{"id":269,"date":"2018-02-27T11:51:57","date_gmt":"2018-02-27T14:51:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=269"},"modified":"2018-02-27T11:51:57","modified_gmt":"2018-02-27T14:51:57","slug":"memorias-e-afetos-do-mundo-musical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/memorias-e-afetos-do-mundo-musical\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias e afetos do mundo musical"},"content":{"rendered":"<h3>O jornalista Ol\u00edmpio Cruz Neto transformou algumas de suas can\u00e7\u00f5es preferidas nos textos que comp\u00f5em o seu primeiro livro: <em>Playlist \u2014 cr\u00f4nicas sentimentais de can\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis<\/em>, dispon\u00edvel na plataforma <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Playlist-Cr%C3%B4nicas-sentimentais-can%C3%A7%C3%B5es-inesquec%C3%ADveis-ebook\/dp\/B079495WK3\/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1516909099&amp;sr=8-1&amp;keywords=ol%C3%ADmpio+cruz+neto\">digital Amazon<\/a>. O autor enviou um dos cap\u00edtulos para o blog. Confira a seguir a cr\u00f4nica sobre um dos maiores cl\u00e1ssicos da banda inglesa dos anos 1980 The Smiths. Leia mais sobre o livro no <strong><a href=\"http:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/diversao-e-arte\/2018\/02\/27\/interna_diversao_arte,662385\/jornalista-publica-livro-com-a-historia-por-tras-de-classicos-da-music.shtml\">Divers\u00e3o &amp; Arte<\/a><\/strong> .<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><em>There is a light that never goes out<\/em><\/h2>\n<p>Para Beto S\u00f3, Oscar Ju e Cynthia Garda<\/p>\n<p>De todas as belas can\u00e7\u00f5es da banda inglesa Smiths, uma das mais importantes da cena brit\u00e2nica dos anos 80, essa \u00e9 a que mais mexe com o meu imagin\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 que a melodia seja inusual. Nada disso. \u201cThere is a light that never goes out\u201d \u00e9, na verdade, tipicamente \u201cmarriana\u201d. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 da dupla James Patrick Morrissey e Johnny Marr, o Lennon e McCartney da minha gera\u00e7\u00e3o. Dois caras brilhantes. Volta e meia, essa obra volta a chamar aten\u00e7\u00e3o, sendo inclu\u00edda na lista das grandes e melhores de todos os tempos. Composta em 1985 pela dupla, no auge de sua criatividade, a faixa \u00e9 considerada por todo f\u00e3 dos Smiths como divina.<\/p>\n<p>Ela tem mesmo uma graciosidade excepcional que provoca um contraste forte com a letra de cores m\u00f3rbidas, uma das caracter\u00edsticas de Morrissey. A melodia \u00e9 intensa e ganha contornos de trag\u00e9dia, gra\u00e7as a essa combina\u00e7\u00e3o e ao arranjo de cordas que causa um cl\u00edmax arrepiante. A can\u00e7\u00e3o pop perfeita. \u00c9pica, intensa e esplendorosamente simples.<\/p>\n<p>A m\u00fasica integra o disco <em>The Queen is Dead<\/em>, o pen\u00faltimo trabalho dos Smiths, lan\u00e7ado em 1986. O \u00e1lbum \u00e9 considerado o melhor do grupo. E deve ser mesmo. Como sou f\u00e3 e gosto de todos, fica dif\u00edcil dar uma opini\u00e3o. O certo \u00e9 que foi o LP que lan\u00e7ou os Smiths \u00e0 estratosfera e deu in\u00edcio ao fim da banda. O grupo acabaria no ano seguinte.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 que, apesar de muito conhecida, \u201cThere is a light&#8230;\u201d jamais foi lan\u00e7ada como single pelo grupo, enquanto estava no auge. Um erro absurdo dos caras. A sugest\u00e3o chegou a ser dada, mas reza a lenda que Marr n\u00e3o se convenceu&#8230;<\/p>\n<p>Em uma entrevista \u00e0 revista inglesa <em>Uncut<\/em>, o guitarrista disse que a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi lan\u00e7ada em single exatamente para dar uma aura de grande \u00e1lbum a <em>Queen is Dead<\/em>, assim como <em>How Soon is Now<\/em> tamb\u00e9m jamais saiu em single e est\u00e1 no \u00e1lbum <em>Meat is muder<\/em>, lan\u00e7ado em 1985.<\/p>\n<p>Eu sempre fui muito ligado a essas duas can\u00e7\u00f5es, muito pelo trabalho de guitarras e viol\u00f5es, esse am\u00e1lgama de tran\u00e7ados que \u00e9 a marca registrada de Johnny Marr. Texturas e floreios requintados.<\/p>\n<p>O guitarrista confessou em uma entrevista \u00e0 revista Select que roubou os acordes da introdu\u00e7\u00e3o de uma cover que os Rolling Stones fizeram para a can\u00e7\u00e3o <em>Hitch Hike<\/em>, de Marvin Gaye, William Stevenson e Clarence Paul, presente no terceiro \u00e1lbum da banda inglesa,<em> Out of our heads<\/em>, lan\u00e7ado em agosto de 1965. Os Stones tamb\u00e9m surrupiaram de muita gente, ent\u00e3o&#8230; N\u00e3o tem problema.<\/p>\n<p>Essa mesma introdu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 havia sido roubada dessa mesma vers\u00e3o dos Stones pelo Velvet Underground, que executou o crime em <em>There she goes again<\/em>, faixa que est\u00e1 no disco da banana, lan\u00e7ado pelo grupo em 1967. Ent\u00e3o Marr \u201croubou\u201d dos Stones, sabia que o Velvet havia \u201croubado\u201d dos Stones, mas acreditava que algu\u00e9m na imprensa musical inglesa iria denunciar o caso, para apontar que o guitarrista dos Smiths havia surrupiado uma intro do Velvet. Bem, ningu\u00e9m percebeu. Ele se disse surpreso com o pouco caso.<\/p>\n<p>Outra surpresa, dessa vez para mim pelo menos, \u00e9 que o conjunto de cordas usado por Marr nesta can\u00e7\u00e3o, que eu imaginava tratar-se de uma orquestra de verdade, foi feita a partir de um sintetizador. Reza a lenda que Morrissey estava apavorado com a possibilidade da can\u00e7\u00e3o vir a soar artificial. A banda n\u00e3o tinha dinheiro para contratar m\u00fasicos de verdade. Optou-se pela sa\u00edda econ\u00f4mica, com o sintetizador sendo tocado por Marr.<\/p>\n<p>Os temores do vocalista eram infundados. O grupo acertou a m\u00e3o. Marr diz que todos ficaram imediatamente satisfeitos quando ouviram o primeiro registro depois de terem tocado nas sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 sublime j\u00e1 de in\u00edcio com as guitarras de Marr soando abertas, quando ele ataca a introdu\u00e7\u00e3o em R\u00e9 menor, o baixo sinuoso de Andy Rourke vai marcando com firmeza a melodia para que Morrissey possa cantar, como um apelo, os primeiros versos:<\/p>\n<p>\u201cTake me out tonight\/ Where there\u2019s music and there\u2019s people\/ Who are young and alive\/ Driving in your car\/ I never never want to go home\/ Because I haven\u2019t got one anymore\u201d.<\/p>\n<p>Em portugu\u00eas:<\/p>\n<p>Leve-me para sair esta noite\/ Para onde haja m\u00fasica e pessoas\/ Que sejam jovens e vivas\/ Dirigindo no seu carro\/ Eu nunca, nunca quero ir pra casa\/ Porque eu n\u00e3o tenho mais casa\u201d&#8230;<\/p>\n<p>A voz que entoa a can\u00e7\u00e3o, desesperada, clama por aten\u00e7\u00e3o. S\u00f3 quer um convite para sair de casa e se divertir&#8230; Aos 15, 16 anos, em plenos anos 80, era tudo que uma pessoa poderia pedir. A vontade de sair por a\u00ed, sem eira nem beira, viver para ver a vida correr&#8230; Vivendo intensamente, mesmo que seja para morrer imediatamente.<\/p>\n<p>O cantor sabe, e n\u00f3s tamb\u00e9m intu\u00edmos ao ouvi-lo, que h\u00e1 riscos nisso. Mas, mesmo sabendo desses riscos, declamados nos versos contidos no refr\u00e3o, realmente arrebatador, vale viver o amor. Diz a letra no bridge:<\/p>\n<p>\u201cAnd if a double-decker bus\/ Crashes into us\/ To die by your side\/ Is such a heavenly way to die\/ And if a ten-ton truck\/ Kills the both of us\/ To die by your side\/ Well, the pleasure, the privilege is mine&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Vejam como soa na primeira l\u00edngua de Renato Russo, em tradu\u00e7\u00e3o livre:<\/p>\n<p>\u201cE se um \u00f4nibus de dois andares\/ Batesse contra n\u00f3s\/ Morrer ao seu lado\/ Seria um jeito divino de fenecer\/ E se um caminh\u00e3o de dez toneladas\/ Matasse a n\u00f3s dois\/ Morrer ao seu lado\/ Bem, o prazer, o privil\u00e9gio \u00e9 meu\u201d.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 embara\u00e7oso, mas tamb\u00e9m absolutamente sensacional porque Morrissey, um dos mais brilhantes letristas do rock ingl\u00eas, acende a chama irrefre\u00e1vel de uma paix\u00e3o adolescente, com os requintes da ansiedade que domina o amor juvenil. Ele estava anos luz \u00e0 frente dos letristas ingleses de sua gera\u00e7\u00e3o. Esta can\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas melhores m\u00fasicas de todos os tempos.<\/p>\n<p>O jornalista Simon Goddard conta que a can\u00e7\u00e3o foi inspirada no filme <em>Juventude Transviada<\/em>, estrelado por James Dean, uma obra-prima dirigida por Nicholas Ray, lan\u00e7ada em 1955, que conta a hist\u00f3ria de Jim Stark, papel vivido por Dean, jovem problem\u00e1tico. Certo dia, Stark \u00e9 preso por embriaguez e, ao chegar \u00e0 delegacia, conhece Judy (Natalie Wood). Eles se apaixonam, ela tem um namorado, os rapazes entram em conflito aberto&#8230; Era para ser um filme sobre de retrato da decad\u00eancia juvenil americana, mas se tornou um libelo da rebeldia.<\/p>\n<p>Dean alcan\u00e7aria a imortalidade porque este foi o seu \u00faltimo papel em vida. O filme foi lan\u00e7ado um m\u00eas depois da morte do ator, de quem Morrissey era f\u00e3 absoluto. O cantor voltaria a gravar esta can\u00e7\u00e3o desta vez como single, em sua carreira solo, em 2005.<\/p>\n<p>Johnny Marr disse certa vez que tinha muito orgulho de t\u00ea-la criado e que a considera sua melhor can\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m a favorita. O rapaz tinha 22 anos quando cometeu essa can\u00e7\u00e3o ao lado do parceiro Morrissey. \u00c9 de fato uma obra-prima e a cr\u00edtica a considera a que melhor define o som dos Smiths.<\/p>\n<p>O cantor venezuelano Mikel Erentxun, ex-vocalista do grupo de rock espanhol Duncan Dhu, gravou em 1992 uma vers\u00e3o na l\u00edngua de Cervantes, em seu disco solo de estreia, <em>Naufr\u00e1gios<\/em>, de 1992, que obviamente n\u00e3o ficou \u00e0 altura da obra de Morrissey e Marr, porque a letra se perde um pouco na vers\u00e3o em castelhano. O refr\u00e3o ficou assim:<\/p>\n<p>\u201cY si estoy s\u00f3lo esta vez, no es casualidad\/ morir por ti ser\u00eda un lento y bello final\/ y no regresar\u00e1s a mi coraz\u00f3n\/ morir por ti ser\u00eda un ambicioso final&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer que a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o soa t\u00e3o bonita em espanhol como \u00e9 na l\u00edngua de Shakespeare, mas o apelo original na inten\u00e7\u00e3o de Morrissey de tirar a vida para encontrar a felicidade em outro plano certamente explicita o suic\u00eddio que a can\u00e7\u00e3o sugere. Ali\u00e1s, por causa disso, a musica chegou a ser classificada como m\u00f3rbida, exatamente por essa certa glamouriza\u00e7\u00e3o do ato final.<\/p>\n<p><span style=\"color: #222222;font-size: 12pt;font-family: 'Times New Roman'\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista Ol\u00edmpio Cruz Neto transformou algumas de suas can\u00e7\u00f5es preferidas nos textos que comp\u00f5em o seu primeiro livro: Playlist \u2014 cr\u00f4nicas sentimentais de can\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis, dispon\u00edvel na plataforma digital Amazon. O autor enviou um dos cap\u00edtulos para o blog. Confira a seguir a cr\u00f4nica sobre um dos maiores cl\u00e1ssicos da banda inglesa dos anos 1980 The Smiths. 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