvez fosse a rela\u00e7\u00e3o que Marta quisesse fugir ao ser comparada com Pel\u00e9 ou Neymar. Para a pesquisadora de a\u00e7\u00f5es afirmativas da UFG Yordanna R\u00eago, h\u00e1 um levante machista dentro do movimento de maior visibilidade \u00e0s mulheres negras. &#8220;A Marta \u00e9 o Pel\u00e9 do futebol e n\u00e3o a Marta em si. Parece que para elevar o feito delas \u00e9 preciso associ\u00e1-lo ao de um homem&#8221;, explica.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Nada de uma nova Usain Bolt ou Michael Phels, nem nova Pel\u00e9 ou Neymar, o mundo espera por talentosas Simones, Rafaelas, Martas, Formigas, B\u00e1rbaras e tantas outras.<\/strong><br \/>\n<strong><br \/>\n<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<h3><strong>Mulheres pela igualdade<\/strong><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_807\" aria-describedby=\"caption-attachment-807\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-807\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/11\/SIMONE.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/11\/SIMONE.jpg 650w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/11\/SIMONE-300x185.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/11\/SIMONE-550x338.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2017\/11\/SIMONE-230x142.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-807\" class=\"wp-caption-text\">Simone Billes estreou nas Olimp\u00edadas com 5 medalhas, sendo 4 de ouro\u00a0| AFP\/Toshifumi Kitamura<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m de negras, as talentosas atletas que despertaram o encanto dos torcedores na Rio-2016 s\u00e3o mulheres. A Rio-2016 tem recorde de participa\u00e7\u00e3o feminina nos Jogos Ol\u00edmpicos: 4,7 mil esportistas. No entanto, n\u00e3o atingiram a igualdade de g\u00eanero desde as primeiras Olimp\u00edadas da Era Moderna, em que as mulheres foram proibidas de participar dos Jogos de Atenas-1896. No Rio, elas representam 45% do total de atletas na competi\u00e7\u00e3o. A primeira participa\u00e7\u00e3o feminina ol\u00edmpica foi em Paris-1900, quando tiveram 22 representantes diante de um total de 977 competidores.<\/p>\n<p>No esporte, elas recebem sal\u00e1rios e premia\u00e7\u00f5es muito abaixo dos homens nas mesmas competi\u00e7\u00f5es. Mesmo nas exce\u00e7\u00f5es &#8212; como o Grand Slam de Roland Garros &#8211;, o tema n\u00e3o escapa de pol\u00eamicas, como a protagonizada pelo tenista Novak Djokovic neste ano. Depois de dizer que os torneios masculinos t\u00eam maior visibilidade e, por isso, acredita que os homens deveriam ganhar mais, ele pediu desculpas. Mas h\u00e1 os que colaboram com a causa, como o tenista <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/racismo-genero-esporte-posicionamento\/\">Andy Murray<\/a>.<\/p>\n<p>A representatividade das mulheres abre portas para fomentar o debate sobre os percal\u00e7os enfrentados pelas esportistas e sobre a cultura do estupro. V\u00edtima de agress\u00f5es pelas redes sociais, a nadadora Joanna Maranh\u00e3o denunciou a viol\u00eancia sofrida e acabou dando maior visibilidade ao combate do crime. O mesmo efeito de reflex\u00e3o para a sociedade brasileira e mundial, j\u00e1 que se trata do evento multi-esportivo mais importante do mundo, foram dois boxeadores, um do Marrocos e outro da Nam\u00edbia, presos por suspeita de estupro a camareiras na Vila Ol\u00edmpica.<\/p>\n<h3>\n<strong>Maioria na dele\u00e7\u00e3o dos EUA e da China<\/strong><\/h3>\n<p>Os ganhos na igualdade de g\u00eanero s\u00e3o sutis, mas simb\u00f3licos. As duas maiores pot\u00eancias ol\u00edmpicas vieram para a capital carioca com maioria feminina. A delega\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos \u00e9 composta por 52,6% (292 atletas) de mulheres e a da China conta com porcentagem ainda maior: 61,5% (256). No Time Brasil, dos 465 atletas, 209 s\u00e3o mulheres (45%).<\/p>\n<p>J\u00e1 que durante o calend\u00e1rio tradicional das competi\u00e7\u00f5es esportivas, a audi\u00eancia acaba concentrada nos torneios masculinos na maioria das modalidades, que as Olimp\u00edadas sejam o espa\u00e7o delas mostrarem seu valor. Desiludidos pelas m\u00e1s apresenta\u00e7\u00f5es da Sele\u00e7\u00e3o masculina de futebol, os brasileiros encontraram alento na determina\u00e7\u00e3o de Marta, Formiga, B\u00e1rbara e Cia. &#8220;Elas jogam em outras \u00e9pocas do ano que n\u00e3o s\u00f3 Olimp\u00edadas e ningu\u00e9m d\u00e1 valor. Nos Jogos, pelo menos, \u00e9 a chance de ver as mulheres jogarem, porque o futebol feminino n\u00e3o \u00e9 divulgado&#8221;, lamenta a vendedora Rita dos Santos.<\/p>\n<p>Na vit\u00f3ria nos p\u00eanaltis que garantiu a classifica\u00e7\u00e3o do Brasil para a semifinal ol\u00edmpica entre as mulheres, a equipe foi respons\u00e1vel por atrair o maior p\u00fablico do Mineir\u00e3o deste ano: 52.660 pagantes. E, para abrilhantar mais ainda a causa, foi a goleira B\u00e1rbara, de pele negra e olhos verdes, que saiu ovacionada como a hero\u00edna da fa\u00e7anha. Na Cidade Maravilhosa, um grande aglomerado de pessoas se concentrou em diferentes pontos da Zona Portu\u00e1ria, localizada no centro do Rio, vidrados nos tel\u00f5es. At\u00e9 poucos anos, era dif\u00edcil imaginar tantos brasileiros reunidos para ver uma partida de futebol feminino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*Reportagem veiculada em 15\/8\/2016 no Correio Braziliense, como parte da cobertura dos Jogos Ol\u00edmpicos do Rio-2016<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro ouro brasileiro nos Jogos Ol\u00edmpicos do Rio de Janeiro, em 2016, foi conquistado por uma mulher. A judoca Rafaela Silva, 24 anos, foi tamb\u00e9m a primeira atleta negra, entre homens e mulheres, a subir ao lugar mais alto do p\u00f3dio na Rio-2016. 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