{"id":5571,"date":"2020-11-07T11:49:02","date_gmt":"2020-11-07T14:49:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/?p=5571"},"modified":"2020-11-16T08:09:50","modified_gmt":"2020-11-16T11:09:50","slug":"jogadoras-cresspom-denunciam-falta-pagamentos-salariais-futebol-df","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/elasnoataque\/jogadoras-cresspom-denunciam-falta-pagamentos-salariais-futebol-df\/","title":{"rendered":"Ex-jogadoras do Cresspom denunciam calote, contratos prec\u00e1rios e alimenta\u00e7\u00e3o inadequada"},"content":{"rendered":"<p>O sonho \u00e9 o combust\u00edvel inicial para qualquer esporte. No futebol feminino, ainda muito marcado pelo amadorismo, muitas jogadoras apostam as fichas em uma oportunidade de disputar competi\u00e7\u00f5es oficiais e acabam ref\u00e9ns de alguns clubes. O <strong>Elas no Ataque<\/strong> ouviu mais de 10 ex-jogadoras do Cresspom (Clube Recreativo e Esportivo de Sub-Tenentes e Sargentos da Pol\u00edcia Militar do Distrito Federal), um dos mais tradicionais de Bras\u00edlia, que relataram n\u00e3o terem recebido integralmente os valores combinados pelo per\u00edodo em que defenderam a equipe no Campeonato Brasileiro A2 ou no Campeonato Brasiliense, entre 2017 e 2019.<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 T\u00e2nia Maranh\u00e3o, dona de duas medalhas de prata ol\u00edmpicas e com uma longa hist\u00f3ria no futebol feminino. A zagueira chegou ao time em fevereiro do ano passado, como um refor\u00e7o de peso para a disputa do Campeonato Brasileiro A2. Mais de um ano depois, a maranhense alega que o clube mant\u00e9m d\u00edvidas relativas ao pagamento de sal\u00e1rios e direitos trabalhistas.<\/p>\n<p>Aos 46 anos, T\u00e2nia Maranh\u00e3o segue atuando dentro e fora de campo. Pelo Foz do Igua\u00e7u-PR, marcou um lindo gol de falta na vit\u00f3ria sobre o Atl\u00e9tico-GO, por 4 x 0, no \u00faltimo domingo. O resultado manteve viva a esperan\u00e7a do time paranaense de se classificar para a pr\u00f3xima fase do Brasileiro A2. Na Justi\u00e7a, ela ingressou com uma a\u00e7\u00e3o trabalhista contra o Cresspom, requerendo o pagamento dos sal\u00e1rios atrasados, as verbas rescis\u00f3rias (multa de 40% sobre o valor depositado no FGTS, aviso-pr\u00e9vio, f\u00e9rias proporcionais) e a multa contratual.<\/p>\n<p>As queixas contra o time de Bras\u00edlia n\u00e3o param por a\u00ed. Mesmo diante do receio de ter a carreira no futebol prejudicada, a meia Taiana Almeida Silva foi outra jogadora que entrou com uma a\u00e7\u00e3o trabalhista na Justi\u00e7a contra o Cresspom. A atleta baiana chegou a Bras\u00edlia em mar\u00e7o de 2019, com um documento nomeado de \u201ccontrato de atleta n\u00e3o profissional\u201d.<\/p>\n<p>Nele estava escrito que o objetivo era contratar a jogadora amadora para atuar em todos os campeonatos em que o Cresspom participasse durante 2019, com um valor mensal especificado. O documento, ao qual a reportagem teve acesso, tinha a assinatura do presidente do clube, Pedro Rodrigues de Carvalho. \u201cFoi uma forma de ter certeza que ele iria me pagar. Mas n\u00e3o adiantou nada\u201d, relata Taiana. Ao blog, o dirigente negou envolvimento: \u201cEu n\u00e3o assinei. Algu\u00e9m deve ter assinado por mim.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\"><strong>\u201cEu s\u00f3 quero que ele cumpra o compromisso comigo e que isso n\u00e3o ocorra mais com nenhuma atleta. Ele precisa ser barrado, punido e ter mais respeito com o futebol feminino\u201d <\/strong><br \/>\nTaiana Almeida, ex-meia do Cresspom<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Carvalho diz que, por ser um clube amador, ningu\u00e9m no time do Cresspom recebe sal\u00e1rio. Al\u00e9m de alegar n\u00e3o existir v\u00ednculo empregat\u00edcio com as atletas, a defesa do clube afirma que tudo o que foi acordado com elas est\u00e1 quitado. Para o advogado Welder Fernandes, trata-se de uma discuss\u00e3o jur\u00eddica. \u201cA Lei Pel\u00e9 tem a exig\u00eancia de um contrato desportivo, mas quando se trata de atletas profissionais. O futebol feminino no Brasil, infelizmente, \u00e9 amador. O que \u00e9 pago pelo Cresspom \u00e9 uma ajuda de custo.\u201d<\/p>\n<p>Questionado sobre o documento com o valor mensal especificado a ser pago para uma das atletas jogar em todas as competi\u00e7\u00f5es disputadas pelo Cresspom em 2019, o advogado reconhece que algumas jogadoras experientes e com mais hist\u00f3ria no futebol exigem ter um documento do clube com assinatura. \u201cMas, no documento, n\u00e3o est\u00e1 escrito sal\u00e1rio. Valor por m\u00eas n\u00e3o necessariamente \u00e9 um sal\u00e1rio, pode ser relativo \u00e0 quantia da ajuda de custo\u201d, argumenta Fernandes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Advogado alega quebra de contrato<\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s dois meses no Cresspom, Taiana foi visitar a m\u00e3e em Salvador, durante a folga que o elenco ganhou ap\u00f3s a elimina\u00e7\u00e3o no Brasileiro A2. Ela conta que avisou o presidente que voltaria ap\u00f3s passar o Dia das M\u00e3es e que cobrou o sal\u00e1rio de maio, que estava atrasado. \u201cEstava mantendo contato com o Carvalho, mas a capit\u00e3 me tirou do grupo do time em 2 de junho, sem eu entender. Desse dia para c\u00e1, n\u00e3o consegui falar mais com o presidente, que visualiza minhas mensagens e n\u00e3o me responde. Com o t\u00e9cnico \u00e9 a mesma coisa. Falei com a agente que\u00a0me indicou para o clube e ela n\u00e3o sabia tamb\u00e9m\u201d, conta.<\/p>\n<p>Carlos Eduardo Lopes Gon\u00e7alves, advogado que representa a atleta, analisa que houve uma esp\u00e9cie de quebra de contrato, pois no documento estava especificado que ela jogaria pelo Cresspom at\u00e9 dezembro de 2019. Para ele, o receio que muitas atletas t\u00eam de ingressar na Justi\u00e7a deve-se ao futebol brasileiro ainda ser administrado de forma bastante amadora, principalmente no feminino. \u201cMas a realidade \u00e9 que a modalidade est\u00e1 cada vez mais profissional e as atletas tamb\u00e9m\u201d, opina.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\"><strong>\u201cA gente s\u00f3 consegue mudar uma cultura quando come\u00e7a a lutar pelos nossos direitos\u201d<\/strong><br \/>\nCarlos Eduardo Lopes Gon\u00e7alves, advogado das atletas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na vers\u00e3o do presidente do clube, Taiana abandonou o time. Carvalho disse que nunca ningu\u00e9m o procurou.\u00a0 Mas a reportagem teve acesso a mensagens de texto em que o dirigente n\u00e3o responde aos questionamentos feitos pela atleta em quatro dias diferentes. Procurado pela reportagem, o t\u00e9cnico da equipe, Robson Marinho, apenas recomendou checar as informa\u00e7\u00f5es com a dire\u00e7\u00e3o do clube. Outra atleta relatou experi\u00eancia similar, em que n\u00e3o foi comunicada sobre o desligamento e que isso teria a feito perder a oportunidade de tentar uma vaga que havia aparecido em um time do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O diretor de futebol da Federa\u00e7\u00e3o de Futebol do Distrito Federal (FFDF), M\u00e1rcio Coutinho, disse que a entidade n\u00e3o tinha conhecimento sobre o caso: \u201c\u00c9 a primeira vez que essas informa\u00e7\u00f5es chegam ao nosso conhecimento. N\u00e3o tem como a federa\u00e7\u00e3o fazer algo, porque n\u00e3o temos inger\u00eancia financeira ou de gest\u00e3o sobre o clube\u201d. A Pol\u00edcia Militar do Distrito Federal tamb\u00e9m explicou n\u00e3o ter \u201cinger\u00eancia sobre esse fato\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Atletas com acordos prec\u00e1rios<\/strong><\/h3>\n<p>Assim como T\u00e2nia e Taiana, a maioria das jogadoras que defenderam o Cresspom, entre 2017 e 2019, n\u00e3o \u00e9 de Bras\u00edlia. As autoras dos relatos tinham de 16 a 45 anos de idade, quando deixaram os estados onde moravam \u2014 Cear\u00e1, Rio de Janeiro, Minas Geris,\u00a0S\u00e3o Paulo e Bahia \u2014 para jogar\u00a0no time com mais t\u00edtulos do Campeonato Brasiliense Feminino \u2014\u00a0sete no total.<\/p>\n<p>O Cresspom tamb\u00e9m esteve inserido no cen\u00e1rio nacional. Disputou por sete vezes a extinta Copa do Brasil, que durou de 2007 a 2016.\u00a0 Na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o\u00a0do campeonato, fez a melhor\u00a0campanha do clube, chegando \u00e0s semifinais.Em 2017 e 2019, o Cresspom representou o Distrito Federal na segunda divis\u00e3o do Brasileir\u00e3o\u00a0Feminino.<\/p>\n<p>Algumas das jogadoras chegaram ao clube por indica\u00e7\u00e3o de agente, outras por recomenda\u00e7\u00e3o de colegas do futebol,\u00a0mas, em todos os casos ouvidos pela reportagem, o acordo do clube foi feito diretamente com a atleta por meio do presidente da associa\u00e7\u00e3o, Pedro Rodrigues Carvalho, no cargo h\u00e1 27 anos. A volante Shaiane lamenta por n\u00e3o ter assinado nenhum contrato quando foi jogar no Cresspom, em junho de 2018: &#8220;Agora n\u00e3o tenho como provar o que ele me deve&#8221;.<\/p>\n<p>Em geral, o acerto entre o clube e as jogadoras inclu\u00eda, ao menos, a passagem de ida da cidade onde morava at\u00e9 Bras\u00edlia e valores mensais que variam de R$ 1 mil a R$ 5 mil. Tamb\u00e9m entravam no pacote a possibilidade de ficar no alojamento, alimenta\u00e7\u00e3o, treinamentos e academia, tudo dentro do pr\u00f3prio clube, al\u00e9m do pagamento da faculdade para as interessadas em fazer um curso superior. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, as atletas relatam que o pagamento dos sal\u00e1rios n\u00e3o foi completamente quitado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s tr\u00eas meses recebendo apenas a metade do valor combinado, uma atleta de 19 anos contou que a m\u00e3e comprou a passagem para ela voltar para a cidade onde morava com os pais antes.\u00a0As jogadoras contam que cobravam com frequ\u00eancia o presidente do clube. \u201cO Carvalho jogava na minha cara que pagava a faculdade e n\u00e3o precisava pagar mais nada\u201d, reclamou outra atleta. Outra esportista conta que uma amiga indicada por ela para jogar no Cresspom ficou com o nome sujo na faculdade, \u201cporque o Carvalho n\u00e3o pagou a mensalidade como prometido\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Moradia e alimenta\u00e7\u00e3o inadequadas<\/strong><\/h3>\n<p>Sem o recebimento do dinheiro combinado e sem fam\u00edlia em Bras\u00edlia, as jogadoras acabavam voltando para as respectivas cidades e passavam a ser ignoradas pelo presidente nas tentativas de cobr\u00e1-lo.\u00a0\u201cO Carvalho move mundos e fundos para a gente ir para l\u00e1 e depois nos larga e n\u00e3o atende liga\u00e7\u00e3o nem responde mensagem\u201d, critica a lateral\u00a0Sarah Silva Moraes de Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A jogadora esteve por quatro meses no Cresspom para a disputa do Candang\u00e3o feminino de 2019.\u00a0 Ela diz que n\u00e3o recebeu o equivalente a tr\u00eas meses e ainda lamenta a falta de assist\u00eancia ap\u00f3s ter sofrido uma les\u00e3o no ombro.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\"><strong>&#8220;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a frustra\u00e7\u00e3o pelo dinheiro, mas pelos sonhos&#8221;<\/strong><br \/>\nSarah Assun\u00e7\u00e3o, ex-lateral do Cresspom<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u201cO mais feio \u00e9 que ele fica devendo as atletas e continua contratando mais jogadoras\u201d, lamenta uma das atletas. As reclama\u00e7\u00f5es ainda abrangem moradia e alimenta\u00e7\u00e3o inadequadas para esportistas de alto rendimento. \u201cLanche da tarde era leite, achocolatado e bolacha. No caf\u00e9 da manh\u00e3, tinham essas coisas e mais o saco de p\u00e3o. Peg\u00e1vamos o jantar na hora do almo\u00e7o para comer mais tarde\u201d, relata uma jogadora, que tinha 18 anos quando chegou ao Cresspom.<\/p>\n<p>O t\u00e9cnico Marinho, no entanto, rebate as declara\u00e7\u00f5es das atletas. \u201cEu asseguro que tanto alojamento quanto alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o ideais\u201d. Carvalho tamb\u00e9m \u00e9 contundente em descrever a estrutura do clube.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\"><strong>\u201cGin\u00e1sio, alojamento, campo. \u00c9 tudo dentro do clube. A atleta n\u00e3o precisa fazer comida dentro do clube. Tenho atleta que fez dois cursos superiores comigo e mora l\u00e1 at\u00e9 hoje. Eu sempre ajudo quando me pedem, ajudo com medicamentos para fam\u00edlia\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Carvalho, presidente do Cresspom<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sonho \u00e9 o combust\u00edvel inicial para qualquer esporte. No futebol feminino, ainda muito marcado pelo amadorismo, muitas jogadoras apostam as fichas em uma oportunidade de disputar competi\u00e7\u00f5es oficiais e acabam ref\u00e9ns de alguns clubes. 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