{"id":488,"date":"2019-06-14T18:15:09","date_gmt":"2019-06-14T21:15:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=488"},"modified":"2019-06-14T18:15:09","modified_gmt":"2019-06-14T21:15:09","slug":"marie-curie-por-rosa-montero-um-livro-duro-e-delicado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/marie-curie-por-rosa-montero-um-livro-duro-e-delicado\/","title":{"rendered":"Marie Curie por Rosa Montero: um livro duro e delicado"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"font-weight: 400\">Nas fotografias oficiais, Marie Curie parece uma mulher fria e dura. Era, talvez, a \u00fanica postura poss\u00edvel para que uma cientista do sexo feminino e com uma mente brilhante fosse levada a s\u00e9rio no final do s\u00e9culo 19. O que n\u00e3o se v\u00ea nessas imagens \u00e9 o lado passional e humano de Marie. Esse, que todos n\u00f3s temos em algum momento da vida, foi devidamente calado e amorda\u00e7ado. Afinal, estudar f\u00edsica e qu\u00edmica, ser pioneira no ramo da radioatividade, conseguir isolar is\u00f3topos radioativos, descobrir o r\u00e1dio e o pol\u00f4nio e ganhar dois pr\u00eamios Nobel era pouco para que uma mulher fosse reconhecida como algo mais do que uma simples dona de casa naquele fim de s\u00e9culo. Marie, que al\u00e9m de tudo era polonesa, ou seja, uma estrangeira em uma Fran\u00e7a bastante preconceituosa, precisava parecer um homem para levar cr\u00e9dito. <\/span><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando Pierre, seu marido cientista, morreu, ela deixou que apenas o di\u00e1rio conhecesse sua dor (que acabava tamb\u00e9m expressa no seu definhamento f\u00edsico) e, mais tarde, quando se apaixonou pelo f\u00edsico Paul Langevin, escondeu do mundo a alegria que o relacionamento lhe trouxe. Langevin era casado e isso complicava tudo. Mais uma vez, foi para o di\u00e1rio que ela se voltou. Precisava, novamente, parecer um homem para n\u00e3o ver sua pesquisa cair em descr\u00e9dito. Essa faceta da Marie humana atraiu a aten\u00e7\u00e3o da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero, que escreveu <em>A rid\u00edcula ideia de nunca mais te ver<\/em>, um livrinho com um ensaio muito delicado e esperto cuja autora, ela tamb\u00e9m, vinha embalada pela dor do luto pela perda do parceiro. \u201cN\u00e3o \u00e9 um livro sobre a morte, mas um livro sobre a vida, sobre como aprender a viver melhor, com mais plenitude e mais serenidade. Mas, para chegar nisso, \u00e9 preciso antes fazer um acordo com a morte\u201d, avisa Rosa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A autora espanhola aceitou escrever o livro &#8211; uma sugest\u00e3o da editora &#8211; ap\u00f3s ler o di\u00e1rio de Marie Curie. \u201c\u00c9 um di\u00e1rio do luto escrito como um uivo \u00a0de dor em carne viva. Sua inesperada paix\u00e3o (seu personagem oficial \u00e9 t\u00e3o controlado, t\u00e3o aparentemente frio\u2026.) foi o que me fez pensar em escrever esse livro. \u00c9 uma personagem poli\u00e9drica, muito humana. \u00a0Marie Curie tem problemas e sentimentos b\u00e1sicos que experimentamos todos. O livro tamb\u00e9m \u00e9 sobre liberdade de escolha\u201d, garante. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><em>A rid\u00edcula ideia de nunca mais te ver<\/em> n\u00e3o \u00e9 sobre o luto, e sim sobre os contrastes entre a personalidade que Marie cultivava como cientista e a que ocultava para manter o respeito. Rosa escreve com paix\u00e3o sobre a personagem, e sempre em um tom muito pessoal. Marie a fascina e ela n\u00e3o esconde essa admira\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que se permite v\u00e1rias reflex\u00f5es sobre sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria que, por fim, acaba sendo universal. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fingir n\u00e3o ter sentimentos para ser respeitada no meio masculino e apagar a feminilidade para impor respeito n\u00e3o s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es estranhas a mulheres como Rosa e Marie, ainda que hoje os movimentos feministas tenham facilitado as coisas e permitido que \u00a0se fale sobre isso abertamente. \u00c9 emblem\u00e1tico, no livro, o epis\u00f3dio em que o caso de Marie com Paul Langevin \u00e9 revelado pela imprensa e a cientista, dona de dois Nobel, descobridora de elementos que revolucionaram a ind\u00fastria e a medicina, se v\u00ea linchada como destruidora de lares e at\u00e9 mesmo privada de receber o pr\u00eamio. <em>A rid\u00edcula ideia de nunca mais te ver<\/em> \u00e9 um livro muito bonito, sincero como \u00e9 sempre a escrita de Rosa Montero, e para ser apreciado com pausas, j\u00e1 que h\u00e1 passagens bastante duras. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A rid\u00edcula ideia de nunca mais te ver<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Rosa Montero. Tradu\u00e7\u00e3o: Mariana Sanchez. Todavia, 206 p\u00e1ginas. R$ 54,90<\/span><\/p>\n<h2>Entrevista: Rosa Montero<\/h2>\n<p><strong>Voc\u00ea diz que o livro \u00e9 tamb\u00e9m sobre a liberdade de escolha. Mas essa liberdade ainda n\u00e3o \u00e9 um caminho vi\u00e1vel para muitas mulheres em certas partes do mundo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A liberdade \u00e9 dif\u00edcil para todos, homens e mulheres. No mundo Ocidental, essa busca da verdadeira e \u00edntima liberdade (n\u00e3o somente a de escolha, mas tamb\u00e9m a de saber o que se deseja), pode ser custosa para todos e mais dif\u00edcil ainda para as mulheres porque n\u00e3o levamos nossos pr\u00f3prios desejos t\u00e3o a s\u00e9rio quanto os homens (dever\u00edamos aprender com eles). No mundo, em geral, est\u00e1 claro que as mulheres ainda sofrem enormes dificuldades para controlar suas pr\u00f3prias vidas. Mas estamos avan\u00e7ando. <\/span><\/p>\n<p><strong>Depois de tantas conquistas femininas, estamos vendo governos extremamente conservadores que amea\u00e7am essas conquistas. Como v\u00ea essa onda conservadora que invade pa\u00edses como o Brasil, os EUA e o leste europeu?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O auge do extremismo, do dogmatismo, do fanatismo, do fascismo e do neoestalinismo, da saudade das tiranias, das demagogias ultras, \u00e9 algo que est\u00e1 em alta no mundo todo, desgra\u00e7adamente, e \u00e9 uma consequ\u00eancia do descr\u00e9dito no sistema democr\u00e1tico e da \u00faltima crise econ\u00f4mica, que provocou o empobrecimento de 25% da popula\u00e7\u00e3o mundial. Tudo isso \u00e9 uma trag\u00e9dia. Eu, que nasci e cresci na ditadura de Franco, sei bem que a pior democracia \u00e9 sempre mil vezes melhor que uma ditadura. \u00c9 preciso refundar a democracia ou correremos o risco de perder ganhos sociais conseguidos com sangue, suor e l\u00e1grimas durante s\u00e9culos. E as primeiras v\u00edtimas desses tempos reacion\u00e1rios s\u00e3o as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, surgiram com tanta for\u00e7a movimentos como o Me too e a rea\u00e7\u00f5es feministas mundiais que se tornaram uma resposta \u00e0 involu\u00e7\u00e3o. Devemos lutar para defender os ganhos democr\u00e1ticos e estamos fazendo isso. <\/span><\/p>\n<p><strong>Na Espanha, a op\u00e7\u00e3o foi \u00e0 esquerda. Acredita que essa seja uma boa solu\u00e7\u00e3o para o seu pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As elei\u00e7\u00f5es foram um sopro de ar fresco. Felizmente, as previs\u00f5es catastr\u00f3ficas de uma subida enorme da extrema direita n\u00e3o deram em nada. Segue sendo uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, sobretudo pelo independentismo catal\u00e3o, mas, sem d\u00favida, o resultado tem sido o melhor poss\u00edvel. <\/span><\/p>\n<p><strong>Sobre Marie Curie e o livro: em muitos momentos, vemos Rosa e Mme. Curie se igualarem na narrativa. Como foi a sensa\u00e7\u00e3o de se aproximar tanto de uma mulher com as qualifica\u00e7\u00f5es dela? <\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o me aproximei nem me comparei com ela de igual para igual, como profissional ou \u00a0mulher talentosa. Ela \u00e9 incompar\u00e1vel nesse quesito. No entanto, sim, me comparei e me reconheci como pessoa, e isso podemos fazer todos. Muito no fundo de cada um de n\u00f3s est\u00e3o todos n\u00f3s. <\/span><\/p>\n<p><strong>O que mais a fascinou na pesquisa sobre Marie Curie?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que mais me surpreendeu foi conhecer sua faceta apaixonada at\u00e9 a loucura. A Marie Curie oficial parece t\u00e3o fria, t\u00e3o controlada em suas fotos. E n\u00e3o sorri nunca. Mas, na realidade, era uma for\u00e7a da natureza e amava com \u00edmpeto de um maremoto. Sua hist\u00f3ria de paix\u00e3o com Paul Langevin, ap\u00f3s a morte de Pierre, \u00e9 alucinante. Assim como foi o fato de que, na Fran\u00e7a, quiseram linch\u00e1-la depois de ficarem sabendo da rela\u00e7\u00e3o. Mas o mais fascinante de Marie \u00e9 sua vontade de ferro. Conseguiu, literalmente, o imposs\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><strong>O caminho das mulheres est\u00e1 mais f\u00e1cil no s\u00e9culo 21? Ou n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o em todos os lugares (as meninas continuam a levar tiros na cabe\u00e7a por quererem estudar, como Malala), mas, no conjunto, com certeza. Muit\u00edssimo mais f\u00e1cil. Estamos desconstruindo, em um s\u00e9culo, um tipo de sociedade que durou mil\u00eanios. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas fotografias oficiais, Marie Curie parece uma mulher fria e dura. Era, talvez, a \u00fanica postura poss\u00edvel para que uma cientista do sexo feminino e com uma mente brilhante fosse levada a s\u00e9rio no final do s\u00e9culo 19. O que n\u00e3o se v\u00ea nessas imagens \u00e9 o lado passional e humano de Marie. Esse, que todos n\u00f3s temos em algum momento da vida, foi devidamente calado e amorda\u00e7ado. Afinal, estudar f\u00edsica e qu\u00edmica, ser pioneira no ramo da radioatividade, conseguir isolar is\u00f3topos radioativos, descobrir o r\u00e1dio e o pol\u00f4nio e ganhar dois pr\u00eamios Nobel era pouco para que uma mulher fosse reconhecida como algo mais do que uma simples dona de casa naquele fim de s\u00e9culo. 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