2018 Credito: Ana Obiols/Divulgacao. Escritor ALberto Manguel. Credito: Ana Obiols/Divulgacao

Que tipo de leitor é você? Viajante, isolado ou devorador?

Publicado em ensaio, filosofia, história, ilustração, literatura, livro, mitos, Sem categoria

O leitor do século 21 é uma espécie de sobrevivente. E também um salvador. Cabe a ele salvar o ato de ler. O escritor argentino Alberto Manguel não é exatamente um otimista nesse campo, embora seja um Dom Quixote da leitura, com sua biblioteca de 30 mil livros no interior da França. Leitores e escritores como Manguel estão em extinção, por isso vale a pena prestar atenção nas comparações e alegorias que costumam usar. Em O leitor como metáfora, Manguel investiga os significados simbólicos da leitura para concluir que há três tipos de leitores.

 

Há muito tempo, desde sempre, eu falo e escrevo sobre a leitura e os livros. E, para isso, emprego imagens e metáforas. Um dia, me perguntei o significado desses vocabulários metafóricos, por que falamos sobre a leitura com um vocabulário gastronômico, ou um vocabulário de viagem, ou ainda de reclusão, isolamento. Algumas respostas estão no meu livro.”  

 

O viajante faz do livro todo um universo. Das iluminuras do século 15 aos meios eletrônicos contemporâneos, esse tipo de leitor encara o livro como a vida, o mundo como um texto e a leitura, como uma viagem. É, Manguel lembra, a metáfora mais antiga já concebida para o ato da leitura, da Bíblia ao Kindle, de Homero à Amazon. “A vida como uma viagem é, como vimos, uma das nossas mais antigas metáforas”, escreve o autor, nesse ensaio publicado originalmente em 2013 e que agora chega ao Brasil pelas Edições Sesc São Paulo.

O alheamento ao mundo é característica do segundo tipo de leitor. Esse está confortavelmente instalado em sua torre de marfim e mergulha na leitura para não estar no mundo. Ou para estar em outro mundo. Traduzir o mundo em palavras, alimentar a vida interior, mergulhar na privacidade, recolher-se são movimentos desse leitor, um intelectual que Manguel chama de melancólico, encarcerado em sua torre, em oposição à ideia de massas e multidões.

Na terceira metáfora, o leitor inventa o mundo a partir de suas leituras, é um devorador de livros. Tal qual uma traça, coloca para dentro de si os pedaços da história e acredita que tudo que lê é real. Às vezes, nessa paródia, o leitor é também um sujeito tolo, que tudo lê e nada retém. E está sempre arrebatado pela leitura.

Hoje em dia, segundo Manguel. não há predominância de um tipo de leitor. Todos coexistem. O que há é uma profunda modificação da prática em consequência do desenvolvimento tecnológico e da digitalização. Manguel lembra que todo instrumento modifica o ato para o qual é empregado e a eletrônica é uma tecnologia que privilegia a rapidez e a brevidade. “A leitura é um ato lento e profundo. O choque entre essas duas tendências dá à leitura ou um contorno fragmentário e fragmentado do ato de ler, ou um gesto de oposição, ou seja de desvio, do instrumento eletrônico”, diz o escritor.

Ainda assim, os livros podem nos ajudar a compreender o mundo. Eles abrem portas e janelas, embora sair e tomar o caminho dependa de uma força subjetiva. A motivação de Manguel para continuar lendo vem de seu próprio interesse pelo mundo. A curiosidade e a necessidade de escapar à besteira cotidiana o levam para os livros. Nesse universo, o leitor tem um papel: “Como sempre, é o de  um náufrago que se esforça para sobreviver em um oceano de estupidez. O papel do leitor é o de um salvador do prestígio do ato intelectual”.

O leitor como metáfora

De Alberto Manguel. Edições Sesc, 148 páginas. R$ 45

TRÊS PERGUNTAS PARA ALBERTO MANGUEL

O intelectual está em vias de desaparecer?

Não. É toda a raça humana que está desaparecendo.

Como seria o Gilgamesh dos tempos modernos, o leitor que viaja? É possível viajar por meio da leitura em um mundo tão cheio de estímulos e tecnologias?

Era assim ao longo das nossas histórias. Na Idade Média e na Renascença, a distração vinha das imagens. O leitor devia se isolar para ler, ou transformar as imagens em texto na própria cabeça. Mas a leitura foi e será sempre uma viagem pelo texto, mesmo que ele seja curto e fragmentado.  

O que perde o leitor que devora livros?

Nada. Há diferentes maneiras de ler: Oscar Wilde, por exemplo, era um leitor voraz que percorria as páginas rapidamente e depois se lembrava de tudo. E foi um dos maiores leitores do século 19.

Ainda existe espaço para heróis épicos na literatura contemporânea?

Certamente. O atleta Emil Zátopek, em Correr, de Jean Echenoz, o médico Alexandre Yersin, em Peste& Cólera, de Patrick Deville, Caim, no romance homônimo de José Saramago, são todos heróis épicos.

 

 

One thought on “Que tipo de leitor é você? Viajante, isolado ou devorador?

  1. Olá, sou Franco, italiano mas moro em Curitiba… escrevi um livro em 2008 que ainda não saiu de meu computador, tenho uma campanha de arrecadação de fundos para conseguir fazer o lançamento. gostaria de o link aqui para a página da campanha, mas peço antes autorização para isso.

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