{"id":185,"date":"2018-01-15T04:07:44","date_gmt":"2018-01-15T06:07:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/?p=185"},"modified":"2018-01-15T11:23:48","modified_gmt":"2018-01-15T13:23:48","slug":"memorias-de-um-estupro-anunciado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/memorias-de-um-estupro-anunciado\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de um estupro anunciado"},"content":{"rendered":"<h2>Sobre as 100 francesas, a machopatia e a cumplicidade<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_186\" aria-describedby=\"caption-attachment-186\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-186 size-full\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/BBC-Be\u0301lgica.jpeg\" alt=\"Exposi\u00e7\u00e3o mostra roupas &quot;normais&quot; de v\u00edtimas de estupro no dia em que sofreram o ataque. Em 2016, uma pesquisa do Datafolha encomendada pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica mostrou que mais de um ter\u00e7o dos brasileiros acredita que &quot;mulheres que se d\u00e3o ao respeito n\u00e3o s\u00e3o estupradas&quot;. No mesmo estudo, 30% disseram que &quot;mulher que usa roupas provocativas n\u00e3o pode reclamar se for estuprada&quot;. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o CAW East Brabant.\" width=\"660\" height=\"371\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/BBC-Be\u0301lgica.jpeg 660w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/BBC-Be\u0301lgica-300x169.jpeg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/BBC-Be\u0301lgica-550x309.jpeg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/BBC-Be\u0301lgica-230x129.jpeg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-186\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o montada recentemente em Bruxelas (B\u00e9lgica) mostra roupas que seriam &#8220;normais&#8221; de v\u00edtimas de estupro, no dia em que sofreram o ataque. Em 2016, <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-42643532?ocid=socialflow_facebook\">uma pesquisa do Datafolha<\/a>, encomendada pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, mostrou que mais de um ter\u00e7o da sociedade brasileira acredita que &#8220;mulheres que se d\u00e3o ao respeito n\u00e3o s\u00e3o estupradas&#8221;. No mesmo estudo, 30% disseram que &#8220;mulher que usa roupas provocativas n\u00e3o pode reclamar se for estuprada&#8221;.\u00a0 <em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o CAW East Brabant<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Em fins de novembro passado, eu cheguei em Paris para aproveitar a \u00faltima semana de uma longa viagem (de trabalho, semin\u00e1rios e passeios) de 40 dias \u00e0 Europa. Eram quase 22h e eu havia acabado de encontrar uma amiga brasileira em um caf\u00e9, perto da esta\u00e7\u00e3o Denfert-Rochereau (a parada do metr\u00f4 que d\u00e1 acesso \u00e0s famosas <em>Catacombes de Paris<\/em>). Dali, eu teria que trocar uma ou duas vezes de linha para chegar ao meu destino. Quem conhece Paris, sabe que seu transporte p\u00fablico \u00e9 um dos mais eficientes do mundo. Entretanto, o metr\u00f4 \u00e9 um labirinto de linhas e extenuantes corredores sob a terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O sistema do \u201cMetropolitan\u201d vai a todos os lugares e comp\u00f5e uma verdadeira e imensa cidade subterr\u00e2nea, frequentada por centenas de milhares de pessoas, noite e dia, sete dias por semana. Em uma das trocas de linha, fiquei em d\u00favida sobre para qual lado deveria seguir, e terminei por abordar um homem, de uns 40 anos, para perguntar qual seria a dire\u00e7\u00e3o para a tal esta\u00e7\u00e3o que eu queria. Ele foi sol\u00edcito em ajudar-me.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Intrigado pelo meu sotaque, perguntou de onde eu era. Br\u00e9sil, respondi. Parece ter sido a senha para que o tipo mudasse o comportamento, normalmente contido e reservado de franceses e francesas (e que perpassa a maioria dos milh\u00f5es de imigrantes que vive em Paris). No entanto, mundo afora, toda mulher brasileira que reside no exterior sabe ser fort\u00edssimo o estere\u00f3tipo constru\u00eddo (por nossas pr\u00f3prias empresas midi\u00e1ticas e\/ou de turismo) sobre os corpos, cora\u00e7\u00f5es e mentes das brasileiras. Via de regra, somos rotuladas como prostitutas, ou mulheres \u201cfacinhas\u201d, que sambam ou dan\u00e7am com seios e bundas desnudas para o mundo ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O desconhecido come\u00e7ou a seguir-me pelas infind\u00e1veis rotas quilom\u00e9tricas daqueles subterr\u00e2neos. Incomodada, eu agradeci e desvencilhei-me, apertando o passo. Pensei que havia me livrado dele. Qual n\u00e3o foi minha surpresa quando deparei-me com o cara na outra linha do metr\u00f4, ap\u00f3s ter feito a troca para a nova dire\u00e7\u00e3o. Ele saltou na mesma esta\u00e7\u00e3o que havia me indicado e passou a me seguir. Insistiu, abordou-me, e perguntou para qual hotel ou resid\u00eancia eu iria, quanto tempo eu ficaria em Paris etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O ass\u00e9dio abusivo estava claro e meu sangue ferveu. Soltei um grito daqueles que ressoam alto, especialmente em uma esta\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea. O homem amarrou a cara e seguiu apressado seu caminho, como o estranho que de fato era. Respirei aliviada. Foi a melhor coisa que fiz. Mesmo sendo um hor\u00e1rio mais calmo, ainda havia bastante gente nas esta\u00e7\u00f5es. Imagino que se fosse um pouco mais tarde, ou se aquela fosse uma esta\u00e7\u00e3o menos movimentada, eu teria corrido um risco real de abuso, viol\u00eancia, qui\u00e7\u00e1 de estupro ou sabe-se l\u00e1 o que aquele homem teria em mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">J\u00e1 sofri tais ass\u00e9dios aqui no Brasil e em outros pa\u00edses onde morei ou passeei. Os desfechos s\u00e3o imprevis\u00edveis. Todas as situa\u00e7\u00f5es parecem roteiros de um filme. Em geral sabemos, n\u00f3s mulheres, por instinto criado em abusos perpassados por gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es, que o final pode ser o pior, caso n\u00e3o tenhamos a rea\u00e7\u00e3o correta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Todo este relato, que eu sequer havia contado \u00e0s pessoas mais pr\u00f3ximas a mim, at\u00e9 para n\u00e3o estragar as outras (belas) hist\u00f3rias das minhas andan\u00e7as, agora torno p\u00fablico para carimbar e passar o atestado da minha indigna\u00e7\u00e3o contra o desservi\u00e7o prestado \u00e0s mulheres de todo o globo, ao longo da semana passada, por 100 atrizes e \u201cintelectuais\u201d francesas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_187\" aria-describedby=\"caption-attachment-187\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-187 size-large\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Deneuve-1024x626.jpeg\" alt=\"Catherine Deneuve lidera o manifesto assinado por 100 francesas. Foto: GUILLAUME HORCAJUELO EFE\" width=\"1024\" height=\"626\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Deneuve-1024x626.jpeg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Deneuve-300x184.jpeg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Deneuve-768x470.jpeg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Deneuve-1440x881.jpeg 1440w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Deneuve-550x336.jpeg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Deneuve-230x141.jpeg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Deneuve.jpeg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-187\" class=\"wp-caption-text\">A atriz Catherine Deneuve lidera o manifesto assinado por 100 mulheres francesas. <em>Foto: GUILLAUME HORCAJUELO EFE<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">A veterana e eterna <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Belle_de_jour\">Belle du Jour<\/a> <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/catherine_deneuve\/a\/\">Catherine Deneuve<\/a> est\u00e1 \u00e0 frente do <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/12\/opinion\/1515792486_891199.html?rel=str_articulo#1515967127068\">manifesto<\/a>, bem raso e superficial, diga-se, publicado no jornal franc\u00eas <em>Le Monde<\/em>. O documento <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/09\/cultura\/1515513768_647890.html\">criticou o suposto &#8220;puritanismo sexual&#8221; do movimento #MeToo<\/a> (#EuTamb\u00e9m, iniciado nos Estados Unidos, ou #balancetonporc \u2013 \u201cdenuncia teu porco\u201d, na Fran\u00e7a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No \u201cauge\u201d da cr\u00edtica aos movimentos feministas, ou \u00e0s mulheres que aderem \u00e0s den\u00fancias de seus \u201cporcos chauvinistas\u201d, Mme. Deneuve e as 99 outras signat\u00e1rias do manifesto defendem absurdos como o direito dos homens de \u201cimportunarem\u201d e at\u00e9 tocarem partes dos corpos femininos, sem que haja o consentimento ou a reciprocidade de desejos. Segundo essas mulheres:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">\u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/23\/internacional\/1514062925_944199.html\">Depois do caso Weinstein<\/a>, houve uma leg\u00edtima tomada de consci\u00eancia a respeito da viol\u00eancia sexual exercida contra as mulheres, especialmente no ambiente profissional onde alguns homens abusam do seu poder. Ela era necess\u00e1ria. Mas essa liberta\u00e7\u00e3o da palavra se volta hoje em seu contr\u00e1rio (&#8230;) Na verdade, o #metoo provocou na imprensa e nas <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\/a\">redes sociais<\/a> uma campanha de den\u00fancia e de acusa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de indiv\u00edduos que, sem que lhes tenha sido dada a oportunidade de responder ou de se defender, foram colocados exatamente no mesmo n\u00edvel que os agressores sexuais. Essa justi\u00e7a expeditiva j\u00e1 fez suas v\u00edtimas, homens castigados no exerc\u00edcio de sua profiss\u00e3o, for\u00e7ados a se demitir, etc., quando seu \u00fanico erro foi ter tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falar sobre coisas \u201c\u00edntimas\u201d em um jantar profissional ou ter mandado mensagens com conota\u00e7\u00e3o sexual a uma mulher cuja atra\u00e7\u00e3o n\u00e3o era rec\u00edproca. Essa febre para mandar os \u201cporcos\u201d ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a conquistar sua autonomia, serve na verdade aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacion\u00e1rios e daqueles que acreditam, em nome de uma concep\u00e7\u00e3o substancial do bem e da moral vitoriana que os envolve, que as mulheres s\u00e3o seres \u201c\u00e0 parte\u201d, crian\u00e7as com rosto de adultos, que pedem para ser protegidas (&#8230;)\u201d. (trecho do manifesto publicado no <em>Le Monde<\/em>, 09\/01\/2018)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mais uma vez, n\u00f3s somos transformadas, bipolarmente, em perseguidoras (bruxas ou carrascas) e, ao mesmo tempo, em \u201ccrian\u00e7as com rostos de adultas, que pedem prote\u00e7\u00e3o\u201d. Desta vez, escancaradamente, s\u00e3o outras mulheres que o fazem. E o pior: s\u00e3o mulheres com proje\u00e7\u00e3o internacional. Famosas. Ricas. Glamorosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aquelas que nunca ou raramente t\u00eam que entrar em um transporte p\u00fablico, abarrotado ou n\u00e3o, onde a maioria dos homens sente-se em pleno direito ou \u00e0 vontade para \u201cimportunar\u201d, \u201ctocar\u201d, \u201cassediar\u201d, ou at\u00e9 mesmo estuprar ou ejacular nas mulheres. Tudo sem que sejam incomodados, repreendidos ou presos por seus pares, membros dos poderes judiciais, policiais ou das seguran\u00e7as dos transportes, basicamente, em qualquer lugar do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00e3o mulheres que t\u00eam a sorte de poder escolher seus pap\u00e9is, seus escrit\u00f3rios, suas casas, suas obriga\u00e7\u00f5es e direitos, seus chefes e subordinados\/as, seus pares ou companheiros, sem que passem pelo desconforto ou pelo terror da amea\u00e7a constante, diuturna. Dos ass\u00e9dios, das amea\u00e7as e dos abusos e viol\u00eancias sexuais, morais e\/ou psicol\u00f3gicas. De perderem empregos e fam\u00edlias. De terem suas vidas e\/ou carreiras prejudicadas ou interrompidas por homens machistas e mis\u00f3ginos, inescrupulosos, que se investem de poderes por suporem que elas s\u00e3o suas subordinadas e posses \u201cnaturais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o \u00e9 de um flerte rec\u00edproco ou de uma paquera saud\u00e1vel que se fala. N\u00e3o \u00e9 de uma cantada em um local p\u00fablico ou privado, entre pessoas que se sentem atra\u00eddas e que iniciam uma conversa amig\u00e1vel ou uma troca de olhares e sinais. O ponto n\u00e3o \u00e9 sobre a troca de sorrisos, excita\u00e7\u00e3o e amabilidades entre homens e mulheres, ou entre seres humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os movimentos feministas, aquelas famosas ondas que ocorrem desde o S\u00e9culo 19, ou mesmo em \u00e9pocas mais remotas, e os mais recentes manifestos de \u201cbasta!\u201d nas redes sociais e na imprensa, vindos de atrizes, executivas, acad\u00eamicas e\/ou trabalhadoras comuns \u2013 mulheres que n\u00e3o \u201codeiam\u201d os homens, como querem fazer crer, pelo contr\u00e1rio, tentam e muito a conviv\u00eancia com eles \u2013, s\u00e3o resultados de s\u00e9culos ou mil\u00eanios de abusos e viol\u00eancias contra elas. Nas sociedades patriarcais, perpetua-se uma distor\u00e7\u00e3o, uma doen\u00e7a social que para mim pode ser chamada de machopatia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_188\" aria-describedby=\"caption-attachment-188\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-188 size-large\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Oprah-1024x683.jpeg\" alt=\"Oprah Winfrey faz discurso corajoso e original sobre ass\u00e9dios e racismo na premia\u00e7\u00e3o dos Golden Globes. Foto: Agencia REUTERS\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Oprah-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Oprah-300x200.jpeg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Oprah-768x513.jpeg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Oprah-1440x961.jpeg 1440w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Oprah-550x367.jpeg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Oprah-230x153.jpeg 230w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Oprah.jpeg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-188\" class=\"wp-caption-text\">Oprah Winfrey faz discurso corajoso e original sobre ass\u00e9dios e racismo na premia\u00e7\u00e3o dos <em>Golden Globes<\/em>. <em>Foto: Agencia REUTERS<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse foi o tom das den\u00fancias e rep\u00fadios dos discursos, no \u00e2mbito da campanha <strong>#MeToo<\/strong>, feitos pelas atrizes, diretoras, roteiristas e produtoras, durante a premia\u00e7\u00e3o dos <em>Golden Globes<\/em> (a segunda mais importante do audiovisual <em>mainstream<\/em> dos EUA), no domingo (7). \u00c9 disso que se trata. O caso do poderoso produtor de cinema Harvey Weinstein, que em suma \u00e9 um estuprador em s\u00e9rie, detonou um sem-n\u00famero de relatos contra muitos outros diretores, atores e produtores do mundo audiovisual, e tamb\u00e9m contra altos executivos, chef\u00f5es e chefetes de empresas e ind\u00fastrias, p\u00fablicas ou privadas, em v\u00e1rias partes do globo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 o mundo em transforma\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o h\u00e1 volta poss\u00edvel. Seja porque a consci\u00eancia hoje \u00e9 outra. Seja porque os movimentos das mulheres, ao longo de s\u00e9culos, finalmente est\u00e3o introjetados mais profundamente na carne, nas mentes e nos cora\u00e7\u00f5es. Sim, n\u00e3o h\u00e1 como desfazer o conhecimento profundo de uma situa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 \u00e9 inaceit\u00e1vel h\u00e1 muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sobre as injusti\u00e7as, os crimes, as invisibilidades, as desigualdades em tantos n\u00edveis. A sobrecarga de tarefas e trabalhos n\u00e3o remunerados sobre as mulheres. Os sal\u00e1rios mais baixos. As promo\u00e7\u00f5es que s\u00e3o postergadas ou nunca concedidas. A responsabilidade unilateral sobre a cria\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Os louros e reconhecimentos que v\u00e3o para os homens, quando seriam das mulheres pr\u00f3ximas a eles. A lista \u00e9 imensa. \u00c9 disso que se trata. E cansa e d\u00e1 uma pregui\u00e7a danada quando algumas mulheres, talhadas no machismo e no \u00f3dio contra suas pares, insistem, sim, em serem c\u00famplices nisso tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao lembrar da minha pr\u00f3pria desventura no metr\u00f4 de Paris, que poderia ter ocorrido em qualquer cidade do Brasil ou da Am\u00e9rica Latina <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/09\/08\/internacional\/1410194741_226331.html\">(veja estat\u00edsticas aqui)<\/a>, li e reli com horror o manifesto c\u00famplice das 100 francesas. Em especial, fiquei pasma com o trecho sobre como lidar com os abusos em transportes ou com as desigualdades salariais e de tratamento nas empresas, como se fosse f\u00e1cil. Como se o pouco conquistado pelas mulheres, em nossa contemporaneidade, n\u00e3o fosse o resultado de s\u00e9culos de lutas, sangue, l\u00e1grimas e suor derramados:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 120px\">\u201c(&#8230;) Ela pode zelar para que seu sal\u00e1rio seja igual ao de um homem, mas n\u00e3o pode se sentir traumatizada para sempre por que algu\u00e9m se esfregou nela no metr\u00f4, embora isso seja considerado crime. Ela pode at\u00e9 considerar isso como express\u00e3o de uma grande mis\u00e9ria sexual, ou como um n\u00e3o-acontecimento (&#8230;).\u201d(trecho do manifesto publicado no <em>Le Monde<\/em>, 09\/01\/2018)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Perplexidade. Revolveu-me as entranhas. Tive vontade de mandar a Catherine Deneuve (disfar\u00e7ada de trabalhadora\/mulher comum) passear nos subterr\u00e2neos do metr\u00f4 de sua amada Paris, \u00e0s 22h de uma noite qualquer. Ou na hora da sa\u00edda do trabalho. Quando os transportes est\u00e3o abarrotados, mesmo na charmosa e bela capital francesa, e a gente se sente uma sardinha sendo \u201csarrada\u201d por todos os lados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A\u00ed, que ela precise de uma informa\u00e7\u00e3o e que o homem a \u201cimportune\u201d bastante. Que ele a siga pelos corredores intermin\u00e1veis das esta\u00e7\u00f5es. Finalmente, quando ela estiver preocupada com a situa\u00e7\u00e3o, com horror, e precisar pedir ajuda, e se estiver rouca? E se ela n\u00e3o conseguir gritar nem lutar? Ser\u00e1 que ela se daria o \u201cdever\u201d de \u201cn\u00e3o ficar traumatizada pelo resto da vida\u201d no caso de um abuso, de um estupro, de um espancamento? Do que essas 100 mulheres pensam que est\u00e3o falando? Em que mundo extraterrestre vivem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dentre as muitas louv\u00e1veis respostas dadas \u00e0s 100 equivocadas, destaco duas com as quais me identifiquei de pronto. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/10\/opinion\/1515603361_556237.html?%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM\">Uma \u00e9 de um grupo de mulheres feministas da pr\u00f3pria Fran\u00e7a<\/a>. E a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/12\/opinion\/1515787792_982094.html\">outra \u00e9 de um homem, o colega jornalista Xico S\u00e1<\/a>, que escreve artigos em coluna semanal para o <em>El Pa\u00eds \u2013 Brasil.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As feministas francesas revidam, ponto a ponto, o ataque \u00e0s conquistas e aos movimentos das mulheres:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">\u201cOs porcos e seus (suas) aliado(a)s t\u00eam raz\u00e3o de se inquietar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">Cada vez que os direitos das mulheres progridem, que as consci\u00eancias acordam, as resist\u00eancias aparecem. Em geral, elas tomam a forma de um \u201c\u00e9 verdade, mas&#8230;\u201d. Com diversas militantes feministas, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/09\/cultura\/1515513768_647890.html\">respondemos \u00e0 tribuna do <em>Le Monde<\/em><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">(&#8230;) Nada realmente novo nos argumentos utilizados (pelas 100 signat\u00e1rias do Manifesto). Encontramos os mesmos argumentos no texto publicado no <em>Le Monde<\/em> no trabalho, em torno da m\u00e1quina de caf\u00e9, ou em refei\u00e7\u00f5es familiares. Esta tribuna \u00e9 um pouco o colega inc\u00f4modo ou o tio cansativo que n\u00e3o entende o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">&#8220;Arriscar\u00edamos ir muito longe&#8221;. Sempre que a igualdade avan\u00e7a, mesmo que meio mil\u00edmetro, as boas almas imediatamente nos alertam para o fato de que arriscamos cair no excesso. No excesso, estamos totalmente dentro. \u00c9 aquele do mundo em que vivemos. Na Fran\u00e7a, todos os dias, centenas de milhares de mulheres s\u00e3o v\u00edtimas de ass\u00e9dio. Dezenas de milhares de agress\u00f5es sexuais. E centenas de viola\u00e7\u00f5es. Todos os dias. A caricatura est\u00e1 a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/09\/politica\/1510258952_314771.html\">&#8220;N\u00e3o se pode mais dizer nada&#8221;<\/a>. Como se o fato de nossa sociedade tolerar &#8211; um pouco &#8211; menos do que antes as propostas sexistas, assim como as propostas racistas ou homof\u00f3bicas, fosse um problema. &#8220;Nossa! Era francamente melhor quando pod\u00edamos chamar as mulheres de vagabundas tranquilamente, hein?&#8221;. N\u00e3o. Era pior. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/07\/opinion\/1510088225_560754.html\">A linguagem tem influ\u00eancia no comportamento humano<\/a>: aceitar insultos contra as mulheres significa, na verdade, autorizar as viol\u00eancias. O controle de nossa l\u00edngua \u00e9 um sinal de que nossa sociedade est\u00e1 progredindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">\u201c\u00c9 puritanismo\u201d. Fazer com que as feministas pare\u00e7am travadas ou mesmo mal-amadas: a originalidade das signat\u00e1rias da tribuna \u00e9&#8230; desconcertante. A viol\u00eancia pesa sobre as mulheres. Todas. Pesa sobre nossos esp\u00edritos, nossos corpos, nossos prazeres e nossas sexualidades. Como imaginar, s\u00f3 por um instante, uma sociedade liberada, na qual as mulheres disponham livremente e plenamente de seus corpos e de suas sexualidades, enquanto uma em cada duas declara j\u00e1 ter sofrido viol\u00eancia sexual?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">\u201cN\u00e3o se pode mais paquerar\u201d. As signat\u00e1rias da tribuna misturam deliberadamente uma rela\u00e7\u00e3o de sedu\u00e7\u00e3o, baseada no respeito e no prazer, com uma viol\u00eancia. Misturar tudo \u00e9 pr\u00e1tico. Permite colocar tudo no mesmo saco. No fundo, se o ass\u00e9dio ou a agress\u00e3o s\u00e3o \u201ca paquera pesada\u201d, \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grave. As signat\u00e1rias se enganam. N\u00e3o h\u00e1 uma diferen\u00e7a de grau entre a paquera e o ass\u00e9dio, mas uma diferen\u00e7a de natureza. As viol\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o \u201csedu\u00e7\u00e3o exagerada\u201d. De um lado, considera-se a outra como igual, respeitando seus desejos, quaisquer que sejam. De outro, como um objeto \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, sem ligar para seus pr\u00f3prios desejos nem para o seu consentimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">\u201c\u00c9 responsabilidade das mulheres\u201d. As signat\u00e1rias falam sobre a educa\u00e7\u00e3o a ser dada \u00e0s meninas para que elas n\u00e3o se deixem intimidar. As mulheres s\u00e3o, portanto, designadas como respons\u00e1veis por n\u00e3o serem agredidas. Quando colocaremos a quest\u00e3o da responsabilidade dos homens de n\u00e3o estuprar ou agredir? (&#8230;)\u201d. (Trecho da carta das feministas francesas publicada no <em>Le Monde<\/em>, em 10\/01\/2018) Ver a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/10\/cultura\/1515609248_258352.html\">\u00edntegra da resposta do grupo feminista<\/a>, na tradu\u00e7\u00e3o da fil\u00f3sofa da UFRJ, T<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/04\/politica\/1501799787_669833.html\">atiana Roque<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">J\u00e1 o articulista Xico S\u00e1 d\u00e1 exemplo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 responsabilidade que os homens t\u00eam em assumir o pr\u00f3prio papel nas mudan\u00e7as por uma sociedade mais equilibrada e igualit\u00e1ria. Ali\u00e1s, ele dialoga perfeitamente com a resposta das feministas francesas, quando admite e faz seu <em>mea culpa<\/em> quanto ao pr\u00f3prio machismo abusivo, ao chamar a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de (re) educa\u00e7\u00e3o de meninos e homens (e n\u00e3o a joga em cima das mulheres e meninas!):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">\u201cUma certa macharada ficou hist\u00e9rica com o <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/09\/cultura\/1515513768_647890.html\">manifesto de Catherine Deneuve &amp; grande elenco<\/a>. Parecia um gol de final de campeonato. O <em>saloon<\/em> do Velho Oeste, agora instalado nas <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\/a\">redes sociais<\/a>, veio abaixo \u2014 nem a chegada do pistoleiro Shane ao vale do Wyoming, no filme <em>Os brutos tamb\u00e9m amam<\/em>, foi t\u00e3o zoadenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">A bela de <em>Repulsa ao sexo<\/em> defendeu o direito \u00e0 cantada e criticou o exagero de grupos feministas, nesta mesma semana do <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/08\/album\/1515372947_041133.html\">protesto enlutado em premia\u00e7\u00e3o de Hollywood<\/a>. \u201cN\u00f3s defendemos a liberdade de importunar, indispens\u00e1vel \u00e0 liberdade sexual&#8221;, escreveu. Nos tr\u00f3picos, Danuza Le\u00e3o, no jornal <em>O Globo<\/em>, esquentou ainda mais a chapa: \u201cAcho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos tr\u00eas vezes por semana para ser feliz. Viva os homens.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">A histeria de uma certa rapaziada, c\u00e9lebre ou an\u00f4nima, chamou a aten\u00e7\u00e3o deste cronista envelhecido em barris de carvalho e machismo. O recado da <em>belle de jour<\/em> soou aos ouvidos de milhares de homens como se fosse uma anistia, uma licen\u00e7a para a bandalheira, um \u201cliber\u00f4 geral\u201d, um gol de Copa do Mundo contra o time feminista, um cala-boca nas vozes e hashtags que clamam por igualdade e tratamento digno. AgoraSomosNosPorcosChauvinistas de novo na fita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">Por tr\u00e1s de todo homem \u2014 grande, m\u00e9dio ou pequeno\u00a0\u2014 h\u00e1 uma ficha corrida de viol\u00eancias e ass\u00e9dios criminosos ou machistices de varejo. Nada inocente, confesso o quanto j\u00e1 fui inoportuno, amada S\u00e9verine, digo, Catherine, aqui j\u00e1 confundindo personagem com vida real. O quanto, ao achar que estava dando apenas uma cantada, ave!, importunava miseravelmente \u2014 alcoolizado ou n\u00e3o, pouco importa. E haja ressaca moral na solid\u00e3o da muvuca-jurubeba, afinal de contas, importunar nunca rende o que se pretende, avan\u00e7ar ao sinal do \u201cn\u00e3o e n\u00e3o e n\u00e3o\u201d jamais vigora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">Mo\u00e7o, pobre mo\u00e7o, gaste o latim com uma cantada elegante, isso nunca foi proibido nem fez parte da plataforma dos muitos e diferentes grupos feministas. N\u00e3o tome o manifesto da amada atriz francesa como um <em>habeas corpus<\/em> para a velhacaria selvagem ainda em voga. Mire-se no exemplo de um filme no qual a personagem de Catherine (Genevi\u00e8ve) desperta o romantismo do jovem mec\u00e2nico Guy Foucher. Eternamente em cartaz nos nossos inconscientes: \u201cN\u00e3o h\u00e1 guarda-chuvas para o amor\u201d (1964). Uma li\u00e7\u00e3o contra todas as guerras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">N\u00e3o \u00e9 de hoje essa discuss\u00e3o, amigo. J\u00e1 deu tempo de sacar o que pode e o que n\u00e3o deve. A cantada nunca esteve proibida, como querem fazer parecer os inimigos das feministas. Vamos l\u00e1, garoto, prove a sua delicadeza. Ser\u00e1 um bom exerc\u00edcio, no m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;padding-left: 90px\">N\u00e3o h\u00e1 nada para comemorar no manifesto das francesas, macharada. \u00c9 um gol contra ou um gol de m\u00e3o, pelo menos. S\u00f3 um certo radicalismo nos educa, aponta o rumo das ventas da sensibilidade. Somos, historicamente, muito folgados e mimados. Chega de mimimi do tipo \u201cn\u00e3o se pode nem mais dar uma cantada\u201d etc. N\u00e3o \u00e9 disso que as feministas, que voc\u00ea tanto ironiza no <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/twitter\/a\">Twitter<\/a> e Facebook, est\u00e3o tratando. O jogo \u00e9 mais bruto. Creio que n\u00e3o care\u00e7o aqui repetir as estat\u00edsticas de viol\u00eancia contra as mulheres (&#8230;)\u201d. <em>Contra o \u2018habeas corpus\u2019 pra macharada &#8211; N\u00e3o foi a inten\u00e7\u00e3o, mas o manifesto franc\u00eas valeu como uma licen\u00e7a para a selvageria e o crime de ass\u00e9dio.<\/em> (Publicado no <em>El Pa\u00eds \u2013 Brasil<\/em>, 12\/01\/2018).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Belo, l\u00facido, depoimento de um brasileiro, que poderia representar muitos homens latino-americanos, em sua vis\u00e3o sobre os efeitos do manifesto das 100 francesas na \u201cmacharada\u201d daqui e de tantos pa\u00edses, com estat\u00edsticas alt\u00edssimas de estupros, feminic\u00eddios, viol\u00eancias m\u00faltiplas, em todos os n\u00edveis: na fam\u00edlia, no trabalho, nas ruas. Nas desigualdades salariais, nas oportunidades, nas carreiras, no trato dom\u00e9stico, na sobrecarga de fun\u00e7\u00f5es para as mulheres, nos abusos de poder sobre a integridade e a vida delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o somos \u201cv\u00edtimas\u201d. N\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, sempre fomos os ombros fortes. Nas fam\u00edlias, nas ruas, nas empresas, nas escolas e universidades, ou nas f\u00e1bricas. A luta \u00e9 para haver equil\u00edbrio e igualdade. Aquela no\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de direitos humanos que falta \u00e0s 100 francesas equivocadas, c\u00famplices, e \u00e0 imensa maioria dos patriarcas machopatas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">PS: Catherine Deneuve, tardiamente e de forma pressionada e desajeitada, acaba de pedir desculpas \u00e0s v\u00edtimas de ass\u00e9dio sexual em um texto publicado na noite deste domingo (14), no <a href=\"http:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/diversao-e-arte\/2018\/01\/15\/interna_diversao_arte,653316\/atriz-catherine-deneuve-pede-desculpas-a-vitimas-de-assedio-sexual.shtml\">site do jornal <em>Liberation<\/em><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cCumprimento de modo fraterno todas as v\u00edtimas de atos odiosos que possam ter se sentido agredidas por este texto publicado no <em>Le Monde<\/em>. \u00c9 a elas, e apenas a elas, que apresento minhas desculpas\u201d, diz a atriz, de 74 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_189\" aria-describedby=\"caption-attachment-189\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-189\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2018\/01\/Metro-paris-300x200.jpeg\" alt=\"Metr\u00f4 de Paris, Fran\u00e7a. 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