{"id":48,"date":"2017-08-02T03:59:35","date_gmt":"2017-08-02T03:59:35","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/?p=48"},"modified":"2017-08-02T03:59:35","modified_gmt":"2017-08-02T03:59:35","slug":"entrevista-com-filosofa-feminista-marcia-tiburi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/entrevista-com-filosofa-feminista-marcia-tiburi\/","title":{"rendered":"Entrevista com a fil\u00f3sofa feminista Marcia Tiburi"},"content":{"rendered":"<h2>A <em>fascistiza\u00e7\u00e3o<\/em> da sociedade v\u00ea o Outro apenas como objeto<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_49\" aria-describedby=\"caption-attachment-49\" style=\"width: 502px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-49 size-full\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2017\/08\/MarciaTiburi.jpeg\" alt=\"MarciaTiburi\" width=\"502\" height=\"502\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2017\/08\/MarciaTiburi.jpeg 502w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2017\/08\/MarciaTiburi-150x150.jpeg 150w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2017\/08\/MarciaTiburi-300x300.jpeg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/igualdade\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2017\/08\/MarciaTiburi-230x230.jpeg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 502px) 100vw, 502px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-49\" class=\"wp-caption-text\">Marcia Tiburi\u00a0\u00a0 Reprodu\u00e7\u00e3o Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa Marcia Tiburi \u2013 escritora bem-sucedida de v\u00e1rios livros de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o*, professora universit\u00e1ria, e reconhecida ativista pelos direitos das mulheres \u2013 acredita que \u00e9 preciso contextualizar as a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas para e pelas mulheres. \u201cA esfera pol\u00edtica est\u00e1 minada. H\u00e1 o autoritarismo brasileiro, na pol\u00edtica e tamb\u00e9m no cotidiano\u201d, afirma. Ela \u00e9 idealizadora e uma das fundadoras do movimento pol\u00edtico <strong>PartidA<\/strong>, que ainda est\u00e1 em forma\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 se espalha por todo o Brasil. Nascida em maio de 2015, a <strong>PartidA<\/strong> tomou corpo nas redes sociais e arrebanha militantes \u2013 mulheres que atuam em todas as \u00e1reas e pertencem \u00e0s diversas classes sociais, etnias, idades e orienta\u00e7\u00f5es sexuais \u2013 tanto no mundo digital como em reuni\u00f5es presenciais nas principais cidades e capitais.<\/p>\n<p>Nos preceitos da <strong>PartidA<\/strong>, h\u00e1 a necessidade de pol\u00edticas praticadas e idealizadas de forma horizontal, a partir das comunidades, at\u00e9 para se eleger futuras representantes, como deputadas federais e estaduais, senadoras, vereadoras e prefeitas. \u201cIsso com a ideia de que n\u00f3s vamos fomentar uma democracia feminista!\u201d, arremata Marcia. Ela conta que pensou em reunir-se \u00e0s outras mulheres feministas que conhece para pensar conjuntamente, por necessidade. \u201cSentia-me muito s\u00f3 em meu feminismo\u201d.<\/p>\n<p>M\u00e1rcia \u00e9 gaucha da pequena cidade de Vacaria (nordeste do RS), casada, e m\u00e3e de uma jovem de 20 anos. Acaba de lan\u00e7ar seu \u00faltimo livro de ensaios, <em>Rid\u00edculo Pol\u00edtico<\/em>, pela editora Record. Estudou em Porto Alegre, onde cursou Filosofia e Artes; residiu em S\u00e3o Paulo e lecionou no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o, Artes e Hist\u00f3ria da Cultura, da Universidade Mackenzie. Atualmente, mora no Rio de Janeiro. \u201cAdoraria ficar s\u00f3 escrevendo meus romances, livros, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer poesia no Brasil, atualmente, quando tudo nos chama para a pol\u00edtica. Eu me sinto convocada! \u00c9 um efeito do trabalho com a teoriza\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica\u201d, reflete.<\/p>\n<p>Parte desta entrevista foi feita para o <strong>Blog da Igualdade<\/strong> e, em um segundo momento, foi ampliada, atualizada, e publicada por mim no Dossi\u00ea Mulher e M\u00eddia, da revista acad\u00eamica Observat\u00f3rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Como voc\u00ea analisa, nesta era (p\u00f3s) moderna e colonial, as representa\u00e7\u00f5es, e os estere\u00f3tipos, das mulheres nas m\u00eddias \u2013 audiovisuais, digitais ou impressas \u2013 em intera\u00e7\u00e3o com as redes sociais? A crescente onda de radicaliza\u00e7\u00e3o de extremos \u2013 direita, esquerda, fascismo, fanatismos, fundamentalismos \u2013 provoca <em>backlash<\/em> de forma generalizada ou h\u00e1 avan\u00e7os? No longo prazo, o que se pode esperar para os direitos das mulheres no pa\u00eds ou na pequena aldeia global? <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT &#8211;<\/strong> As mulheres sempre foram objeto de estere\u00f3tipos. A <em><strong>estereotipifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em> \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o organizada por discursos e pr\u00e1ticas que faz parte do projeto mis\u00f3gino historicamente lan\u00e7ado contra as mulheres. Onde h\u00e1 machismo (a vers\u00e3o de g\u00eanero do capitalismo), h\u00e1 estereotipifica\u00e7\u00e3o do \u201cOutro\u201d, no caso, da \u201cmulher\u201d e de todos aqueles que n\u00e3o se encaixam no paradigma masculinista, ele mesmo uma m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos. Nesse sentido, a luta feminista tem sua m\u00e1xima consist\u00eancia contra a produ\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos em nome da singularidade de cada mulher, de cada pessoa que faz parte das minorias pol\u00edticas. A <strong><em>fascistiza\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> da sociedade contempor\u00e2nea leva \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o desses processos em que o outro n\u00e3o conta como alteridade, mas apenas como objeto. Creio que essa grande tens\u00e3o precisa ser analisada. Talvez, a luta hoje n\u00e3o seja entre esquerda e direita, mas entre feminismo e fascismo. O feminismo se apresenta, a meu ver, como a grande luta, o caminho que pode levar a recuperar direitos perdidos e produzir uma sociedade mais igualit\u00e1ria e mais justa.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>No Brasil, bem como em muitos pa\u00edses do Ocidente, as mulheres lutam batalhas intensas e at\u00e9 conseguem algum espa\u00e7o na produ\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o audiovisual, seja fic\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m travam batalhas na imprensa tradicional ou na esfera digital, sobretudo por melhores sal\u00e1rios \u2013 ainda bem desiguais \u2013, em feudos antes dominados por homens. Ainda que representem apenas algo entre 10 a 20% da cria\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria do entretenimento, voc\u00ea acredita que faz diferen\u00e7a nas representa\u00e7\u00f5es quando as produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o de mulheres, pensadas por elas? <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT &#8211;<\/strong> Se olharmos para a hist\u00f3ria do audiovisual, sobretudo do cinema, veremos que as mulheres tiveram uma intensa participa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o do cinema em todos os pa\u00edses, at\u00e9 o momento em que o cinema se tornou uma grande ind\u00fastria e os homens tomaram o seu lugar. A alian\u00e7a entre machismo e capital \u00e9 antiga e se renova a cada dia. Creio que as mulheres de luta, as feministas, precisam combater o machismo combatendo tamb\u00e9m o capital. Combater o machismo \u00e9, portanto, combater a ind\u00fastria cultural, ao mesmo tempo que esse combate n\u00e3o se d\u00e1 sem que tomem para si o poder sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o primeiro passo na transforma\u00e7\u00e3o antimachista: as feministas comandando os meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>O caso brasileiro que chama aten\u00e7\u00e3o, e que ficar\u00e1 marcado na Hist\u00f3ria do pa\u00eds, s\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es de 2014, que reelegeram Dilma Rousseff, e a sua deposi\u00e7\u00e3o, menos de dois anos depois. As batalhas que dividiram o pa\u00eds chocaram as mulheres feministas pelo conte\u00fado \u2013 tanto na m\u00eddia <em>mainstream<\/em> como nas redes sociais \u2013 exacerbadamente machista, mis\u00f3gino, LGBTf\u00f3bico, classista e racista. Tem sido uma intersec\u00e7\u00e3o de valores culturais e sociais arcaicos, mas que vimos estarem bem vivos na sociedade brasileira. Foram determinantes para o \u201csucesso do golpe\u201d, acreditam intelectuais, dentro e fora do pa\u00eds. Como voc\u00ea analisa esse processo de desconstru\u00e7\u00e3o da figura feminina no poder, na esfera p\u00fablica, como ocorreu com Dilma? <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT &#8211; <\/strong>Eu escrevi um texto sobre o golpe como m\u00e1quina mis\u00f3gina. Ao \u201cgolpear\u201d Dilma Rousseff, o machismo elevado \u00e0 Raz\u00e3o de Estado golpeia todas as mulheres e, com elas, a Democracia. S\u00e3o dois coelhos com uma s\u00f3 cajadada, como diz o ditado. As mulheres ficam desestimuladas com a pol\u00edtica, como de resto toda a popula\u00e7\u00e3o, e consegue-se garantir a perpetua\u00e7\u00e3o do poder na m\u00e3o de elites brancas, capitalistas e machistas. Podemos acrescentar, ruralistas e rentistas. O neoliberalismo, que \u00e9 a fase mais bizarra do capitalismo que conhecemos, cresce e se desenvolve destruindo tudo ao redor, da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade. Todos os direitos fundamentais s\u00e3o aviltados e a viol\u00eancia e o terror funcionam como m\u00e9todos para a submiss\u00e3o. Os corpos j\u00e1 foram preparados para aceitar esse estado de coisas. Creio que as mulheres que n\u00e3o se politizaram, por interesse ou precariedade na educa\u00e7\u00e3o e na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, continuar\u00e3o ajudando, consciente ou inconscientemente, a m\u00e1quina mis\u00f3gina que as manipula. Mas, n\u00e3o as feministas.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>O que podemos esperar para o cotidiano, hoje e no futuro, enquanto mulheres brasileiras, que temos que lidar com essa realidade? Os movimentos sociais das mulheres \u2013 dentro e fora do mundo digital, das redes sociais \u2013 d\u00e3o resultados? Alertam e mudam algo? <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT &#8211;<\/strong> \u00c9 preciso ocupar o poder. N\u00e3o vejo outra sa\u00edda. Ocupar partidos, ruas, espa\u00e7os p\u00fablicos em geral. Para 2018, preparamos um n\u00famero grande de candidaturas de mulheres, na forma de uma ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o nos partidos. Precisamos come\u00e7ar com bancadas feministas nas assembleias legislativas dos Estados e tamb\u00e9m no Congresso Nacional. Al\u00e9m de tudo, precisamos fazer isso para causar efeitos na ordem simb\u00f3lica e, assim, na mentalidade e na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica concreta.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Como vai, nesse sentido, o movimento pol\u00edtico (e social) PartidA? Voc\u00ea ajudou a criar, articular e est\u00e1 a\u00ed, espalhado pelo pa\u00eds. Elegeu ou eleger\u00e1 mais mulheres na pol\u00edtica brasileira? Hoje, h\u00e1 apenas 10% delas no Congresso Nacional. O M\u00e9xico, por exemplo, \u00e9 representado por quase 40% de mulheres no parlamento. A Argentina tem ainda mais. O que acontece aqui?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT &#8211;<\/strong> O projeto do nosso grupo que cresce e se espalha \u00e9 transformar radicalmente o cen\u00e1rio da representa\u00e7\u00e3o feminina no parlamento brasileiro. A articula\u00e7\u00e3o continua. Os grupos se organizam horizontalmente, a partir de suas pr\u00f3prias pot\u00eancias, com cuidado e dedica\u00e7\u00e3o, porque um dos aspectos mais caros a esse movimento \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da singularidade. Ao mesmo tempo, buscamos descobrir um modo de lidar com o poder que n\u00e3o seja autorit\u00e1rio. Pensamos que o poder possa ser a\u00e7\u00e3o conjunta e n\u00e3o opress\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, os processos de empoderamento e protagoniza\u00e7\u00e3o das outras \u00e9 o nosso lema.<\/p>\n<p>Em um primeiro momento, experimentamos a movimenta\u00e7\u00e3o. Isso, o movimento, d\u00e1 um lastro para a reconstru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica em um n\u00edvel cotidiano. Porque isso \u00e9 algo que nos falta (ao povo brasileiro). Falamos hoje em aniquila\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, em sua destrui\u00e7\u00e3o, ou na antipol\u00edtica. Por que isso? Porque a esfera da vida pol\u00edtica foi minada. N\u00f3s nos perdemos porque interrompemos o processo de politiza\u00e7\u00e3o. Isso tem a ver com toda a Hist\u00f3ria do Brasil, sobretudo, a meu ver, com os mais de 20 anos de ditadura militar (entre os anos 1964 e 1985). Foi um per\u00edodo pesad\u00edssimo e um retrocesso muito radical. Foi um atraso, no Brasil, enorme, em termos pol\u00edticos, culturais, educacionais e \u00e9ticos. E sofrimentos para todos os lados. Com a abertura (pol\u00edtica), a gente come\u00e7ou a engatinhar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia. Mas, esta nunca vai se consolidar enquanto projeto de cima pra baixo. A quest\u00e3o que concerne a esse aniquilamento da pol\u00edtica e ao autoritarismo em nosso cotidiano diz respeito justamente ao que n\u00f3s vamos fazer enquanto sociedade civil, enquanto pessoas, umas com as outras, com nosso autoritarismo. O da Ditadura combinava muito com o autoritarismo do brasileiro. De repente, a Ditadura sai de cena em termos governamentais\/estatais, mas o autoritarismo n\u00e3o sai da cena cotidiana. Digamos que o autoritarismo ficou um tanto incubado, latente, durante as \u00faltimas d\u00e9cadas, mas existe e est\u00e1 de volta \u00e0 cena pol\u00edtica. Agora, desde 2013 (com as grandes manifesta\u00e7\u00f5es), foi um marco e h\u00e1 um ativismo que se autoquestiona. H\u00e1 movimentos assim tamb\u00e9m em escala global, como na Espanha, nos Estados Unidos, no Egito. Enfim, isso tamb\u00e9m no Brasil reflete em volta a uma polariza\u00e7\u00e3o entre direita e esquerda, algo que havia sido cancelado, anulado, entre n\u00f3s. As pessoas se posicionam de novo. Entretanto, direita e esquerda s\u00e3o assuntos reeditados com um certo ran\u00e7o. O feminismo \u00e9 uma novidade pol\u00edtica!<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong> Bom, isso no Brasil! Feminismo(s) pode ser novidade aqui&#8230;<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT:<\/strong> Ent\u00e3o, ao mesmo tempo, em termos de ativismo, ele \u00e9 mais novidade do que em outros pa\u00edses! \u00c9 claro, o feminismo \u00e9 hist\u00f3rico, o feminismo, podemos alegar, tem centenas de anos, milhares&#8230; sempre esteve presente, sempre foi uma pol\u00edtica que funcionou na margem, subterr\u00e2nea, como tentativa, como alternativa, e de repente causa um estranhamento justamente que haja a proposi\u00e7\u00e3o de um partido feminista! Se o feminismo \u00e9 altamente an\u00e1rquico, alternativo, n\u00e3o institucional, o qu\u00ea que um feminismo pode querer com um par-ti-do?! Ent\u00e3o, a forma partido causa estranhamento nos contextos dos campos feministas. Ao mesmo tempo, esse estranhamento foi o que produziu a <strong>PartidA<\/strong>! Foi nesse contexto que a gente come\u00e7ou a se perguntar, enfim, o qu\u00ea est\u00e1 nos acontecendo? Ent\u00e3o, em termos pol\u00edticos, o que aconteceu com as feministas? Vamos continuar fazendo essa pol\u00edtica alternativa, essa que \u00e9 da margem, essa que \u00e9 a mais verdadeira, sincera e real, mas que, ao mesmo tempo, est\u00e1 sempre em um lugar de margem, de subalternidade, posi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, que \u00e9 um lugar ao qual as mulheres se acostumaram! (&#8230;) e tamb\u00e9m que pode ser confort\u00e1vel. Essa quest\u00e3o de um partido feminista provoca o campo feminista. O campo cresce, o feminismo est\u00e1 na moda, as governantes (presidentas) est\u00e3o na moda. Quer dizer, a nossa presidenta, no caso brasileiro, foi maltratada at\u00e9 as raias do del\u00edrio! Mas, \u00e9 um fato que a evid\u00eancia, o protagonismo das mulheres na pol\u00edtica tem crescido. Essa ideia, um tanto inc\u00f4moda, de um partido feminista \u00e9 chamativa. Temos que ser cr\u00edticas e auto-cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o a isso, mas isso causa uma como\u00e7\u00e3o. As pessoas se perguntam, se questionam. H\u00e1 a desconfian\u00e7a. Isso desde a primeira reuni\u00e3o da <strong>PartidA<\/strong>, no Rio de Janeiro, em 2015. E eu disse: gente, isso aqui n\u00e3o \u00e9 um partido. \u00c9 uma <strong>partidA<\/strong>! Jamais poderia ser igual a um partido pol\u00edtico que j\u00e1 existe, dos outros. Ent\u00e3o, foi constitu\u00eddo que j\u00e1 \u00e9ramos um movimento. A <strong>PartidA<\/strong> \u00e9 um di\u00e1logo feminista.<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong> E como est\u00e1 sendo organizado esse di\u00e1logo na PartidA?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT:<\/strong> Rodas de conversas. Horizontalidade. Todas as perspectivas feministas s\u00e3o contempladas, para abarcar todos os feminismos poss\u00edveis. Ent\u00e3o, a gente quer dialogar com o Outro! Aberto a todo mundo. Isso \u00e9 ser um partido. No nosso caso, as pessoas n\u00e3o s\u00e3o convidadas a uma filia\u00e7\u00e3o mas, sim, a fazer pol\u00edtica. E a pol\u00edtica \u00e9 cotidiana. Em uma aula, em uma festa. Em Goi\u00e2nia, por exemplo, em uma reuni\u00e3o l\u00e1, falamos em fazer pol\u00edtica municipal. Tem que ser municipal, com as pessoas da cidade. Uma das mulheres disse que tem que ser tamb\u00e9m nos bairros! \u00d3timo, ent\u00e3o, constr\u00f3i isso. Fa\u00e7amos tamb\u00e9m nos bairros. (&#8230;) Estou tentando fazer uma filosofia da cultura brasileira. Ent\u00e3o, o que est\u00e1 pegando? Qual \u00e9 o cen\u00e1rio, qual \u00e9 a m\u00fasica, quais interesses. E eu me dei conta de que somos um pa\u00eds de gente deprimida! Uma cultura de depress\u00e3o. A\u00ed, vemos todo mundo drogado, tomando Rivotril, Lexotan; crian\u00e7as tomando Ritalina; outros tomando Prozac&#8230; E eu penso que a infelicidade que nos atinge \u00e9 social e pol\u00edtica. Projetos individuais, individualistas, podem ser realizados. Entretanto, eles j\u00e1 n\u00e3o garantem nada! H\u00e1 a infelicidade pol\u00edtica. E eu acho que a <strong>PartidA<\/strong> \u00e9 alegria pol\u00edtica! Felicidade por ser a promessa de um lugar n\u00e3o-individualista, mas um lugar onde se respeita a singularidade. Onde a singularidade \u00e9 contemplada, \u00e9 aceita, \u00e9 desejada.<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><strong> Como est\u00e1 a PartidA, virtual e presencial, Brasil afora, com feministas ou as mulheres que n\u00e3o se autodeclaram feministas? <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT:<\/strong> Muitas feministas chegam at\u00e9 n\u00f3s com curiosidade e cautela. H\u00e1 outras pessoas que v\u00eam porque querem fazer pol\u00edtica e nunca o fizeram, ent\u00e3o a <strong>PartidA<\/strong> \u00e9 este espa\u00e7o para fazer essa coisa nova. Outras querem um partido pra j\u00e1. Estamos conversando para decidir rumos, mas \u00e9 certo que apoiamos e apoiaremos candidatxs nas elei\u00e7\u00f5es. Vemos que nas redes sociais, espa\u00e7os virtuais, e na vida, as pessoas t\u00eam muita simpatia pela <strong>PartidA<\/strong>. A nossa fanpage do Facebook tem milhares de seguidorxs e as reuni\u00f5es f\u00edsicas sempre contam com um n\u00famero grande de pessoas. A quantidade de gente empolgada com uma iniciativa democr\u00e1tica, no cen\u00e1rio autorit\u00e1rio do Brasil atual, \u00e9 importante. A ideia \u00e9 que a organiza\u00e7\u00e3o seja municipal. Em grupos comunit\u00e1rios.<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li><strong> A PartidA \u00e9 uma causa, um movimento. Pretende ser um partido pol\u00edtico organizado? Quais s\u00e3o os objetivos principais? <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT:<\/strong> Somos, por enquanto, um movimento. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o que defende uma democracia feminista. Entendemos que essa democracia se faz com o mais pr\u00f3ximo. Que ela \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o do comum. O aspecto feminista significa para n\u00f3s muitas coisas. Uma delas \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma outra forma de poder que seja compreensivo, colaborativo, partilhado. Pretendemos construir uma democracia tendo em vista a supera\u00e7\u00e3o dos conflitos de g\u00eanero, de ra\u00e7a e de classe social, o que s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel pela defesa de direitos das minorias. Isso s\u00f3 ser\u00e1 conquistado se as pr\u00f3prias minorias chegarem ao poder. Temos um foco que \u00e9 o poder de governar. Queremos ocupar o governo. Teremos uma bancada feminista. <strong>PartidA<\/strong> \u00e9, sobretudo, uma ocupa\u00e7\u00e3o, a qual pretende colocar o feminismo no governo. Mas, estamos ainda experimentando e construindo a ideia, e as pr\u00e1ticas com as pessoas que v\u00eam dar a <em>#partidA<\/em> com a gente. Essa \u00e9 a caracter\u00edstica do nosso ativismo: democracia com as outras (e outros, e outres, e outrxs). O empoderamento da outra \u00e9 o que a gente busca na inten\u00e7\u00e3o de manter a nossa horizontalidade, sem hierarquia, e com muito acolhimento.<\/p>\n<ol start=\"10\">\n<li><strong> Voc\u00ea esperava toda a resposta virtual e presencial \u00e0 PartidA, ou foi uma surpresa o sucesso inicial, desde 2015?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>MT:<\/strong> Sinceramente, espero muito e espero mais. Eu tenho muita esperan\u00e7a no que estamos fazendo. Confio nas mulheres feministas, confio na for\u00e7a das\/os exclu\u00eddas\/os, confio totalmente na capacidade de luta das e dos que foram oprimidos e oprimidas. N\u00e3o deixaremos de ser l\u00facidas e pr\u00e1ticas porque somos utopistas e idealistas. Acredito que uma for\u00e7a pol\u00edtica que precisa ser movida \u00e9 justamente a nossa esperan\u00e7a, que tem sido aviltada e proibida pelo utilitarismo do sistema da opress\u00e3o sedutora em que vivemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>* Marcia Tiburi<\/strong> \u00e9 graduada em Filosofia e Artes, e mestra e doutora em Filosofia (UFRGS, 1999). Publicou diversos livros de Filosofia, entre eles:\u00a0 \u201cAs Mulheres e a Filosofia\u201d (Ed. Unisinos, 2002); \u201cFilosofia Cinza \u2013 a melancolia e o corpo nas dobras da escrita\u201d (Escritos, 2004); \u201cMulheres, Filosofia ou Coisas do G\u00eanero\u201d (EDUNISC, 2008), \u201cFilosofia em Comum\u201d (Ed. Record, 2008), \u201cFilosofia Brincante\u201d (Record, 2010), \u201cOlho de Vidro\u201d (Record, 2011), \u201cFilosofia Pop\u201d (Bregantini, 2011); \u201cSociedade Fissurada\u201d (Record, 2013); \u201cFilosofia Pr\u00e1tica, \u00e9tica, vida cotidiana, vida virtual\u201d (Record, 2014); \u201cComo conversar com um fascista &#8211; Reflex\u00f5es sobre o cotidiano autorit\u00e1rio brasileiro\u201d (Record, 2015). Publicou tamb\u00e9m os romances \u201cMagn\u00f3lia\u201d (2005), \u201cA Mulher de Costas\u201d (2006), \u201cO Manto\u201d (2009), \u201cEra meu esse Rosto\u201d (Record, 2012), e \u201cUma fuga perfeita \u00e9 sem volta\u201d (Record, 2016). \u00c9 tamb\u00e9m colunista da revista <strong><em>Cult<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fascistiza\u00e7\u00e3o da sociedade v\u00ea o Outro apenas como objeto &nbsp; &nbsp; A fil\u00f3sofa Marcia Tiburi \u2013 escritora bem-sucedida de v\u00e1rios livros de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o*, professora universit\u00e1ria, e reconhecida ativista pelos direitos das mulheres \u2013 acredita que \u00e9 preciso contextualizar as a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas para e pelas mulheres. \u201cA esfera pol\u00edtica est\u00e1 minada. 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