{"id":169,"date":"2017-11-23T17:38:17","date_gmt":"2017-11-23T19:38:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=169"},"modified":"2017-11-23T17:38:17","modified_gmt":"2017-11-23T19:38:17","slug":"adocao-drogas-e-racismo-pontuam-novo-romance-de-bernardo-kucinski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/adocao-drogas-e-racismo-pontuam-novo-romance-de-bernardo-kucinski\/","title":{"rendered":"Ado\u00e7\u00e3o, drogas e racismo pontuam novo romance de Bernardo Kucinski"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"font-weight: 400\"><em>Pret\u00e9rito imperfeito<\/em> tem apenas 150 p\u00e1ginas. \u00c9 o suficiente para o acerto de contas de Bernardo Kucinski. O terceiro romance do escritor paulistano \u00e9 forte candidato \u00e0s listas de premia\u00e7\u00e3o de 2018 e traz uma narrativa imposs\u00edvel de ser abandonada at\u00e9 a leitura da \u00faltima frase. \u00c9 sobre a dor de um pai esta hist\u00f3ria que tem in\u00edcio com uma carta cujo prop\u00f3sito \u00e9 expulsar o filho da sua pr\u00f3pria vida. Um acerto de contas. \u00c9 um in\u00edcio duro, mas n\u00e3o h\u00e1 in\u00edcios doces na escrita de Kucinski. <\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O narrador \u00e9 um intelectual paulistano, pai de um rapaz que se envolve com drogas na adolesc\u00eancia. Como ele e a mulher n\u00e3o conseguiram ter filhos biol\u00f3gicos, decidem adotar uma crian\u00e7a. Fazem uma ado\u00e7\u00e3o \u201c\u00e0 brasileira\u201d, um esquema com algu\u00e9m que conhece algu\u00e9m. Registram o beb\u00ea como filho biol\u00f3gico, apesar de ilegal. Mas essa \u00e9 a parte menos importante. A mais relevante \u00e9 o desejo e o empenho em construir uma fam\u00edlia. O casal se dedica a essa arquitetura com muito amor, mas o amor n\u00e3o \u00e9 suficiente para corrigir os desvios da vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fruto de uma rejei\u00e7\u00e3o e de uma gravidez marcada pela depend\u00eancia qu\u00edmica, a crian\u00e7a nasce fr\u00e1gil, se recupera gra\u00e7as a tudo aquilo que uma renda de classe m\u00e9dia alta pode proporcionar, mas mant\u00e9m a fragilidade emocional. Uma sociedade preconceituosa e as constantes rejei\u00e7\u00f5es sociais ao menino que, por conta da cor da pele, \u00e9 frequentemente confundido com bandido nas cal\u00e7adas dos bairros nobres de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o ajudam muito. H\u00e1 momentos contundentes na narrativa, constata\u00e7\u00f5es que esse pai jamais teria caso n\u00e3o tivesse adotado um rebento da desigualdade para a qual o Brasil insiste em fazer vista grossa. Estariam as crian\u00e7as condenadas a serem adultos infantilizados gra\u00e7as \u00e0 postura dos pais, que os colocam em pedestais? Ate que ponto a psicologia praticada para tratar dependentes qu\u00edmicos n\u00e3o se resume a um meio de controle social? E como chegamos ao ponto de a cor da pele definir quem fica ou sai da pris\u00e3o?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na adolesc\u00eancia, o filho se envolve com drogas e, aos poucos, deixa para tr\u00e1s o que se anunciava como um talento musical. \u00c9 expulso da escola de elite na qual estudava, rouba amigos e fam\u00edlia para comprar crack e, aos poucos, sucumbe ao \u201cpara\u00edso artificial\u201d da narcodepend\u00eancia. A express\u00e3o, repetida pelo narrador, faz parte da tentativa de compreender os caminhos do menino, tentativa incans\u00e1vel e amorosa.<\/span><\/p>\n<blockquote><p>O processo pol\u00edtico pelo qual passamos nos \u00faltimos dois anos realmente sugere que viramos uma sociedade infantilizada.<\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Percorrer os meandros da depend\u00eancia n\u00e3o estava nos planos do pai e \u00e9 com erros, trope\u00e7os e ingenuidade que ele mergulha nesse mundo. A origem judaica e o fato de o filho ter sido registrado como biol\u00f3gico facilita um escape para Israel, uma \u00faltima tentativa desesperada de afastar o rapaz do v\u00edcio. Mas a depend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de lugar e \u00e9 nesse afastamento for\u00e7ado e doloroso que o pai percebe sua impot\u00eancia e escreve a carta com a qual abre o livro. As reflex\u00f5es sobre culpas, origens, circunst\u00e2ncias que macularam a alma desse jovem povoam os pensamentos do pai e o autor \u00e9 muito corajoso ao descrev\u00ea-los. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o h\u00e1 final para a hist\u00f3ria, como n\u00e3o h\u00e1 final para certas hist\u00f3rias, embora um desfecho, feliz ou n\u00e3o, seja irrelevante para a for\u00e7a do texto de Kucinski. <em>Pret\u00e9rito imperfeito<\/em>, e esse tempo verbal diz muito sobre o que deveria ter sido e n\u00e3o foi, \u00e9 para se ler de uma s\u00f3 vez, com f\u00f4lego e coragem. Assim como em <em>K &#8211; Relato de uma busca<\/em>, o autor parte de uma hist\u00f3ria pessoal, ou \u201cvivida\u201d, como ele diz. \u201c\u00c9 uma hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o terminou e na qual as quest\u00f5es centrais s\u00e3o de natureza pessoal e at\u00e9 intimista e n\u00e3o pol\u00edtica ou ideol\u00f3gica. Da\u00ed a necessidade de um maior recurso \u00e0 inven\u00e7\u00e3o\u201d, explica. Abaixo, ele fala sobre as rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos que povoam seus romances, a escrita baseada na viv\u00eancia e sobre o processo de aprendizagem do narrador. <\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-171\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2017\/11\/preterito-imperfeito-150x150.png\" alt=\"preterito imperfeito\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/p>\n<p>Pret\u00e9rito imperfeito<\/p>\n<p>De Bernardo Kucinski. Companhia das Letras, 152 p\u00e1ginas. R$ 39,90<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Entrevista: Bernardo Kucinski<\/h2>\n<p><strong>Pode contar como surgiu a ideia\/desejo de narrar a hist\u00f3ria de <i>Pret\u00e9rito imperfeito<\/i>?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Surgiu num repente, da mesma forma como <em>K<\/em>, a partir da carta ao filho, que abre a narrativa. Depois desse impulso, inteiramente ficcional, e que saiu de uma vez s\u00f3, foram surgindo as reminisc\u00eancias, elaboradas uma de \u00a0cada vez, como acontece com freq\u00fc\u00eancia na cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Neste caso a narrativa logo assumiu a forma de um processo de aprendizagem, que o narrador vai compartilhando com o leitor; o t\u00edtulo de trabalho do manuscrito era <em>O livro do aprendizado<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><strong>A rela\u00e7\u00e3o &#8211; sempre tensa, complexa e cheia de lacunas &#8211; entre pais e filhos \u00e9 uma constante nos seus romances. Pode contar o que \u00e9 t\u00e3o interessante para voc\u00ea nessa din\u00e2mica?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0Escrevi tamb\u00e9m fic\u00e7\u00f5es de outra natureza, como a novela policial <em>Alice<\/em> e o folhetim <em>Mataram o Presidente<\/em>, mas \u00e9 verdade que a rela\u00e7\u00e3o pais filhos est\u00e1 muito presente no que eu escrevo, inclusive nos contos. Penso que isso ocorre porque \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que mais profundamente mexe conosco, \u00a0quando somos filhos e quando viramos pais. <\/span><\/p>\n<p><strong><em>Pret\u00e9rito imperfeito<\/em> traz v\u00e1rias quest\u00f5es importantes para a sociedade brasileira contempor\u00e2nea: a depend\u00eancia qu\u00edmica, a quest\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o \u00e0 brasileira, o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma cr\u00edtica social embutida no romance, embora ele seja, obviamente, muito mais que isso?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"> \u00a0Se houve alguma inten\u00e7\u00e3o, foi a de um acerto de contas comigo mesmo, ou at\u00e9 de autocr\u00edtica, n\u00e3o propriamente de cr\u00edtica social. As tr\u00eas quest\u00f5es, racismo, ado\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia qu\u00edmica, s\u00e3o \u00a0t\u00e3o complexas e de solu\u00e7\u00e3o t\u00e3o dif\u00edcil que n\u00e3o me propus a fazer uma cr\u00edtica ao modo como s\u00e3o conduzidas aqui ou em outros pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<p><strong>Como encara a maneira como o governo brasileiro lida com a quest\u00e3o da depend\u00eancia qu\u00edmica? E das interna\u00e7\u00f5es for\u00e7adas? Existe alguma maneira de essas pol\u00edticas p\u00fablicas serem eficientes?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o sou especialista no assunto e conhe\u00e7o pouco do que se faz. Mas do pouco que conhe\u00e7o deduzo que estamos muito aqu\u00e9m de outros pa\u00edses no tratamento da depend\u00eancia qu\u00edmica, em especial em rela\u00e7\u00e3o aos recursos alocados. Creio que a depend\u00eancia qu\u00edmica deveria ser encarada como uma epidemia de grandes propor\u00e7\u00f5es, como foi a tuberculose em outros tempos, \u00a0e n\u00e3o como um mal que afeta grupos pequenos ou \u00e0 margem. Tamb\u00e9m penso que nossa abordagem, punitiva e moralista, \u00e9 equivocada e prejudicial. A manifesta\u00e7\u00e3o extrema desse equ\u00edvoco \u00e9 a interna\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. <\/span><\/p>\n<p><strong>O senhor escreve: \u201cComo para compensar, minha gera\u00e7\u00e3o p\u00f4s a crian\u00e7a num pedestal, como um pequeno Deus\u201d. E mais adiante fala em s\u00edndrome de Peter Pan e sociedades de adultos infantis. A sociedade, ou melhor, a classe m\u00e9dia brasileira sofre as consequ\u00eancias disso? Somos uma popula\u00e7\u00e3o de adultos infantilizados em consequ\u00eancia de tratarmos as crian\u00e7as como pequenos deuses?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O processo pol\u00edtico pelo qual passamos nos \u00faltimos dois anos realmente sugere que viramos uma sociedade infantilizada. N\u00e3o s\u00f3 nos, os americanos tamb\u00e9m, ao elegerem um Trump a partir de um discurso infantil, \u00a0prim\u00e1rio e fanfarr\u00e3o. O fen\u00f4meno, portanto deve ser universal. Talvez porque tudo nos \u00e9 dado hoje como prato feito, e a cultura nos \u00e9 oferecida como entretenimento para consumo r\u00e1pido e feliz , n\u00e3o como alimento de reflex\u00e3o. A \u00fanica utopia que nos \u00e9 sugerida \u00e9 a do sucesso estritamente pessoal, o que, de fato, s\u00f3 poder\u00e1 ser alcan\u00e7ado por alguns poucos. \u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>\u201cNossa pol\u00edcia \u00e9 zelosa em flagrar garotos com maconha. Se lhes parecem filhinhos de ricos, extorquem sob a amea\u00e7a de pris\u00e3o. Se s\u00e3o negros ou \u00a0mulatos ou parecem pobres, processam o flagrante, para mostrar servi\u00e7o e compensar o que antes n\u00e3o fizeram\u201d: o que \u00a0essa constata\u00e7\u00e3o diz sobre a sociedade brasileira? O senhor enxerga alguma possibilidade de realmente resolvermos o problema da desigualdade no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o no meu horizonte de vida. \u00a0A oportunidade que t\u00ednhamos est\u00e1 sendo destru\u00edda em ritmo acelerado e de modo inclemente.<\/span><\/p>\n<p><strong>Como o senhor encara o futuro pol\u00edtico pr\u00f3ximo do Brasil? Estamos prestes a dar uma guinada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 extrema direita? O que isso representa? O que isso diz sobre o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever o que vai acontecer. Quem pensa que sabe o que vai acontecer est\u00e1 muito mal informado. Feita essa ressalva, creio mais numa deteriora\u00e7\u00e3o progressiva do tecido social, num aprofundamento e espalhamento da anomia, do que numa guinada espec\u00edfica para a direita ou para a esquerda.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pret\u00e9rito imperfeito tem apenas 150 p\u00e1ginas. \u00c9 o suficiente para o acerto de contas de Bernardo Kucinski. 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