{"id":341,"date":"2018-05-10T16:44:26","date_gmt":"2018-05-10T19:44:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=341"},"modified":"2018-05-12T15:23:36","modified_gmt":"2018-05-12T18:23:36","slug":"tiago-ferro-veja-resenha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/tiago-ferro-veja-resenha\/","title":{"rendered":"Tiago Ferro fala de luto sem clich\u00eas em &#8220;O pai da menina morta&#8221;. Veja a resenha"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"font-weight: 400\"><em>O pai da menina morta<\/em> n\u00e3o \u00e9 um livro autobiogr\u00e1fico. O autor, Tiago Ferro, publicou o relato sobre a morte de sua filha de 8 anos em 2016. Foi um belo e corajoso texto sobre o luto e Ferro achou que poderia continu\u00e1-lo quando embarcou em <em>O pai da menina morta<\/em>, em maio de 2017, um ano ap\u00f3s a morte de Manuela. Mas o livro tomou outro rumo. Se tornou uma resposta a um momento em que a parte mais dura do luto estava encerrada, aquela em que a vida retoma e \u00e9 preciso ressignificar o cotidiano para continuar encarando o mundo. E o neg\u00f3cio \u00e9 que Tiago Ferro n\u00e3o faz isso de uma maneira banal. E muito menos com clich\u00eas.\u00a0<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><em>O pai da menina morta<\/em> \u00e9 um livro experimental, n\u00e3o-linear, j\u00e1 que linearidade n\u00e3o condiz com o vaiv\u00e9m dos sentimentos, e uma das melhores coisas publicadas na literatura brasileira contempor\u00e2nea neste primeiro semestre. Preste aten\u00e7\u00e3o nas listas de pr\u00eamios liter\u00e1rios que v\u00eam por a\u00ed, porque o romance de Ferro vai estar em uma delas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O autor come\u00e7ou a escrever em forma de di\u00e1rio. Aos poucos, abandonou o formato e se libertou das estruturas, experimentou registros de mem\u00f3ria, embaralhou um pouco o texto e a narrativa tradicional ficou para tr\u00e1s. Felizmente. E-mails, listas, cartas, verbetes foram inclu\u00eddos, assim como trechos do suposto di\u00e1rio. At\u00e9 fotografias aparecem na narrativa. N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o associar essa desorganiza\u00e7\u00e3o, essa sobreposi\u00e7\u00e3o de relatos, de descri\u00e7\u00f5es de sensa\u00e7\u00f5es, de busca de sentido em significados de palavras e express\u00f5es ao pr\u00f3prio luto. Esse processo n\u00e3o tem f\u00f3rmula, sequ\u00eancia l\u00f3gica ou estrat\u00e9gia de supera\u00e7\u00e3o capaz de dar conta do vivido. Nem o romance de Ferro. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No livro, um pai perde uma filha. Uma crian\u00e7a. \u00c9 pai de outra menina, casado. H\u00e1 muitas semelhan\u00e7as com a trajet\u00f3ria do autor. E h\u00e1, principalmente, uma tentativa de reorganizar os sentidos que fica muito clara nas a\u00e7\u00f5es do personagem. \u201cEu n\u00e3o quero ser O Pai da Menina Morta. Eu sempre serei O Pai da Menina Morta. N\u00e3o estou procurando ou exigindo qualquer tipo de justi\u00e7a. Eu simplesmente aceito a dor aguda na aus\u00eancia. No vazio. N\u00f3s tamb\u00e9m somos feitos de espa\u00e7os em branco. Nosso corpo n\u00e3o \u00e9 uma massa densa. \u00c9 preciso lembrar disso\u201d, avisa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse narrador n\u00e3o aceita respostas f\u00e1ceis, prontas, embaladas. Ele n\u00e3o quer chegar a nenhum ponto espec\u00edfico. Poderia encontrar um certo conforto, um assentamento, na religi\u00e3o, mas essa n\u00e3o satisfaz. Ou no sexo, quando desenvolve uma certa obsess\u00e3o pela professora de yoga, mas tamb\u00e9m n\u00e3o aceita esse caminho como um fim. E envereda por v\u00e1rias possibilidades, pela cultura, pela pol\u00edtica, pela amizade. Mas ele est\u00e1 sempre desconfiado, de si mesmo e dos outros. Ao inv\u00e9s de respostas, coloca perguntas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><em>O Pai da menina morta<\/em> \u00e9 um livro sobre reinven\u00e7\u00e3o constante, sobre estranhamento, sobre ser jogado em um mundo no qual \u00e9 preciso reaprender, e esse \u00e9 o ponto em que a sobreviv\u00eancia se torna poss\u00edvel para o narrador. \u00c9 um romance impactante, dif\u00edcil de ler, mas de imediata empatia, aquela faculdade imprescind\u00edvel para a literatura e para a vida. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Entrevista: Tiago Ferro<\/h2>\n<p><strong>\u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil falar sobre ou viver o luto\u2026Quando voc\u00ea fragmenta, ele ganha outro sentido?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dif\u00edcil avaliar nesse sentido de como reflete a minha pr\u00f3pria experi\u00eancia do luto. Acho que essa fragmenta\u00e7\u00e3o responde mais a uma experi\u00eancia menos clich\u00ea do que seria o luto, porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dor, ou s\u00f3 trag\u00e9dia. A vida vai se reconectando aos poucos e em momentos que n\u00e3o s\u00e3o os esperados. O livro trabalha um pouco com isso. A mem\u00f3ria passa filtrada por essa trag\u00e9dia e continua aparecendo e acionando quest\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 da perda e da busca de sentido. Acho que essa fragmenta\u00e7\u00e3o sai um pouco do que as pessoas esperam de uma narrativa do luto que seria s\u00f3 a dor, o sofrimento, a incapacidade de querer continuar a fazer as coisas que vinham sendo feitas. Acho que \u00e9 isso. Passa a ser um ponto um pouco fora do tempo e do espa\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma ressignifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sim, sem d\u00favida. Acho que o livro trata principalmente disso, de sair e ser jogado pra fora e depois essa tentativa de buscar um lugar em que voc\u00ea come\u00e7a a ver tudo de uma forma estranhada. Acho que o narrador acaba sendo uma esp\u00e9cie de uma ideia de literatura a partir de um momento que ele n\u00e3o se satisfaz com respostas, ele segue colocando perguntas e n\u00e3o interrompe esse fluxo at\u00e9 o fim do livro, ele segue questionando.<\/span><\/p>\n<p><strong>Na \u00e9poca da morte da sua filha voc\u00ea postou nas redes e teve uma exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica que voc\u00ea fez quest\u00e3o de ter. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na verdade, a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica aconteceu um passo antes de eu tamb\u00e9m faz\u00ea-la. Como era uma menina de classe m\u00e9dia que tinha acesso a tudo, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinha nenhuma limita\u00e7\u00e3o nesse sentido, e morreu de gripe, todo mundo ficou chocado porque sa\u00eda um pouco da estat\u00edstica. E de repente, no primeiro dia, eu vi o print da minha p\u00e1gina no Facebook no jornal falando \u201cmenina morre de gripe\u201d. Aquilo me motivou a querer tomar a r\u00e9dea dessa divulga\u00e7\u00e3o, de querer falar que ela n\u00e3o era uma estat\u00edstica, que era uma menina espec\u00edfica, minha filha, etc. E hoje consigo perceber como a escrita fez parte de todo esse processo. Primeiro no Facebook, depois escrevi um texto para ser lido na missa de s\u00e9timo dia, e hoje nem imagino como consegui fazer aquilo, e logo na sequ\u00eancia escrevi o texto da Piau\u00ed, que era sobre minha experi\u00eancia e da minha mulher depois da morte dela. O livro j\u00e1 \u00e9 uma reflex\u00e3o dessa experi\u00eancia toda, sem a preocupa\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica. Escrever, de alguma forma, pontuou alguns momentos dessa experi\u00eancia sem que, naquele momento, eu pudesse avaliar o porqu\u00ea daquele tipo de escrita e daquela atitude. O sentido foi sempre sendo dado depois, mas a escrita fez parte do processo todo.<\/span><\/p>\n<p><strong>Por que acha que o livro est\u00e1 tendo tanta repercuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o. Tem um interesse pela hist\u00f3ria, porque ela teve uma exposi\u00e7\u00e3o, e ao mesmo tempo come\u00e7am a surgir leituras e uma repercuss\u00e3o que responde ao livro como forma liter\u00e1ria independente do que eu vivi. Muita gente passa por trag\u00e9dia, isso n\u00e3o \u00e9 uma novidade, ent\u00e3o o fato em si n\u00e3o justificaria o livro ter ou n\u00e3o uma repercuss\u00e3o ou ser ou n\u00e3o bem avaliado. Tem que funcionar como forma liter\u00e1ria. <\/span><\/p>\n<p><strong>E como voc\u00ea encara essa literatura que nasce da trag\u00e9dia, que \u00e9 tamb\u00e9m um g\u00eanero dentro da literatura?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 uma literatura sempre limite, principalmente hoje, na nossa realidade imediata, no Brasil. Com toda viol\u00eancia e todo o absurdo que a gente vive, a morte virou um tabu mais do que nunca, as pessoas t\u00eam que seguir ativas, trabalhando, consumindo, gastando at\u00e9 o fim. Acho que trazer o tema da morte escancarado, t\u00e1 no t\u00edtulo, tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de se enfrentar esse tabus que v\u00e3o se estabelecendo um pouco por conta desse dom\u00ednio de uma sociedade de consumo, de uma sociedade que tem que estar feliz o tempo todo e na qual qualquer tristeza \u00e9 tratada com antidepressivos. Essas experi\u00eancias v\u00e3o ficando um pouco arredias, mas est\u00e3o a\u00ed a todo momento. O livro trata de um assunto que come\u00e7a a ser visto de forma menos natural no mundo contempor\u00e2neo, o que \u00e9 esquisito porque \u00e9 um mundo de confronto, viol\u00eancia e muita trag\u00e9dia. Por isso eu digo que perder um filho n\u00e3o \u00e9 uma novidade, a quest\u00e3o \u00e9 como narrar essa hist\u00f3ria, como transformar em forma liter\u00e1ria. Esse tipo de literatura, de forma geral, responde a uma tentativa da nossa sociedade de recalcar esses temas, de n\u00e3o lidar. E o livro exp\u00f5e isso de forma direta e sem filtro. <\/span><\/p>\n<p><strong>O pai da menina morta<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Tiago ferro. Todavia, 174 p\u00e1ginas. R$ 44,90<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pai da menina morta n\u00e3o \u00e9 um livro autobiogr\u00e1fico. O autor, Tiago Ferro, publicou o relato autobiogr\u00e1fico sobre a morte de sua filha de 8 anos em 2016. 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