{"id":188,"date":"2017-12-11T15:24:37","date_gmt":"2017-12-11T17:24:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=188"},"modified":"2017-12-11T15:24:37","modified_gmt":"2017-12-11T17:24:37","slug":"francisco-bosco-lutas-identitarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/francisco-bosco-lutas-identitarias\/","title":{"rendered":"Lacra\u00e7\u00e3o, apropria\u00e7\u00e3o cultural, racismo e linchamento nas redes em novo livro de Francisco Bosco"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"font-weight: 400\">O que o clipe de Mallu Magalh\u00e3es, o caso do turbante de Thauane Cordeiro, as marchinhas de carnaval e o epis\u00f3dio da cantora baiana Marcia Castro t\u00eam em comum? Todos ganharam enorme repercuss\u00e3o gra\u00e7as ao que o fil\u00f3sofo Francisco Bosco chama de \u201cnovo espa\u00e7o p\u00fablico brasileiro\u201d. E todos representam uma nova maneira de lidar com as lutas identit\u00e1rias. Foi para refletir sobre esse espa\u00e7o e qual seu impacto na sociedade que Bosco escreveu<em> A v\u00edtima tem sempre raz\u00e3o?<\/em>. <\/span><\/h3>\n<p>Publicado pela Todavia, o livro traz nove ensaios sobre casos recentes que mobilizaram e polarizaram as redes sociais. S\u00e3o epis\u00f3dios que envolvem racismo, machismo e ass\u00e9dio e para os quais Bosco prop\u00f5e um olhar ancorado no debate. As redes sociais democratizaram a discuss\u00e3o, mas tamb\u00e9m trouxeram para o palco os radicalismos. Esses, por sua vez, podem levar a linchamentos p\u00fablicos e colocar um v\u00e9u sobre as lutas identit\u00e1rias, necess\u00e1rias e justas para o mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No livro, Bosco analisa seis casos. As marchinhas tradicionais que transformaram o carnaval de 2017 em uma arena de conflitos por causa de mensagens racistas e machistas \u00e9 o primeiro embate do fil\u00f3sofo. Ele descarta a ideia de censura, mas mergulha na no\u00e7\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o do preconceito ao longo de d\u00e9cadas. Para o caso do turbante, Bosco analisa como a apropria\u00e7\u00e3o cultural de s\u00edmbolos importantes para minorias acabam por render lucros para uma maioria opressora e por perpetuar desigualdades. Apropria\u00e7\u00e3o cultural de s\u00edmbolos da cultura negra, com o turbante, em uma sociedade protagonizada por brancos faz com que \u201cnegros n\u00e3o lucrem o quanto deveriam, nem simb\u00f3lica nem materialmente, com as formas culturais em boa medida inventadas por eles\u201d. Ou seja: n\u00e3o diminui o racismo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O caso da cantora e compositora Mallu Magalh\u00e3es, acusada de sexualizar e objetificar os corpos dos bailarinos negros ao mesmo tempo em que os coloca em cen\u00e1rio atr\u00e1s das grades em clipe da m\u00fasica Voc\u00ea n\u00e3o presta, \u00e9 o menor dos ensaios do livro. O tema ass\u00e9dio ganhou mais aten\u00e7\u00e3o em textos nos quais o autor reflete sobre linchamentos p\u00fablicos ocorridos em tr\u00eas casos recentes. Em todos, Bosco questiona a afirma\u00e7\u00e3o repetida por alguns grupos feministas defensores da ideia de que a v\u00edtima tem sempre raz\u00e3o. Cultura do machismo, cultura do estupro e feminismo radical passam pelo crivo do fil\u00f3sofo em um texto que pode incomodar alguns setores militantes, mas que acrescenta, sobretudo, o questionamento quanto \u00e0s convic\u00e7\u00f5es totalit\u00e1rias que pautam os debates nas redes. S\u00e3o perspectivas que ajudam a pensar e a abrir a discuss\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um dos casos aprofundados pelo autor \u00e9 o da cantora baiana Marcia Castro, acusada de &#8220;fiel defensora de estupradores&#8221; depois de postar uma foto acompanhada de coment\u00e1rio elogioso com o m\u00fasico Fael Primeiro, acusado de abuso sexual. Bosco toma alguns dos coment\u00e1rios postados nas redes sociais da cantora e destrincha afirma\u00e7\u00f5es como &#8220;todo homem \u00e9 um potencial violador&#8221; e &#8220;n\u00e3o se duvida da palavra da v\u00edtima&#8221; para falar de linchamento e de uma din\u00e2mica que avalia como contraproducente para as lutar identit\u00e1rias. Segundo o autor, os linchamentos costumam acontecer contra pessoas reconhecidamente aliadas das causas, o que acaba por prejudicar as lutas e o reconhecimento dessas identidades. &#8220;(&#8230;) os verdadeiros advers\u00e1rios pol\u00edticos dos movimentos identit\u00e1rios n\u00e3o oferecem essa margem de contradi\u00e7\u00e3o (eles assumem, de sa\u00edda, aquilo de que poderiam ser acusados), e com isso, paradoxalmente, permanecem fora do campo das humilha\u00e7\u00f5es&#8221;, escreve, ao lembrar que Marcia Castro j\u00e1 se declarou l\u00e9sbica e feminista e que a suposta v\u00edtima hoje cumpre pena por difama\u00e7\u00e3o e cal\u00fania depois de ser processada pelo m\u00fasico. &#8220;J\u00e1 os aliados fundamentais, quando cometem algum deslize &#8211; que entretanto n\u00e3o compromete um alinhamento mais <\/span><span style=\"font-weight: 400\">decisivo -, tornam-se prato cheio para o repasto dos<em> social justice warriors<\/em> digitais&#8221;, continua.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Ciente de que algumas de suas coloca\u00e7\u00f5es podem gerar pol\u00eamica e ataques, ele explica, logo na introdu\u00e7\u00e3o, que o livro procura identificar e pesar argumentos de perspectivas divergentes. As dimens\u00f5es cr\u00edtica e te\u00f3rica guiam os ensaios, mas Bosco sabe tamb\u00e9m que fala de uma posi\u00e7\u00e3o &#8220;de fora&#8221; (homem, branco, h\u00e9tero, classe m\u00e9dia alta) e inserido em uma estrutura de poder. E avisa: &#8220;Em que pesem dissensos pontuais, a perspectiva te\u00f3rica, cr\u00edtica e pol\u00edtica deste livro \u00e9 a de reconhecimento fundamental da legitimidade e da relev\u00e2ncia dos movimentos sociais identit\u00e1rios, dos quais, portanto, me considero um aliado no sentido mais amplo e decisivo&#8221;. \u00a0<span style=\"font-weight: 400\"><em>A v\u00edtima tem sempre raz\u00e3o?<\/em> \u00e9 fruto dessas preocupa\u00e7\u00f5es e merece um lugar nas estantes de quem tem d\u00favidas. <\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-195\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2017\/12\/bosco-150x150.jpg\" alt=\"bosco\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A v\u00edtima tem sempre \u00a0raz\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Francisco Bosco. Todavia, 206 p\u00e1ginas. R$ 49,90<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>ENTREVISTA: FRANCISCO BOSCO<\/h2>\n<p><strong>Pode contar um pouco o que te motivou a escrever o livro? Por que \u00e9 necess\u00e1rio falar desse novo espa\u00e7o p\u00fablico brasileiro e dessa nova forma de confronto?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Porque o Brasil est\u00e1 se transformando e \u00e9 preciso compreender quais s\u00e3o os sentidos em jogo nessa mudan\u00e7a, a fim de que as pessoas possam ter mais recursos para se posicionar. A combina\u00e7\u00e3o de junho de 2013, o colapso do lulismo e a expans\u00e3o das redes digitais produziu altera\u00e7\u00f5es importantes na experi\u00eancia social do pa\u00eds. A autoimagem cultural ligada ao encontro, \u00e0 cordialidade, \u00e0 festa foi largamente abandonada. A sociedade se tornou ind\u00f3cil. O novo espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 mais intenso e democr\u00e1tico (as redes digitais s\u00e3o ferramentas de autocomunica\u00e7\u00e3o), por\u00e9m mais polarizado e irrefletido. <\/span><\/p>\n<p><strong>Como o t\u00edtulo engloba todas as quest\u00f5es discutidas no livro?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A cr\u00edtica que fa\u00e7o \u00e0s lutas identit\u00e1rias (lutas fundamentalmente justas) incide no que chamo de suas \u201cconvoca\u00e7\u00f5es totalizantes\u201d. Ou seja, os apelos por posicionamentos incondicionais, e por isso mesmo dogm\u00e1ticos e autorit\u00e1rios. Essas convoca\u00e7\u00f5es totalizantes se traduzem em premissas como \u201ca v\u00edtima tem sempre raz\u00e3o\u201d, \u201c\u00e9 preciso ter sororidade incondicional\u201d etc. Que esse tipo de convoca\u00e7\u00e3o, que traz um evidente potencial de injusti\u00e7a (deve-se apoiar uma mulher, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">diante do que quer que ela fa\u00e7a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, pelo fato de ela ser mulher?), seja aceito, isso se deve a que as identifica\u00e7\u00f5es grupais s\u00e3o muito compensadoras para o narcisismo do sujeito. Todos do grupo se apoiam e se aprovam. Pertencer a um grupo fortalece psicologicamente, atenua a ang\u00fastia, e ainda organiza politicamente. Isso tudo \u00e9 \u00f3timo \u2013 desde que, para n\u00e3o interromper esse circuito de vantagens, as pessoas n\u00e3o se permitam gozar perversamente. E contudo isso tem acontecido. Entre tantos casos de den\u00fancias justas contra homens, pois que tratam mesmo de opress\u00f5es de indiv\u00edduos contra mulheres, h\u00e1 diversos casos de den\u00fancias evidentemente inconsistentes (analiso alguns no livro), mas que se transformam em linchamentos, por causa das tais convoca\u00e7\u00f5es totalizantes, que n\u00e3o permitem que se instaure qualquer dissenso, qualquer d\u00favida.<\/span><\/p>\n<p><strong>Os linchamentos, lacra\u00e7\u00f5es, escrachos digitais, public shammings seriam mais comuns em locais como o Brasil? Ou \u00e9 uma caracter\u00edstica universal das redes digitais?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O principal fator s\u00e3o as redes digitais. Elas propiciam identifica\u00e7\u00e3o grupal em larga escala, convidam a comportamentos menos refletidos que mim\u00e9ticos e s\u00e3o um meio altamente narc\u00edsico. Diferentemente do espa\u00e7o p\u00fablico tradicional, que \u00e9 mais impessoal, nas redes digitais cada sujeito fala com um conjunto de outros sujeitos, todos com foto e perfil pr\u00f3prio. Ora, n\u00e3o \u00e9 preciso ter estudado Lacan para suspeitar da rela\u00e7\u00e3o entre narcisismo e agressividade. Al\u00e9m disso, h\u00e1, claro, o fato de o Brasil ser um pa\u00eds profundamente injusto, tanto na distribui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica quanto na distribui\u00e7\u00e3o do reconhecimento. \u00c9 uma sociedade largamente racista, machista e lgbtf\u00f3bica. \u00a0A revolta que isso produz tenta transformar a sociedade de diversas maneiras \u2013 e isso deve ser fundamentalmente apoiado. Mas nem todas as maneiras s\u00e3o justas e produtoras de bons resultados. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201c(&#8230;) por conta de supostos erros, ou de dissensos n\u00e3o aceitos por grupos identit\u00e1rios que n\u00e3o admitem d\u00favidas ou questionamentos, aliados fundamentais s\u00e3o transformados em advers\u00e1rios &#8212; e centenas de coment\u00e1rios depois, em inimigos. H\u00e1 a\u00ed um n\u00edvel pol\u00edtico-estrat\u00e9gico do problema\u201d: o que isso implica, a longo prazo?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A teoria social fala em dois mecanismos diversos e complementares: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">bridging<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">bonding<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, isto \u00e9, fazer alian\u00e7as com grupos \u201cde fora\u201d e instaurar mecanismos de coes\u00e3o grupal, que tendem a excluir os \u201cde fora\u201d. Penso que a balan\u00e7a dos movimentos identit\u00e1rios hoje pende radicalmente para as din\u00e2micas de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">bonding<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Isso afasta da luta as pessoas de fora, as pessoas n\u00e3o pertencentes a esses grupos. N\u00e3o \u00e9 boa estrat\u00e9gia para fazer avan\u00e7ar pautas concretas, que dependem do apoio de v\u00e1rios setores da sociedade. E mesmo que se admita, como eu penso, que as lutas identit\u00e1rias hoje est\u00e3o mais preocupadas em desconstruir o preconceito social do que em avan\u00e7ar agendas concretas (o que me parece pertinente), o car\u00e1ter dogm\u00e1tico e autorit\u00e1rio que atravessa essas lutas tende a lhes angariar antipatia social. Como ali\u00e1s se pode verificar em diversas p\u00e1ginas sat\u00edricas nas redes digitais, curtidas por milhares de pessoas. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>O lugar da fala \u00e9 um tema muito discutido hoje nas lutas identit\u00e1rias: n\u00e3o se pode falar de machismo se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mulher, n\u00e3o se pode falar de racismo se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 negro\u2026 Como se posicionar diante dessas posturas sem inviabilizar o di\u00e1logo e o debate?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lugar de fala \u00e9 uma esp\u00e9cie de conceito-moeda. Ele tem duas faces. A primeira \u00e9 correta e urgente. Ela defende que a viv\u00eancia concreta da subalternidade d\u00e1 acesso a dimens\u00f5es dos conflitos sociais que a abordagem te\u00f3rica n\u00e3o \u00e9 capaz de ver. Por isso \u00e9 imprescind\u00edvel que o debate sobre os conflitos sociais incorpore essas vozes que t\u00eam viv\u00eancia. Em sua outra face, por\u00e9m, a ideia de lugar de fala \u00e9 convocada para desqualificar a participa\u00e7\u00e3o no debate da parte de qualquer um que n\u00e3o tenha essa viv\u00eancia. A premissa alegada \u00e9 a de que a interven\u00e7\u00e3o de um tal sujeito s\u00f3 poderia reproduzir os interesses de sua estrutura de origem. Assim, brancos s\u00e3o necessariamente interessados em perpetuar o racismo; homens, em perpetuar o machismo; e assim por diante. H\u00e1 nisso, para come\u00e7ar, uma leitura muito rasa do que \u00e9 o interesse de um sujeito. E, mais fundamentalmente, h\u00e1 a anula\u00e7\u00e3o do que Kant designa como a pr\u00f3pria vida moral do sujeito, que \u00e9 a sua capacidade de, pelo menos em parte, transcender o seu interesse imediato e particular. Em suma, trata-se de expulsar a solidariedade da experi\u00eancia social.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u201cUma das consequ\u00eancias mais importantes da emerg\u00eancia do novo espa\u00e7o p\u00fablico foi o questionamento do papel da grande imprensa\u201d: voc\u00ea tem observado alternativas consistentes e s\u00e9rias \u00e0 grande imprensa no Brasil? Esse espa\u00e7o tem se reorganizado? E o que essa reorganiza\u00e7\u00e3o significa para o pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Penso que o \u00fanico diagn\u00f3stico claro, a essa altura, \u00e9 o de que as redes digitais n\u00e3o s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o para o problema da necessidade de democratizar a informa\u00e7\u00e3o no Brasil. Elas produzem novos problemas, t\u00e3o graves quanto os anteriores. <\/span><\/p>\n<p><strong>Desigualdade social X reconhecimento identit\u00e1rio: qual o lugar de cada um, um se submete ao outro, como diz Vladimir Safatle? Estamos patinando nas lutas identit\u00e1rias por n\u00e3o conseguirmos resolver o problema da desigualdade?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa. Em primeiro lugar, ela \u00e9 de natureza complementar: o problema do reconhecimento \u00e9 irredut\u00edvel ao problema econ\u00f4mico. Basta lembrar as persegui\u00e7\u00f5es a homossexuais no castrismo e no stalinismo e o fato de as lideran\u00e7as revolucion\u00e1rias e os dirigentes dos partidos comunistas serem quase sempre homens. Mas, em segundo lugar, \u00e9 bem prov\u00e1vel que a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade econ\u00f4mica tenha impacto sobre a desigualdade de reconhecimento. Nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel, por exemplo, que o racismo brasileiro seja mais efeito de s\u00e9culos de escravid\u00e3o (que naturalizaram, para muitos, uma subalternidade das pessoas negras) do que do sucesso, entre n\u00f3s, das ideologias branqueadoras da Europa oitocentista. Em terceiro lugar, penso que a intensidade alcan\u00e7ada pelas lutas identit\u00e1rias tem sim uma rela\u00e7\u00e3o com o fato de a luta por igualdade econ\u00f4mica e por democratiza\u00e7\u00e3o institucional estarem completamente sequestradas, nesse momento, pelo governo ileg\u00edtimo de Temer. Mas isso n\u00e3o retira a import\u00e2ncia e pertin\u00eancia das lutas identit\u00e1rias.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u201cPolitiza\u00e7\u00e3o extrema no campo da cultura \u00e9 o que estamos testemunhando no Brasil\u201d: na sua opini\u00e3o, por que chegamos a essa politiza\u00e7\u00e3o extrema?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Resumindo ao m\u00ednimo, penso que a autoimagem cordial do pa\u00eds, inspirada na cultura popular e suas incr\u00edveis realiza\u00e7\u00f5es (democracia racial, encontro desierarquizado entre pobres, ricos e classes m\u00e9dias, etc.), se provou incapaz de se traduzir, tal e qual, na experi\u00eancia s\u00f3cio-econ\u00f4mica. Essa \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o quase que geral da experi\u00eancia cultural. Por isso, a sociedade foi progressivamente repudiando sua autoimagem cordial e aderindo a uma autoimagem de confronto. Passamos, na minha express\u00e3o, da cultura \u00e0 pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><strong>O que aprendemos com os epis\u00f3dios das marchinhas de carnaval, do turbante e do clipe da Mallu Magalh\u00e3es?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Muitas coisas. O epis\u00f3dio das marchinhas, por exemplo, revelou para muitos que a l\u00edngua \u00e9 um campo de luta pol\u00edtica. Nela se reproduzem os preconceitos que, por sua vez, contribuem para a manuten\u00e7\u00e3o do status quo social. Diferentemente do que pensam os detratores do politicamente correto, creio que desnaturalizar a experi\u00eancia da l\u00edngua \u00e9 sim um ato pol\u00edtico transformador. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que o clipe de Mallu Magalh\u00e3es, o caso do turbante de Thauane Cordeiro, as marchinhas de carnaval e o epis\u00f3dio da cantora baiana Marcia Castro t\u00eam em comum? Todos ganharam enorme repercuss\u00e3o gra\u00e7as ao que o fil\u00f3sofo Francisco Bosco chama de \u201cnovo espa\u00e7o p\u00fablico brasileiro\u201d. E todos representam uma nova maneira de lidar com as lutas identit\u00e1rias. Foi para refletir sobre esse espa\u00e7o e qual seu impacto na sociedade que Bosco escreveu A v\u00edtima tem sempre raz\u00e3o?.<\/p>\n","protected":false},"author":82,"featured_media":194,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[120,118,122,119,4,121,123,24],"tags":[131,129,130,125,132,128,124,126,127,108],"class_list":["post-188","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-assedio","category-ensaio","category-feminismo","category-filosofia","category-livro","category-machismo","category-racismo","category-vitimas","tag-cenrusa","tag-cultura-do-estupro","tag-cultura-do-machismo","tag-feministas","tag-homofobia","tag-lacracao","tag-lutas-identitarias","tag-machistas","tag-minorias","tag-racismo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.9 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>francisco 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